Faltando uma semana para o carnaval, o colunista já está de malas prontas para mais uma temporada no centro do universo.
Em uma coluna escrita antes do carnaval passado, havia chamado a atenção para práticas que misturam esporte, festa e rebeldia, como a capoeira e o frevo, assim como a importância destas tradições para o desenvolvimento do boxe no Brasil. Na coluna de hoje quero apresentar uma das tradições do carnaval soteropolitano, responsável direta pela popularidade do boxe na capital baiana.
A forma de se divertir, de pular o carnaval por parte de um expressivo grupo de homens, principalmente, ficou popularmente associada ao boxe, principalmente pela postura de se dançar imitando os gestos de um lutador. Logo, ficaram conhecidos como a pipoca do carnaval.
Não se sabe exatamente quando passou-se a usar o termo pipoca para se referir a esse grupo de pessoas que acompanham os trios elétricos do lado de fora dos cordões que separam a área reservada dos blocos. Seu nascimento, contudo, está intimamente ligado à criação do abadá e segmentação do público participante. Ou seja, a pipoca ocorre no espaço em volta da área privatizada que acompanha os trios e blocos de carnaval. A separação acontece precariamente com a manutenção de cordões e os cordeiros, funcionários pagos com a intenção de manter a segregação espacial. No agito dos ritmos propagados pelas bandas no trio, ao som do Axé Music, do Pagodão e de outras variações, os pipoca, como também são chamados, dançam lançando golpes e socos. O inverso, nesse caso também vale: lançam socos enquanto dançam, pulam e brincam o carnaval.
O termo pipoca surgiu, provavelmente, devido à influência da pulsação rítmica acelerada desenvolvida pela banda Chiclete com Banana, que teve enquanto referência o ritmo do galope pernambucano. Logo este ritmo foi adotado por diversas outras bandas e grupos, tornando-se hegemônico no carnaval de trio. Levando os foliões a pularem igual pipocas, possibilitou a criação de uma dança a partir de uma postura específica, a base de combate do boxe: uma técnica corporal destemida, afrontosa e agressiva, com a posição dos braços erguidos, em guarda alta, golpes lançados riscando o ar, saltos, fintas, empurrões, gingados e esquivas.
Atentos ao movimento popular do carnaval, os compositores baianos logo se apressaram a incluir, em suas músicas, temas, homenagens e referências ao boxe. Deixo, para vocês, uma breve lista de algumas dessas músicas, que podem ser encontradas em sua plataforma de streaming favorita:
- Foca e não sufoca (Chiclete Ferreira)
- Jeb Direto (Pagod’art)
- Vou dar uns pau (Fantasmão)
- Murro no queixo (A Bronkka)
- Lá vem a zorra (Igor Kannário)
- Desce a madeira (Parangolé)
E que o próximo carnaval seja o que sempre foi. Poética. Lugar de encontro e, ao mesmo tempo, lugar de afirmação de si perante as desigualdades que insistem em segregar.
*Michel de Paula Soares é Doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e responsável pela coluna Esportes Rebeldes.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

