Esportes Rebeldes

Esta coluna é coordenada por Michel de Paula Soares. Debatemos diferentes temas sociais a partir e por meio dos esportes, sempre com uma perspectiva crítica.

O boxe para uma geração de mulheres estrategistas

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Treino com Iniciantes no Espaço Cultural Elza Soares
Treino de boxe com mulheres iniciantes no Espaço Cultural Elza Soares | Crédito: Arquivo Pessoal

Quem não se movimenta…toma golpe!

Numa manhã de domingo de agosto passado, fui ao Museu do Futebol com minha irmã mais nova. A exposição do térreo, que não faz parte da programação permanente, era sobre os times de futebol feminino do território indígena do Jaraguá, em São Paulo. A exposição chamava-se Jaraguá Kunhague Ouga’a – O jogo das mulheres do Jaraguá. 

Era o dia seguinte da minha primeira luta no Campeonato de Boxe de Alunos, então disposição não era meu forte. Mas estava difícil não me emocionar, e ver minha irmã, que teve o sonho de ser jogadora de futebol interrompido, andando por meio das instalações me fez refletir.

No Brasil, o esporte é, muitas vezes, uma possibilidade de um futuro diferente da realidade vivida pela maioria dos jovens. Ele pode garantir renda e profissão, além de apresentar novas perspectivas. Durante a juventude, o esporte é também momento de socialização e uma saída possível em realidades diversas, despertando noções de disciplina, saúde, respeito, e por que não, de diversão. E isso, meus amigos, isso é de fato lindo! Mas será que essa chance de descobertas e de se divertir é uma possibilidade concreta para meninos e meninas? 

Não é difícil ouvir relatos, ou observar com nossos próprios olhos, como os meninos, em relação às meninas, ocupam mais as ruas dos bairros onde moram com as bolas de futebol, ou são presença mais constante em projetos sociais que trabalham com esportes.

O que segura as meninas em suas casas? O que dificulta a presença regular delas em projetos, praças, jogos e encontros? Acredito que a gente já saiba a resposta.

SAIR DAS CORDAS E DISPUTAR O CENTRO DO RINGUE 

Sparring entre alunas do Boxe Sem Terra e Boxe FFLCH. crédito: Pérola Dutra

Tem gente que tem medo de ir ao médico porque um possível diagnóstico já assusta. Refletir sobre a realidade coletiva e chegar a diagnósticos também deixa muita gente assustada. Mas não a nós! 

O mês de março, assim como o de maio, são bastante disputados. De um lado estamos nós, reafirmando o caráter de luta, do outro lado estão eles (sabemos quem são) construindo histórias para atrapalhar o nosso jogo, a nossa estratégia. 

Assim como uma treinadora, ou treinador, que grita durante a luta: “o centro do ringue é seu”, mulheres quando se organizam reafirmam que o dia 8 de março é um dia DE LUTA. E que essa condição é permanente. Constante! 

E foi em meio ao mês de março que começamos, nós mulheres das academias Boxe Autônomo e Boxe Sem Terra, a nos questionarmos sobre algumas situações. Para não alongar a lista, nos perguntamos sobre frequência em treinos, combates, campeonatos, intervenções com falas…buscamos nosso diagnóstico.

Disso surgiu a ideia de construirmos uma semana de atividades só para mulheres, uma oportunidade para abraçar aquelas que desejam tentar algo novo, experimentar, sair do sedentarismo, enfim, vencer qualquer desafio que seja, e que pudessem se sentir seguras para realizar isso. 

E na semana “Mulheres na Luta” dividimos a programação em três frentes:

  • Aulas apenas para iniciantes, em um ambiente seguro e acolhedor;
  • Intercâmbio entre academias, para trocar experiências e técnicas;
  • Debates com atletas e sparrings entre as participantes.

Para nossa surpresa, uma boa surpresa, tivemos 96 inscritas para as atividades, e desse total, 74 eram iniciantes que nunca tinham praticado boxe na vida. Nossa estimativa é que mais de 100 mulheres passaram por nossos treinos, e damos destaque aqui para o volume de participantes nos treinos de iniciantes: 50 mulheres no primeiro treino e mais de 30 no segundo. Importante dizer que o número menor no segundo dia não significa necessariamente apenas faltas, pois houve rotatividade entre elas. Portanto, a maioria das inscritas conseguiu participar de pelo menos um dia de atividade. 

Treino com Iniciantes no Espaço Cultural Elza Soares – Arquivo

Nesse momento em que todos os dias notícias de feminicídio, misoginia e as mais diversas violências dominam jornais, redes sociais e conversas, podemos pensar que um dos diagnósticos para reunir mais de 100 mulheres pode ser esse. Mas não só! Concluímos também que ter construído um espaço em que todas estariam no mesmo “nível”, ou seja, estavam começando juntas uma mesma jornada foi um acerto. A timidez, insegurança, medo do desconhecido e gatilhos são fatores inibidores para a prática de qualquer atividade física. 

Quem não se movimenta…toma golpe!

Se aprendemos com Rosa Luxemburgo que quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem, no boxe a gente aprende que quem não se movimenta…é golpeado! Ficarmos paradas não é mais uma opção!

Mas, de novo, é preciso pensar, construir nossos diagnósticos, e…fazer combinações!

Cair no conto do feminismo liberal é sempre um risco quando queremos que mulheres ocupem todos os lugares. Sem construir condições concretas para que mulheres adultas e as meninas filhas da classe trabalhadora possam ter acesso à saúde, esporte e diversão, não estaremos rompendo de fato as cercas e correntes do patriarcado e do capitalismo. De novo voltamos para as cordas. E nossa tarefa aqui, minhas caras e caros, é disputar o centro do ringue! 

*Aline Antunes é Jornalista e Coordenadora do Boxe Sem Terra.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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