Fabio Potiguar

Sacerdote da CNBB atuando na Arquidiocese de Olinda e Recife. Membro do Instituto Dom Helder Câmara – IDHeC.

Um bispo e o maior bloco do mundo

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No Carnaval de 2026, o Galo da Madrugada carregou o coração de Dom Hélder Câmara
No Carnaval de 2026, o Galo da Madrugada carregou o coração de Dom Hélder Câmara | Crédito: Brenda Alcântara / Prefeitura do Recife

Ei, pessoal! O Carnaval começa no Galo da Madrugada. Começa com o coração de Dom Hélder.

Dom Hélder Câmara, que sempre olhou com tanto carinho para o Carnaval, esteve este ano no coração do Carnaval do Recife, sendo ele o próprio coração do Carnaval no peito do Galo da Madrugada.

Todos os anos, no domingo mais próximo do dia 7 de fevereiro — data do aniversário de Dom Hélder — o Instituto Dom Hélder Câmara (Idhec), na Igreja das Fronteiras, realiza uma grande celebração. Claro que o chão e a cumeeira da festa são a celebração eucarística, onde, repletos do Espírito Santo, por Cristo, com Cristo e em Cristo, damos ao Pai toda honra e toda glória em torno da mesa da Palavra e da Eucaristia, celebrando a Páscoa de Cristo. Mas, depois, sempre há o Carnaval.

Dom Hélder também brincava o Carnaval, na porta da igreja, onde os blocos líricos, o Bloco da Saudade e outros vinham homenageá-lo. Isso continua até hoje. Há uma fala muito conhecida dele:

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo: uma das raras alegrias que ainda restam para a minha gente querida. Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se os excessos aqui e ali, cometidos por foliões, ou o farisaísmo e a falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o Carnaval. Brinque, meu povo querido, minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se colocou um pouco de sonho na dura realidade da vida.”

Este ano, o grande Leopoldo Nóbrega, o Instituto Leopoldo Nóbrega e todos os artesãos, artistas e técnicos — aquele grupo fabuloso e extraordinário — realizaram a homenagem do Galo da Madrugada a Dom Hélder Câmara, colocando no peito do Galo o coração de Dom Hélder, que pulsa dizendo: amor, amor, amor. Dom Hélder foi um discípulo de Jesus. E Ele disse: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Nisto todos saberão que sois meus discípulos.”

Naquele coração vermelho, feito pelo mestre Júlio, todo construído a partir de materiais recicláveis — ou seja, um Galo inteiramente ecológico — está ali o coração de Dom Hélder e, em torno dele, a frase: “Brinque, meu povo querido.”

É tão bonito escutar essa mensagem de Dom Hélder em tempos de tanta intolerância, tanto ódio, misoginia, homofobia, racismo, intolerância religiosa e polarização política. É importante repetir a palavra de Jesus: “Nisto todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”. O amor é nossa foto de identidade. O amor é aquilo que nos identifica.

Na belíssima Recife, mesmo com todas as contradições e escândalos das desigualdades sociais, temos a alegria e o orgulho de pertencer a esta cidade cheia de pontes. O Galo da Madrugada, no meio da Ponte Duarte Coelho, quer dizer também para nós que, em vez de sermos muros, devemos ser pontes — pontes de convergência. É evidente que temos divergências, mas precisamos ser pontes para abrir diálogo, possibilidades e inventividade, como a própria invenção do Galo da Madrugada.

Ei, pessoal! O Carnaval começa no Galo da Madrugada. Começa com o coração de Dom Hélder.

Outra grande personalidade homenageada neste Carnaval é Nise da Silveira, essa médica nordestina de Alagoas que ganhou o mundo. No Brasil, ela começou a aplicar uma abordagem inovadora para o cuidado com aqueles que antigamente eram chamados de “loucos” e que hoje, corretamente, chamamos de pessoas com transtornos mentais.

Naquele tempo, utilizava-se eletrochoque de forma brutal e tratamentos desumanos, com pessoas colocadas em condições semelhantes a jaulas. Nise trouxe, além da medicação, um outro remédio ainda mais potente: a arte. E, como diz Dostoiévski, “a beleza salvará o mundo”.

Foi assim que nasceram as oficinas terapêuticas e o Museu do Inconsciente, revelando grandes artistas como Arthur Bispo do Rosário. Ela deixou para o mundo uma proposta diferente de cuidado, baseada na dignidade da pessoa humana e no respeito à subjetividade.

Não se pode falar do Galo da Madrugada de 2026 sem recordar Frei Edilson e Pollyana, do Convento de Santo Antônio, na Rua do Imperador, de onde esse coração saiu em cortejo até a ponte, acompanhado pela pastoral do povo de rua, que também construiu fantasias e estandartes. Foi um gesto profundamente simbólico.

Foi muito emocionante estar ali na véspera da subida do Galo, com Leopoldo, sua irmã Germana e parte da equipe. Fui convidado a subir no guindaste para colocar o coração de Dom Hélder no peito do Galo, obra do mestre Júlio. Foi uma experiência inefável, foi lindo demais ver os dois irmãos colocando o coração. Não tenho palavras suficientes para descrever aquele momento. Aquele coração vermelho nos lembra que também devemos ser corações que batem para amar.

Renovo aqui o convite que já fiz duas vezes, reservadamente, ao presidente Lula: o senhor que tantas vezes vem ao Recife e a Pernambuco, venha visitar o Memorial Dom Hélder Câmara, onde já esteve antes de assumir a Presidência, visitando o próprio Dom Hélder, ao lado de Dona Marisa e os meninos.

O senhor sancionará a lei que reconhece Dom Hélder como Patrono dos Direitos Humanos. Venha visitar a Igreja das Fronteiras e a Casa de Dom Hélder. Tenho certeza de que isso dará ainda mais significado e beleza à sua agenda. Está feito, está renovado o convite.

Editado por: Vinícius Sobreira

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