Todo mês eu tinha dores insuportáveis que me faziam ficar de cama durante os dois primeiros dias de menstruação. Em 2017, coloquei um DIU de cobre e a adaptação foi bem difícil. Um ano antes, eu tinha ganhado um lubrificante de cannabis de uma empresa californiana e percebi uma estranha coincidência: toda vez que eu usava o lubrificante, eu não sentia dor. Alguma coisa acontecia e, nessa investigação, descobri a existência do sistema endocanabinoide.
Nessa época, eu morava em Salvador e comecei a produzir óleo para mim e também para outras mulheres, que passaram a me relatar diversos benefícios: mais prazer sexual, noites melhores de sono, diminuição dos sintomas da menopausa, reconexão com seus parceiros, redução de dores associadas à endometriose e até ausência de incontinência urinária. Ver os efeitos da cannabis em mim e nessas mulheres mudou a direção da minha vida.
O uso da cannabis como medicina já é legal em mais de 50 países. O tsunami de legalizações ao redor do planeta gerou, nos últimos 13 anos, um mercado de US$ 57 bilhões. A estimativa mais otimista para 2033 é que esse mercado mundial chegue a US$ 444 bilhões (Prohibition Partners). Nos Estados Unidos, onde existe um mercado médico em quase todos os estados e o uso recreativo é legal em parte deles, a indústria da cannabis emprega quase meio milhão de pessoas em tempo integral e já gerou cerca de US$ 20 bilhões em arrecadação de impostos (Marijuana Policy Project). Questões políticas, como novas aberturas para o uso adulto ou retrocessos regulatórios, influenciam essas projeções, mas o fato é que os gráficos de crescimento seguem uma curva de crescimento exponencial como poucos mercados no mundo. O mais importante é que todo esse crescimento e a base desse cenário econômico está fundamentada na descoberta do sistema endocanabinoide e no avanço das pesquisas com cannabis.
O discurso é de novidade: uma nova indústria, um novo mercado, a corrida do ouro verde. Mas talvez a novidade não esteja na cannabis, que tem um uso medicinal milenar, e sim no fato de que, finalmente, começamos a compreender os mecanismos pelos quais ela atua no corpo. Durante quase um século, as políticas de guerra às drogas impediram avanços nas pesquisas sobre a cannabis, algo que vem mudando com as legalizações ao redor do mundo e, mais recentemente, também no Brasil. Por causa do proibicionismo, foi apenas no início dos anos 1990 que os cientistas começaram a entender onde o THC se conectava no nosso organismo e, ao investigar isso, descobriram os receptores canabinoides. O passo seguinte foi ainda mais revelador: identificar o que o próprio corpo produzia para se ligar a esses receptores. Assim, foram descobertos os endocanabinoides, moléculas produzidas por nós, análogas às da planta. A essa molécula foi dado o nome de anandamida, que significa “molécula da alegria”.
Essa descoberta é uma das peças fundamentais que compõem o quebra-cabeça da medicina e que estava faltando. A medicina convencional alopática operou nos últimos 100 anos, e ainda opera, sem considerar um sistema primordial responsável por manter o equilíbrio do corpo. É ele que regula sono, humor, metabolismo, fome, dor e função cognitiva. O sistema endocanabinoide também é parte central para compreender uma série de condições que a medicina frequentemente classifica como de causa desconhecida, como fibromialgia, dor crônica, enxaqueca, síndrome do intestino irritável, dentre outras.
O nosso tempo histórico testemunha uma virada da maconha da esfera criminal para a esfera econômica e da saúde. O que se transformou foi a percepção que temos a partir das novas descobertas científicas, novas tecnologias de produção e do entendimento de seus usos. A descoberta do Sistema Endocanabinoide legitima de forma incontestável o uso da cannabis e ajuda a explicar práticas de uso que, até então, não tinham base científica reconhecida. O conjunto de receptores, a produção de moléculas e as enzimas que compõem o sistema endocanabinoide constituem o alicerce para a retomada do mercado mundial da cannabis.
A endocanabinologia vem transformando a prática da medicina e o entendimento do corpo (não só humano, mas também animal) e, ao mesmo tempo, impulsionando mudanças nas regulamentações sobre a cannabis. Ainda assim, o encarceramento, as operações policiais e as mortes seguem aumentando. Isso escancara a “flexibilidade cognitiva” do Estado ao lidar com uma mesma substância. Para que um produto seja vendido como remédio na farmácia, enquanto, na mesma rua, um jovem negro é morto sob suspeita de tráfico, é necessária uma verdadeira ginástica semântica: separa-se cannabis de maconha, ciência de moral, moléculas “boas” de moléculas “ruins”. Entre a prescrição médica, o habeas corpus e o colorismo, define-se quem é reconhecido como paciente e quem continua sendo tratado como descartável na sociedade.
O proibicionismo e o atraso nas pesquisas geraram um prejuízo irreparável à humanidade, tanto na melhora da qualidade de vida de grande parte da população quanto nas centenas de milhares de pessoas mortas e encarceradas injustamente. O que está em jogo hoje é a difusão desse conhecimento e a democratização do acesso e dos usos da cannabis.
O sistema endocanabinoide é uma base sólida para o mercado canábico. Não se trata de uma moda passageira, como dietas ou consensos instáveis da nutrição. Trata-se de um sistema integrado aos demais sistemas do corpo, responsável pelo equilíbrio e pelo seu bom funcionamento. Atua sob demanda, regulando aquilo que precisa de ajuste em cada momento. O fato é que ele existe, é amplamente respaldado por evidências científicas e apresenta resultados consistentes em áreas que a medicina ainda não conseguiu explicar ou tratar de forma eficaz. Por isso, esse mercado não surge como tendência, mas como consequência e não vai a lugar algum.
Nove anos se passaram desde que eu descobri o que era o sistema endocanabinoide e encontrei a solução para minhas cólicas. Para além do benefício físico, a cannabis abriu um campo de militância e trabalho. Já não moro mais em Salvador, mas faço questão de contar sempre a história de como entrei no mundo da cannabis, porque ela vem ajudando muitas mulheres ao longo desse período com uma informação simples sobre um método de consumo ainda pouco convencional: o uso na mucosa.
Todo mês, quando as cólicas chegam e eu uso o óleo, em poucos minutos tenho a sensação de sentir o útero “derreter” na barriga, aliviando a tensão e a dor. Todos os dias penso em todas as mulheres no mundo que sofrem com dor pélvica e não têm acesso a esse alívio.
*Luna Vargas é mestra em Antropologia pela EHESS (Paris). Fundadora e educadora da INFLORE, projeto pioneira na formação de profissionais para o mercado canábico. Pesquisa mercado e regulamentação da cannabis em diferentes países. Atua como comunicadora, palestrante e consultora. Instagram: @lunavargas
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

