Flávio Brasileiro

*Flávio Brasileiro (@flaviobrasileiro__) é urbanista, mestre em Desenvolvimento Urbano, militante do direito à cidade e gestor público paraibano. Atualmente é diretor na Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades, cargo que ocupa desde a criação do órgão por iniciativa do presidente Lula. Coordena a implementação do Programa Periferia Viva, com foco na urbanização de favelas e fortalecimento dos territórios populares. Na Paraíba, foi secretário de Planejamento de Conde (PB), onde coordenou políticas premiadas de planejamento participativo e desenvolvimento territorial.

Apostaram errado: João Pessoa não está à venda

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Montagem BdF-PB
Flávio Brasileiro, autor deste artigo, protocolou denúncia no MPPB contra publicidade da Vai de Bet em João Pessoa | Crédito: Gleyce Marques/Assessoria de Flávio Brasileiro

Quem lucra com o modelo de cidade que está sendo imposto à capital paraibana?

Apostaram alto, mas não contavam com a nossa resistência

João Pessoa virou aposta. Aposta do mercado imobiliário, do turismo tratado como mercadoria, da especulação travestida de modernização, da publicidade agressiva que ocupa o espaço público como se a cidade fosse vitrine permanente. Apostaram que a paisagem poderia ser capturada, que o território poderia ser monetizado, que a cidade poderia ser transformada em produto sem reação.

Mas esse cálculo começa a ser tensionado. Há incômodo crescente, questionamento público, resistência social e política em formação.

O verão escancarou esse conflito. A orla cheia, o crescimento acelerado, o discurso do “boom”, as redes sociais inundadas por imagens que vendem uma João Pessoa editada, higienizada, pronta para consumo. Ao mesmo tempo, emergem cada vez mais vozes perguntando o que realmente está por trás desse modelo: desenvolvimento para quem? A quem ele serve? Quem está ficando de fora dessa narrativa?

A cidade passou a ser tratada como vitrine. Mas também se tornaram mais visíveis as fissuras desse modelo. A precariedade da mobilidade urbana, a pressão sobre o espaço público, a captura da paisagem, a invisibilização das periferias e a ausência de um projeto democrático de cidade já não conseguem ser ocultadas pelo brilho das campanhas publicitárias.

Esse não é um debate abstrato. Ele se materializa no cotidiano. E ganhou contornos ainda mais evidentes com um episódio recente: a explosão da publicidade das casas de aposta — as chamadas bets — ocupando de forma agressiva o espaço urbano.

A cidade como vitrine: o caso das bets

A expansão da publicidade das bets tornou essa lógica impossível de ignorar. Painéis, outdoors, paradas de ônibus, mobiliário urbano, fachadas. A cidade convertida em suporte publicitário para um setor cuja lógica é capturar atenção, estimular vício e extrair renda, sobretudo da juventude e das camadas populares.

Foi a partir desse caso concreto que muita gente passou a reconhecer uma frase que venho sustentando publicamente há mais de um ano: João Pessoa não está à venda.

E o ponto central é este: o problema não são apenas as bets. Elas são sintoma. O problema é mais profundo. É a naturalização de que o espaço público pode ser loteado por interesses privados. De que a paisagem pode ser tratada como ativo financeiro. De que o território pode ser explorado como oportunidade de negócio, e não reconhecido como lugar de vida, memória, vínculo e direito.

O “boom” que beneficia poucos

O discurso dominante diz que João Pessoa vive seu melhor momento. Que está “na moda”. Que o mercado está aquecido. Que o turismo está em alta. Tudo isso pode ser verdadeiro — e, ainda assim, profundamente insuficiente.

Crescimento econômico, por si só, não é sinônimo de desenvolvimento urbano. Valorização imobiliária, via de regra, não é sinônimo de justiça territorial. Visibilidade não é sinônimo de qualidade de vida.

O problema começa quando esse processo acontece sem projeto urbano consistente, sem regulação democrática, sem prioridade para o interesse público. Quando o planejamento passa a ser capturado pelo mercado. Quando o poder público deixa de regular e passa apenas a viabilizar. Quando a cidade passa a ser organizada para agradar investidores e visitantes, e não para garantir dignidade a quem mora nela.

