Existe uma velha ilusão segundo a qual os grandes conflitos internacionais dizem respeito apenas aos governos e às elites políticas. Como se as guerras, as disputas econômicas e as decisões das grandes potências fossem acontecimentos distantes da vida de quem pega ônibus, trabalha o mês inteiro para fechar as contas ou enfrenta o aumento constante do custo de vida. Não são.
O preço dos alimentos, dos combustíveis, a capacidade de um país gerar empregos e até sua margem para definir políticas próprias dependem, em alguma medida, da correlação de forças que está sendo construída no cenário internacional.
Basta olhar para o momento geopolítico atual. Os Estados Unidos da América do Norte seguem exercendo enorme influência sobre a economia e a política mundial. Com Donald Trump novamente na presidência, ganha força uma visão baseada na pressão econômica e no conflito armado. E fundamentado na disputa comercial agressiva e na defesa unilateral dos interesses norte-americanos, ainda que isso signifique enfraquecer acordos e instituições construídas ao longo de décadas.
Ao mesmo tempo, o Oriente Médio continua mergulhado em uma espiral de violência. Os ataques contra o Irã ampliaram ainda mais a tensão regional. Em Gaza, a destruição em larga escala e o sofrimento da população civil seguem provocando indignação em diferentes partes do mundo.
Organizações humanitárias, especialistas e organismos internacionais têm alertado para a gravidade da situação, enquanto as grandes potências demonstram enorme dificuldade — e muitas vezes falta de vontade política — para construir uma saída que interrompa o genocidio promovido pelo sionismo.
Na América Latina, a disputa por influência nunca deixou de existir. As pressões diplomáticas, as sanções econômicas e as tentativas de condicionar decisões soberanas dos países da região continuam fazendo parte do jogo geopolítico. Quem conhece a história latino-americana sabe que interferências externas não são novidade. Elas apenas assumem formas diferentes conforme mudam os tempos.
Mas o que tudo isso tem a ver com Olinda, com Pernambuco ou com o Brasil? Tem tudo a ver.
Quando um país perde capacidade de decidir os seus próprios rumos, perde também condições de proteger sua economia, suas riquezas naturais e seus interesses estratégicos. A discussão sobre soberania não é um debate abstrato reservado aos especialistas em relações internacionais. Ela diz respeito ao presente e ao futuro de milhões de brasileiras e brasileiros.

O Brasil tem dimensão territorial, população, recursos naturais e relevância diplomática suficientes para ocupar um papel importante no mundo. Foi justamente essa busca por autonomia que marcou alguns dos momentos mais importantes da política externa brasileira.
Nos últimos anos, o governo Lula procurou recuperar essa tradição, fortalecendo o diálogo com países do Sul global e defendendo uma inserção internacional menos subordinada aos interesses das grandes potências. É uma estratégia que pode ser debatida, criticada e aperfeiçoada, como qualquer política pública. Mas parte de um princípio fundamental: o Brasil deve falar com voz própria.
É justamente aí que surge uma das questões mais importantes do nosso tempo. Há setores da extrema direita brasileira que transformaram em projeto político o alinhamento automático aos interesses de Washington. A família Bolsonaro é o exemplo mais evidente desta postura entreguista. Não se trata apenas de afinidade ideológica, mas de reproduzir agendas, discursos e prioridades que pouco têm a ver com os desafios concretos do povo brasileiro. Na prática, atuam para sabotar a construção de um Brasil forte e autônomo.
Quem defende a soberania nacional precisa enxergar esse problema com clareza. Nenhuma potência estrangeira precisa ocupar militarmente o Brasil para influenciar seus rumos. Em um mundo profundamente integrado, a submissão pode acontecer por outros caminhos: pela dependência econômica, pelo alinhamento político incondicional e pela renúncia à capacidade de formular um projeto nacional.
É por isso que o debate dos próximos anos vai muito além da disputa entre partidos ou candidaturas. O que está em jogo é o lugar que o Brasil pretende ocupar em um mundo cada vez mais instável e competitivo. Um país que decide seus próprios interesses ou um país que aceita que outros decidam por ele.
Vale a pena prestar atenção ao que acontece além das nossas fronteiras. Não por curiosidade, mas porque parte das disputas que definirão nosso futuro já estão em curso. Defender a democracia, a soberania nacional e a cooperação fraterna entre os povos continua sendo uma tarefa necessária para quem acredita em um Brasil mais justo, mais independente e capaz de construir seu próprio caminho civilizacional.

