Em uma sala escura com tijolos expostos e poucos móveis, Namíbia Flores se prepara para receber a benção de uma dupla de santeros. Uma senhora mais velha, com um pano branco na cabeça, vestindo uma saia também branca e carregando um lenço vermelho sobre os ombros. Enquanto fuma um cigarro, ela acende uma pequena vela já gasta e a coloca em um altar localizado no canto da sala. No altar, sobre uma toalha branca, uma estátua de um santo católico, uma cruz, alguns copos com água, plantas e enfeites coloridos.
Namíbia, vestindo uma camiseta regata preta, expõe contornados músculos em volta do ombro. Veste um tênis Nike. A senhora pega suas mãos e, com um giz branco, desenha uma cruz em cada palma. O santero, um homem mais jovem, também de camiseta regata e com um quepe africano na cabeça, esfrega algumas conchas em suas mãos enquanto pronuncia algumas palavras de encantamento. Depois coloca as conchas nas mãos de Namíbia e pede que ela converse com as conchas, que ela peça às conchas, reze para as conchas.
A cena é um trecho do filme Boxeadora, de 2015, feito pela cineasta Meg Smaker. O filme se inicia com imagens clássicas relacionadas a Cuba: um desenho de Che Guevara em uma parede, as ruas cheias de gente e a arquitetura deteriorada de Havana.
Porém, algo esta em jogo na intenção de apresentar a história de vida da boxeadora cubana Namíbia Flores nos poucos mais de 16 minutos do filme. A primeira aparição da protagonista acontece quando a câmera entra em uma academia de treinamento de boxe e focaliza Namíbia, a única mulher praticando em meio a dezenas de jovens.
O pedido de Namíbia aos orixás era simples de entender: “O meu sonho é que aprovem o boxe feminino em Cuba, para que eu possa competir, representar o meu país e me tornar uma campeã olímpica”. Isso porque a prática do boxe por mulheres foi proibida em Cuba desde o advento da revolução, em 1959 até 2023. A própria cineasta é uma boxeadora amadora e escolheu Cuba para passar um tempo de preparação para uma competição. Ela encontrou um ginásio que a treinasse e conheceu Namíbia Flores, uma pugilista que ansiava por representar seu país nas Olimpíadas e vinha lutando contra a burocracia que proibia o boxe feminino, enquanto também tentava obter um visto para lutar no Chile.
Conheci Namíbia em 2023, quando estive em Havana para pesquisar as políticas públicas para formação de boxeadores. Foi exatamente nesse ano que o boxe feminino passou a ser permitido na ilha. Namíbia, aos 47 anos de idade, sem condições de competir, agora se dedicava ao cargo de treinadora. Comandava treinos todas as tardes no ginásio Jesús Oropesa e trabalhava de entregadora, em sua moto elétrica, pela manhã.
A partir da revolução, Cuba trilhou uma trajetória singular, particular, criativa e também contraditória, como tudo que é humano, na busca por recriar um outro sentido para a humanidade. Creio que o futuro do boxe olímpico em Cuba vai depender, entre outros fatores, do investimento e incentivo ao boxe feminino, ainda muito incipiente no país, por mais que as mulheres venham frequentando as academias faz muitos anos.
Pelo seu pioneirismo e luta por reconhecimento, Namíbia é considerada uma heroína coletiva da nação, representando, ao mesmo tempo, os anseios por uma nova ordem social. De certa forma, ela utiliza seu corpo e relações para expor a desigualdade a que são submetidas e protestar contra a marginalização socioeconômica, particularmente das mulheres afro-cubanas.
Vale refletir que a regularização do boxe feminino em Cuba revela a possibilidade de profissionalização e monetarização das atletas, diminuindo a disparidade econômica entre a população negra e branca. Em 2015, ela disse: “Se eles reconhecerem o boxe feminino quando eu já não puder competir por causa da minha idade, bem, vou me contentar em servir como um exemplo para as mulheres jovens que virão depois de mim”. A primeira boxeadora cubana a ganhar uma medalha olímpica se lembrará de Namíbia.
*Michel de Paula Soares é doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e responsável pela coluna Esportes Rebeldes.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