Quem estuda cidade reconhece esse movimento. Quem percorre bairros, conversa com moradores, observa o cotidiano, percebe o desequilíbrio se instalando.

A especulação na orla, a privatização disfarçada do espaço público, a permissividade com a poluição visual, a expansão desordenada de empreendimentos, a invisibilização das periferias no discurso oficial do “progresso”. Tudo isso compõe o mesmo modelo: uma cidade-vitrine para poucos, sustentada pelo sacrifício silencioso de muitos.

A cidade real que não cabe no cartão-postal

Enquanto João Pessoa é vendida como destino ideal nas campanhas publicitárias, a mobilidade urbana acentua tensões nos deslocamentos diários do pessoense. O transporte coletivo continua tratado como problema secundário. A infraestrutura básica em muitos territórios segue insuficiente. A participação popular nas decisões estratégicas permanece marginal.

O resultado é uma contradição cada vez mais evidente: uma cidade celebrada nas redes, mas desigual na vida concreta. Uma cidade encantadora para quem visita, mas cada vez mais difícil para quem vive.

A vitrine brilha. Mas quem sustenta a estrutura são sempre os mesmos.

João Pessoa não está à venda é posição política

Por isso, dizer que João Pessoa não está à venda não é slogan. É posição política.

É afirmar que cidade é direito, não mercadoria. Que o espaço público pertence à coletividade, não ao anunciante mais agressivo. Que o planejamento urbano deve servir ao bem comum, não à especulação. Que turismo e desenvolvimento imobiliários só fazem sentido quando subordinados a um projeto democrático de cidade.

Mais do que crítica, essa posição aponta para um caminho possível: é possível crescer sem se render. É possível fortalecer o turismo sem expulsar o morador. É possível valorizar a cidade sem transformá-la em produto. É possível construir um modelo urbano que regule o mercado, proteja a paisagem, priorize o transporte público, fortaleça os territórios populares e reconheça a cidade como bem coletivo.

Mas esse debate precisa deixar de ser periférico. Precisa ocupar o centro da disputa política.

Uma lacuna que precisa ser enfrentada

Nos últimos anos, ficou evidente para mim que há um vazio na política paraibana quando o assunto é cidade. O debate sobre planejamento urbano, mobilidade, especulação imobiliária, função social do território e justiça urbana simplesmente não ocupa lugar central na agenda política do estado — e, em muitos momentos, parece sequer existir.

Enquanto nossas cidades, quase todas elas espelhando o modelo perverso consolidado na capital, aprofundam desigualdades e contradições, esse debate não aparece de forma consistente nem entre os projetos que se apresentam como alternativas para o futuro da Paraíba, nem na atuação da Assembleia Legislativa.

Isso não é detalhe. É parte do problema.

É a partir dessa constatação — e da trajetória que construí como urbanista, gestor público e alguém profundamente vinculado ao cotidiano dos territórios — que decidi colocar meu nome à disposição como pré-candidato a deputado estadual na Paraíba. Não por vaidade. Mas por entender que disputar a cidade é disputar o futuro.

Renovar a política não é apenas trocar nomes. É disputar ideias. É mudar prioridades. É recolocar o direito à cidade no centro do debate público. É afirmar, com clareza, que João Pessoa, a Paraíba e suas cidades não estão à venda.

Nossa aposta é outra, bem diferente.

*Flávio Brasileiro (@flaviobrasileiro__) é urbanista, mestre em Desenvolvimento Urbano, militante do direito à cidade e gestor público paraibano. Atualmente é diretor na Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades, cargo que ocupa desde a criação do órgão por iniciativa do presidente Lula. Coordena a implementação do Programa Periferia Viva, com foco na urbanização de favelas e fortalecimento dos territórios populares. Na Paraíba, foi secretário de Planejamento de Conde (PB), onde coordenou políticas premiadas de planejamento participativo e desenvolvimento territorial.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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