Felipe Candeia

Um convite à reflexão sobre os problemas sociais, sob uma perspectiva da classe trabalhadora e para a classe trabalhadora, sem pretensão de encerrar qualquer debate, tendo em vista a promoção da circulação das ideias em defesa da soberania popular.

Felipe Candeia é graduando em direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Foi monitor bolsista de Ciência Política e bolsista do projeto de extensão Paradoxos da Liberdade de Expressão. Atualmente é voluntário na Coordenadoria de Execução Penal (DPE-PB) e estagiário bolsista da Procuradoria Federal/UFPB.

Os valores republicanos e o atraso das oligarquias paraibanas

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Cidade de João Pessoa no início da República | Crédito: Memorial Virtual do Tribunal de Justiça da Paraíba

Tal perpetuação de privilégios políticos e econômicos está em notório conflito com os interesses coletivos

A Modernidade inaugura uma profunda transformação no mundo, que funda a vida em sociedade como nós conhecemos hoje. O nosso país, de origem escravocrata e fruto de uma violência colonialista, ainda lida com sua modernidade em construção. Apesar da Era Vargas representar a inauguração do Estado Moderno Brasileiro, permanece em nossa sociedade traços marcantes de uma relação entre o público e o privado que não condizem com os princípios republicanos trazidos pela nossa modernização.

Quando refletimos sobre o nosso estado, a Paraíba, percebemos que ainda lida com as dificuldades de uma dominação política pautada pela sucessão hereditária. Nesse cenário, a Paraíba tem sido continuamente comandada, em diferentes esferas, por pessoas cujo principal mérito reside no sobrenome que possuem. As lideranças alternativas têm se mostrado excepcionais.

Não se trata de realizar ataques pessoais, mas de reconhecer que é profundamente problemático – e sinal de atraso para o nosso estado – o fato de que poucos sobrenomes ocupem reiteradamente cargos de extrema importância, indicando que basta nascer em certa família para comandar o destino de muitas pessoas, enquanto a maioria se esforça para sobreviver e pagar as contas.

Em um país que tem como premissa o Estado Democrático de Direito associado à forma republicana de governo, tal perpetuação de privilégios políticos e econômicos está em notório conflito com os interesses coletivos de saúde, educação, moradia, lazer… Dignidade humana! Qual a legitimidade para representar o povo possui alguém que, além de não ter origem popular, sequer conhece a realidade dura da população? Mais que isso, invocam constantemente a religiosidade para fins eleitorais, apesar do Estado Laico. A política paraibana está empobrecida, portanto, pelos privilégios políticos e falta de compromisso com os mandamentos da Constituição Federal.

A carência de propostas que visem melhorar a qualidade de vida da população somente demonstra a situação relatada. Atualmente, estamos sendo representados por uma maioria de políticos que mais se preocupa em criticar as minorias sociais, ou ignorar suas demandas legítimas e urgentes, do que pensar nos problemas enfrentados pelos paraibanos na busca por sobrevivência e dignidade.

Em um cenário tão difícil, precisamos identificar as pessoas que realmente possuem interesse em defender o povo, e não apenas o empresariado com o qual se identificam. Vivemos sob uma Constituição Federal que impõe amplos direitos sociais e individuais, o que torna inadmissível que pessoas sejam eleitas para defenderem aqueles que não precisam dessa defesa, pois o interesse empresarial encontra limites nas necessidades fundamentais da coletividade.

Enquanto não houver uma profunda transformação em nossas instâncias de poder, na Paraíba e no restante do país,  a República e os seus valores de separação da Igreja em face do Estado, da transparência na gestão dos recursos públicos e da soberania popular permanecerão apenas um horizonte não concretizado. Cabe à sociedade paraibana reconhecer onde está o interesse público.

*Felipe Candeia é graduando em direito pela UFPB, voluntário na Coordenadoria de Execução Penal (DPE-PB) e estagiário bolsista da Procuradoria Federal/UFPB.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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