Ainda hoje, não são poucos os que afirmam que a Igreja Católica condenou a Teologia da Libertação. Essa afirmação pode nascer da simplicidade e da falta de conhecimento acerca do ensinamento oficial da Igreja. Mas pode também ser propagada por grupos perversos, iníquos, presos a interesses ideológicos, que não têm compromisso com a verdade nem com a comunhão eclesial e, por isso, difundem interpretações que não correspondem ao ensinamento oficial do Magistério. Em ambos os casos, o caminho é o mesmo: voltar às fontes, ler os documentos e permitir que a própria Igreja fale por si.
Em 1984, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a instrução Libertatis Nuntius. Dois anos depois, em 1986, publicou a instrução Libertatis Conscientia. Nenhum desses documentos condena a Teologia da Libertação em si. O que ambos fazem é exercer o necessário discernimento teológico, rejeitando determinadas correntes que recorreram à práxis marxista, absolutizaram a luta de classes, reduziram a salvação à dimensão exclusivamente política ou legitimaram a violência como instrumento de transformação social.
É importante, porém, ouvir os próprios documentos. Porque eles não falam apenas dos desvios que deveriam ser corrigidos. Eles reconhecem expressamente a aspiração à libertação e a incompatibilidade entre o Evangelho e as situações de injustiça e opressão. A instrução Libertatis Conscientia, de 1986, declara: “A Igreja de Cristo faz suas tais aspirações, ao mesmo tempo em que exerce seu discernimento à luz do Evangelho, que, por sua própria natureza, é mensagem de liberdade e de libertação”.
E a Libertatis Nuntius (1984) afirma: “As desigualdades iníquas e as opressões de toda a espécie que afetam hoje milhões de homens e mulheres estão em aberta contradição com o Evangelho de Cristo e não podem deixar tranquila a consciência de nenhum cristão”.
Portanto, quando se leem os documentos — e não apenas interpretações ideológicas sobre eles — torna-se evidente que a Igreja não condenou a autêntica Teologia da Libertação. Condenou desvios, reducionismos e instrumentalizações incompatíveis com a fé cristã.
Ao contrário, os próprios documentos reconhecem a legitimidade de uma autêntica Teologia da Libertação, profundamente enraizada na Sagrada Escritura, na tradição da Igreja, no Magistério e na doutrina social da Igreja. Afinal, o Deus da revelação é o Deus que escuta o clamor dos pobres. No livro do Êxodo, o Senhor declara: “Eu vi a opressão do meu povo… ouvi o seu clamor… conheço os seus sofrimentos e desci para libertá-lo” (Ex 3,7-8). A libertação, portanto, pertence ao coração da própria revelação bíblica.
Essa libertação, contudo, é sempre integral. Cristo veio libertar o ser humano do pecado, da morte e de tudo aquilo que desfigura a imagem de Deus na humanidade. Não apenas do pecado pessoal, mas também daquilo que São João Paulo II chamou de estruturas de pecado e de pecado social, realidades que produzem exclusão, violência, miséria e atentam contra a dignidade da pessoa humana.
Foi precisamente nessa perspectiva que São João Paulo II, na “Carta aos Bispos do Brasil”, de 9 de abril de 1986, por ocasião da visita ad limina da CNBB, afirmou que uma autêntica Teologia da Libertação é “não só oportuna, mas útil e necessária”.
Essa afirmação de João Paulo II possui um peso extraordinário. Não se trata de um teólogo particular, de uma corrente eclesial ou de uma interpretação periférica. É o próprio sucessor de Pedro dirigindo-se aos bispos brasileiros e reconhecendo a necessidade de uma Teologia da Libertação autêntica, fiel à Igreja e ao Evangelho.
Mais recentemente, essa compreensão encontrou uma formulação igualmente significativa no pontificado do Papa Leão XIV, que afirmou que “a Teologia da Libertação é uma grande escola”. Trata-se do reconhecimento da riqueza dessa tradição teológica quando permanece fiel a Jesus Cristo, em comunhão com a Igreja e a serviço dos pobres. A opção preferencial pelos pobres, portanto, não é uma opção ideológica. É uma exigência do Evangelho.
Não por acaso, toda a Doutrina Social da Igreja caminha nessa mesma direção. Desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, passando pela Pacem in Terris, Populorum Progressio, Laborem Exercens, Sollicitudo Rei Socialis, Centesimus Annus, Caritas in Veritate, Laudato si’, Laudate Deum, Fratelli Tutti, Dilexit Nos e os ensinamentos mais recentes do Papa Leão XIV, a Igreja proclama que evangelização, justiça, paz, cuidado da criação e promoção da dignidade humana pertencem a uma única missão: anunciar Jesus Cristo e o seu Reino.
Por isso, dizer simplesmente que “a Igreja condenou a Teologia da Libertação” é desconhecer o ensinamento oficial do Magistério. A Igreja condenou desvios, mas jamais condenou o compromisso evangélico com os pobres, a promoção da justiça, a defesa da dignidade humana e a construção da paz.
Não podemos reduzir a salvação cristã a um projeto político. Mas tampouco podemos espiritualizar o Evangelho de tal maneira que o sofrimento concreto dos pobres, dos excluídos, dos famintos, dos violentados e dos descartados deixe de interpelar a consciência cristã.
O mesmo Cristo que perdoa os pecados toca os leprosos, alimenta os famintos, acolhe os marginalizados, restitui dignidade aos excluídos e proclama bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. A verdadeira libertação cristã começa no coração humano, alcança as relações entre as pessoas e interpela também as estruturas que produzem sofrimento e morte.
Por isso, uma Teologia da Libertação autenticamente cristã não substitui Jesus Cristo por uma ideologia. Ao contrário: parte de Jesus Cristo, retorna a Jesus Cristo e reconhece nos pobres o rosto do próprio Cristo.
Há, em nossos dias, uma onda de catolicismo reacionário e fascista, movida pelo ódio e pela prática do ódio em palavras e atitudes, que precisa ser enfrentada à luz do próprio Evangelho. Um catolicismo que nega, na prática, o mandamento do amor quando transforma a fé em instrumento de ódio; que nega a opção evangélica pelos pobres quando manifesta desprezo por eles e substitui a solidariedade pela indiferença; e que contradiz frontalmente o Evangelho de Jesus e a Doutrina Social da Igreja quando alimenta o racismo, a misoginia, a homofobia, a intolerância religiosa, a discriminação e todas as formas de exclusão.
Por isso, mais do que nunca, a autêntica Teologia da Libertação e a Doutrina Social da Igreja são oportunas e necessárias para que possamos viver com fidelidade e coerência o Evangelho de Jesus Cristo, nosso irmão e salvador.
Façamos, então, como aqueles que, na madrugada, quando a noite já se retirava e o dia ainda despontava, subiam ao monte levando cítaras, harpas, címbalos sonoros e tambores para salmodiar ao Senhor. Também nós elevemos nosso louvor ao Deus da vida, porque a esperança nunca dorme e o Reino já desponta entre nós.
E que ressoe, como síntese da missão da Igreja e da autêntica Teologia da Libertação, a proclamação do salmista: “O amor e a verdade se encontrarão; a justiça e a paz se abraçarão” (Sl 85[84],11).

