Está em debate no Psol a possibilidade de federalização com o PT. Não se trata de um cálculo pequeno, nem de uma disputa interna menor. Está em jogo a identidade do nosso partido, sua capacidade de dialogar com a sociedade, a melhor forma de enfrentar o bolsonarismo no próximo período, além do perfil de esquerda que queremos construir.
O Psol é um partido muito importante para o Brasil. Desde sua fundação, abriu as portas da política institucional para quem historicamente ficou do lado de fora: jovens, mulheres, negros, LGBTs, moradores das periferias, trabalhadores precarizados. Foi através do Psol que muitas dessas vozes passaram a disputar poder de verdade.
Eu mesmo sou fruto dessa construção coletiva. Se o Psol não existisse, eu jamais teria sido o primeiro parlamentar assumidamente LGBT da Câmara Legislativa do Distrito Federal.
A federação partidária traz algumas vantagens concretas. Ela otimiza os votos da esquerda, dá mais segurança diante da cláusula de barreira e evita dispersão eleitoral. Em um sistema político cada vez mais restritivo para partidos médios e pequenos, isso pesa. Não podemos tratar esse ponto com leviandade. Essa é uma das razões pelas quais firmamos uma importante federação com a Rede.
Mas a federação também impõe limites severos. Ela funciona, na prática, como um partido único nas eleições. Isso significa unidade obrigatória nas disputas municipais, estaduais e federais. Significa abrir mão da flexibilidade tática que sempre caracterizou o Psol. E significa, inevitavelmente, submeter as definições estratégicas a um partido que, pelo seu tamanho, terá peso determinante na condução da federação.
Nós precisamos enfrentar o bolsonarismo com unidade. Mas temos que reconhecer que há divergências reais sobre como fazer isso.
Há setores que apostam prioritariamente na construção de amplas alianças com o centrão como forma de isolar a extrema direita. Há outra estratégia que aposta na radicalização do programa da esquerda, na defesa clara dos direitos sociais e dos direitos humanos, na ampliação do investimento público, no enfrentamento das desigualdades e na mobilização popular. Estar em uma única federação pode limitar nossa capacidade de disputar a agenda de enfrentamento ao bolsonarismo.
Unidade não significa uniformidade
O engessamento do Psol dentro de uma federação pode nos levar a situações politicamente contraditórias. Imaginem a situação dos nossos companheiros do Rio de Janeiro, por exemplo, sendo forçados a uma composição com Eduardo Paes, a quem sempre fizemos oposição. Uma situação semelhante aconteceria também no estado do Pará. Fora de uma federação, poderíamos apresentar uma candidatura própria, afirmando um projeto alternativo. Dentro dela, essa margem de decisão simplesmente deixaria de existir.
O Psol, muitas vezes, cumpre um papel pedagógico na política brasileira: testa caminhos, ousa em agendas, tensiona consensos e mostra que há espaço para posições mais firmes à esquerda. Ao limitar nossa autonomia tática, diminuímos essa capacidade de inovação estratégica que, no fim, beneficia todo o campo progressista.
Não ignoro o desafio da cláusula de barreira. O Psol é um partido que valoriza a disputa eleitoral e a representação institucional. Queremos ser fortes e viáveis. Mas também é verdade que temos nos consolidado no sistema partidário brasileiro.
Contamos com quadros expressivos, alguns dos nomes mais respeitados da política nacional. E, talvez mais importante do que isso: formamos novas lideranças todos os dias, nas periferias, nas universidades, nos movimentos sociais, que demonstram capacidade de sustentar e ampliar esse projeto.
Acredito que temos condições de apostar na força do Psol. Essa aposta não é livre de riscos, mas ser de esquerda em um sistema político capitalista sempre exigirá um certo nível de ousadia.
O Psol é um partido necessário. É necessário porque afirma um programa de esquerda importante para o Brasil. A unidade para enfrentar o bolsonarismo é indispensável. Mas unidade não significa uniformidade. Não pode levar à submissão. Acredito que podemos e devemos atuar juntos nas lutas concretas e nas grandes disputas nacionais, preservando, ao mesmo tempo, nossa autonomia organizativa e eleitoral.
Estarmos em federações diferentes não nos enfraquece. Ao contrário: pode fortalecer a esquerda brasileira como um todo, ampliando suas possibilidades estratégicas, suas vozes e sua capacidade de diálogo com a sociedade. A diversidade dentro do campo progressista é uma força, desde que saibamos transformá-la em projeto comum.
*Fábio Felix é deputado distrital do DF, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Cidadania e Legislação Participativa da Câmara Legislativa do DF (CLDF), assistente social, professor e ativista LGBTQIA+.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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