“Quando eu morrer, que me enterrem/ Na beira do chapadão/ Contente com minha terra /Cansado de tanta guerra/ Crescido de coração”. Essa é uma das estrofes mais lindas por meio das quais Chico Buarque, nosso grande artista brasileiro, reflete sobre o pertencimento e nossa relação com o lugar que habitamos.
Aprendemos com a Geografia que o lugar diz respeito aos vínculos e afetos que estabelecemos com o espaço no qual circulamos e temos relações. Em um país urbanizado como o nosso, portanto, pensar o lugar é também pensar a cidade. Qual cidade temos à nossa disposição? Qual o “lugar” do trabalhador em João Pessoa?
Trazendo a reflexão para o nosso cotidiano, nos deparamos com a beleza de nossa cidade (histórica, arquitetônica, artística, natural…) contraposta ao avanço violento do capital associado a uma gestão pública que não pensa a cidade como esse “lugar” de seus habitantes, mas como gestão do lucro. Os interesses dominantes e imediatos são preponderantes, por vezes ameaçando marcos jurídicos de proteção do meio ambiente.
Em um cenário no qual crescem os condomínios verticais e os parques em bairros “nobres”, é urgente refletirmos sobre qual o espaço que tem sido oferecido para o povo vivenciar a cidade com a garantia de seus direitos, sem que essa relação se restrinja à típica relação de consumo. Mais do que consumidores, somos habitantes!
Diante disso, precisamos manter vivo o projeto de uma cidade pensada pelas trabalhadoras e trabalhadores e para a classe trabalhadora, na qual a perspectiva da segregação e da privatização do espaço público ceda lugar à ampliação dos espaços coletivos, democráticos e com uma segurança pública que não se confunda com intimidação dos marginalizados.
É direito de todos nós e dever do Estado um transporte público de qualidade e eficiente, além de lazer gratuito nos finais de semana, praias livres de poluição e acesso aos serviços públicos onde sejamos respeitados por aqueles que exercem função pública. Quando nos atende bem, o Estado não está fazendo um favor, mas cumprindo seu dever – nada além disso!
Nesse cenário, somente a mobilização popular pode nos conduzir a uma João Pessoa democrática. Necessitamos urgentemente repensar os rumos de nossa cidade a partir dos movimentos sociais que dela emergem, pois aqueles que melhor compreendem seus problemas são os que vivem diariamente suas contradições e esperanças. Sem participação popular não há cidade viável, apenas maquiagem para turistas. E não estamos aqui de passagem.
*Felipe Candeia é graduando em direito pela UFPB, voluntário na Coordenadoria de Execução Penal (DPE-PB) e estagiário bolsista da Procuradoria Federal/UFPB.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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