“Quando crianças começam a brincar, alguma coisa em minha alma começa a se alegrar”. Assim Fernando Pessoa traduziu a presença mágica de meninos e meninas nos espaços e lugares da cidade. E no mês em que, no Brasil, comemoramos a infância, esse período tão curto, mas tão fundamental da existência humana, convidamos a uma reflexão sobre como cuidamos – Estado e sociedade – desse grupo que até pouco tempo atrás não era sequer considerado sujeito de direitos.
Ao longo de 2025 os pequenos estiveram na pauta de debates públicos e foram submetidos a graves violações. Situações por vezes extremas que atingem diretamente a capacidade imaginativa das crianças, abreviando a infância e prejudicando não só o hoje de suas vidas, mas o desenvolvimento do adulto que virão a ser no amanhã.
Insegurança alimentar e fome, violência urbana e guerras, abusos e exploração (intrafamiliar ou nas redes sociais) e ainda a atualização de discursos ultraconservadores por meio de propostas legislativas absurdas, como redução da maioridade penal, recrudescimento de medidas socioeducativas e proibição do aborto para crianças violentadas.
Tudo na contramão de avanços basilares galgados ao longo dos últimos 100 anos, quando o dia 12 de outubro fora instituído como a data de celebração da infância e marco para a constante reavaliação de sua situação política, social e cultural. Aliás, ainda precisamos questionar sobre as mudanças culturais que tiraram a molecada do mundo real para aprisioná-la em telas.
As crianças, por sua condição especial de pessoas em desenvolvimento, são mais vulneráveis e sofrem de maneira acentuada todos os desdobramentos da questão social advindos das desigualdades e da pobreza.
Mais de 43% das crianças brasileiras de até 12 anos vivem em situação de pobreza (Fundação Abrinq 2025). Sabemos que esse dado possui muitas camadas de sentido para as quais é preciso um olhar atento e sensível. São mais de 5 milhões de crianças e adolescentes vivendo em favelas e comunidades, em moradias precárias, com rede de serviços reduzida e sucateada, enfrentando obstáculos e desafios ao acesso a direitos sociais mínimos, incluído aí o direito à própria infância.
Os problemas estruturais das periferias, tais quais a ausência ou precariedade de serviços públicos e recursos culturais torna os direitos das crianças mais gravemente violados. Elas devem ser prioridade na educação, saúde e segurança; têm direito à alimentação completa e saudável para seu desenvolvimento físico e mental; têm direito ao lazer e ao convívio comunitário e familiar; devem ser protegidas contra a violência e a negligência (seja do Estado ou das próprias famílias). Quanto desses direitos efetivamente chega para crianças do povo? A luta para acessá-los passará sempre pela organização política da classe trabalhadora, que deverá estar atenta aos retrocessos e às falhas do sistema em garantir direitos há muito reconhecidos.
Os territórios periféricos, contudo, são mais complexos e eivados de significantes que o conjunto de seus principais problemas. É também vida pulsante, espaço criativo e lugar de potencialidades. Por isso mesmo, não podemos esquecer a infância como tempo fértil e fundamental, “a melhor fase para se plantar ideias”.
A criança vivifica a cidade. Sua presença nas ruas e bairros transforma o território, dando contornos e cores, sons e sabores, tornando espaço público experiência vivida e compartilhada, coletivizando a cidade para além de sua função de recolhimento, sobretudo aqui no DF, onde as RAs são sufocadas pelas escalas 6×1.
O tempo livre das crianças tem a importância da formação cidadã, porque brincar é mecanismo primordial de aprendizado, e brincar na rua com seus pares, ao criar memórias e afetos a partir de locais e espaços coletivos, produz a apropriação do território, sedimentando a capacidade futura de meninos e meninas se lerem enquanto sujeitos políticos. Assim, o direito à cidade também toca o direito à infância, e vivê-los em plenitude é mutuamente complementar. É válido perguntar, portanto, quais os elementos políticos, econômicos, sociais e culturais que retiram as crianças desses espaços, comprometendo seu desenvolvimento e sua cidadania.
Por um lado, temos a negligência do Estado ao não cumprir seu dever de fornecer os mínimos sociais dentro das comunidades, como aqui em Santa Maria e outras periferias do DF e do Brasil. Em consonância, vemos a precarização das relações de trabalho, diminuição dos direitos e sufocamento das(os) trabalhadoras(es), que enfrentam longas jornadas em troca de pouco dinheiro e nenhuma segurança, afastando-as(os) das famílias, e das crianças, sem o suporte (ou com suporte insuficiente) de creches, escolas integrais ou espaços de vivência e aprendizados comunitários.
Ainda nesse sentido, ausência de recursos culturais e de lazer seguros: quantas praças, parques, projetos de arte e cultura existem nas quebradas?
Por outro lado, no campo ideológico, vivemos a época da cultura do medo, em que fomos convencidos de que as ruas são perigosas e devemos estar afastados delas. Paralelamente, as redes sociais, jogos online e todo universo virtual oferecidos à mão por meio de telas de celulares e tablets logo se tornaram alternativas aos espaços de contato e convívio vistos como perigosos. Entre crianças e adolescentes esta é uma verdade generalizada. Um risco ao crescimento saudável, de todos os pontos de vista, ao que ressaltamos do ponto de vista da formação político-cultural e de cidadania das novas gerações.
É preciso reeducar o olhar para este e todos os problemas aqui listados. Se o direto à cidade nos é negligenciado, atingindo sobretudo a infância, a solução não será o recolhimento individualizado, mas a busca coletiva para se reapropriar do território, construindo a cidade que queremos, uma que nossas crianças mereçam. Não há avanço social algum que tenha prescindido da pressão popular, algo que somente eclodirá a partir do contato proporcionado pelo viver a cidade.
A infância na periferia sofre com essas tantas questões, mas a capacidade imaginativa das crianças, que se alimentam de sonhos, embora não as compense nem resolva por si só, preenche de alegria os lugares compartilhados. “Não fosse o tempo, dominariam o universo”, diz Sérgio Vaz, e Cecília Meirelles lembra que “enquanto não têm foguetes para ir à lua, os meninos deslizam de patinete pela rua”.
Nessas brincadeiras em que suas mentes se expandem para além dos problemas mais imediatos da cidade elas forjam memórias e exercitam habilidades que as tornarão mais suscetíveis à consciência coletiva. Ocupar a cidade pelo direito de brincar: uma ação que pode ser protagonizada por grupos populares e coletivos culturais, pelos artistas e agentes fazedores de cultura, pela criatividade produtiva de empreendimentos populares e solidários.
Humanizamos os espaços públicos, rompemos com o isolamento estratégico que nos domina e proporcionamos qualidade para o resgate fundamental da infância. Viver a cidade pelo direito de brincar é também trabalho de base. Então que no mês das crianças festejemos com elas, mas com vistas sempre à consciência e organização política para compreendermos os problemas que enfrentamos e mudarmos a realidade social para todas e todos, crianças em primeiro lugar.
*Alex Martins Silva e Paula Juliana Foltran são membros do Coletivo Família Hip Hop.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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