O Brasil acordou no domingo com uma cena dramática: enquanto dezenas de famílias visitavam o zoológico da capital da Paraíba, um jovem de 19 anos, em visível sofrimento psíquico, escalou um muro, desceu por uma árvore e entrou na jaula dos leões da “Bica”, em João Pessoa.
As imagens se espalharam em poucos minutos. Milhões de pessoas assistiram, quase em tempo real, à morte de alguém que sequer teve a chance de ser compreendido pela vida.
As redes sociais criaram uma arquibancada da tragédia, onde sofrimento vira clipe, dor vira meme e vidas periféricas são consumidas sem que ninguém se incomode de verdade. Isso não é tecnologicamente neutro. Isso é política. Isso molda imaginários. Isso reforça desigualdades.
Mas, no meio da avalanche de vídeos, julgamentos e curiosidade mórbida, quase ninguém fez a pergunta essencial: o que leva um jovem a se jogar aos leões?
A resposta começou a aparecer quando Verônica Oliveira, conselheira tutelar que acompanhou esse menino desde os 10 anos, colocou o debate no lugar certo. Ela revelou o que a internet nunca mostra: aquele jovem carregava uma história marcada por abandono, saúde mental negligenciada, vínculos familiares rompidos, pobreza extrema e ausência de cuidado público. Uma mãe vivendo com esquizofrenia. Uma avó com transtornos. Um menino que cresceu sem lar, sem rede, sem pouso.
A tragédia não começou no zoológico. Começou naquilo que estamos escolhendo não enfrentar enquanto sociedade.
Quando o território condiciona a vida (e a morte)
As periferias brasileiras acumulam anos de ausência de Estado, serviços públicos insuficientes e desigualdade urbana profunda. Essa combinação não produz apenas precariedade material: produz sofrimento psíquico coletivo, especialmente entre crianças e adolescentes.
A Fiocruz já alertou¹ que o Brasil vive um crescimento preocupante de sofrimento psíquico entre crianças e jovens, inclusive com aumento das taxas de suicídio na última década. É um sinal claro de que a juventude brasileira — especialmente a juventude periférica — está adoecendo sem acesso adequado a cuidado e proteção.
Ou seja: não faltam sinais de alerta. Faltam portas abertas. O território molda trajetórias. E, quando o território é estruturado pela injustiça, a juventude cresce carregando o peso de uma cidade que não foi feita para ela.
As pessoas costumam imaginar sofrimento mental como algo abstrato, individual. Nas periferias, ele é atravessado por violência, fome, insônia, falta de perspectiva, insegurança habitacional, escolas precarizadas, longas horas em ônibus, ausência de equipamentos culturais e esportivos, lares fragmentados pela luta diária pela sobrevivência.
Não há como exigir “estabilidade emocional” de quem nunca teve sequer o direito de viver com tranquilidade.
Da invisibilidade à criminalização
Antes da tragédia, esse jovem já tinha viralizado algumas vezes em oportunidades nas quais foi apreendido e preso, e essas cenas circulavam na internet em tom de ridicularização pela repetição. Não por sua história, mas por comportamentos que a sociedade rapidamente rotulava como “delinquência”. Riram dele. Apontaram o dedo. Transformaram seu sofrimento em espetáculo.
Mas ninguém se perguntou: que vida produz esse tipo de desorganização emocional? Que Estado se permite conviver com tanto abandono?
Nós naturalizamos cedo demais a associação entre juventude periférica e “caso de polícia”. E isso tem consequências profundas.
Quando a sociedade decide que um jovem é “um problema”, ela fecha diante dele todas as portas que poderiam ajudá-lo. Ele deixa de ser visto como sujeito de direitos e passa a ser tratado como destino certo. Isso mata — de muitas formas, muitas vezes, muito antes do fim da vida.
Não foi um salto para a morte: foi o desfecho de um abandono prolongado
Esse menino é fruto de uma cidade desigual. Cresceu em um país que sempre tratou suas periferias como lugares onde tudo pode ser adiado: moradia, saúde, saneamento, educação, cultura, trabalho, cuidado.
O salto final foi apenas a expressão extrema de um salto diário que milhões de jovens são obrigados a realizar entre precariedade, desamparo e violência simbólica.
Quando um jovem cai, a pergunta não é “por que fez isso?” A pergunta é: por que deixamos que a vida dele chegasse a esse ponto?
Não joguem nossa juventude aos leões
O Brasil tem um compromisso não cumprido com sua juventude periférica. E não há urbanização de favelas, plano diretor, obra de grande porte ou programa habitacional que resolva isso sozinho.
É preciso reorganizar prioridades. É preciso colocar a vida no centro. É preciso construir políticas integradas, permanentes, territoriais. A juventude não pede milagres. Pede chance. Pede cuidado. Pede presença.
Esse jovem de João Pessoa não se jogou apenas aos leões do zoológico. Ele foi jogado — lentamente, silenciosamente — aos leões do abandono, do preconceito, da invisibilidade e da desigualdade. E a pergunta que fica para o país é simples e profunda: vamos continuar assistindo ou vamos finalmente segurar os jovens antes que caiam?
Porque juventude não é problema. É país. É futuro. E cuidar dela é a única forma de evitar que tragédias como essa voltem a acontecer. Não joguem nossa juventude aos leões. Cuidar dos jovens é cuidar do Brasil.
Flávio Tavares (@flaviotavares_) é urbanista, mestre em Desenvolvimento Urbano, militante do direito à cidade e gestor público paraibano. Atualmente é Diretor na Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades, cargo que ocupa desde a criação do órgão por iniciativa do Presidente Lula. Coordena a implementação do Programa Periferia Viva, com foco na urbanização de favelas e fortalecimento dos territórios populares. Na Paraíba, foi Secretário de Planejamento de Conde (PB), onde coordenou políticas premiadas de planejamento participativo e desenvolvimento territorial.

