“Vocês não podem falhar. O mundo inteiro está olhando para vocês.”
Nunca mais esqueci essa frase. Ouvi de um cliente em um dispensário de cannabis em Vancouver, no final de 2018, poucos meses depois da legalização da planta no Canadá. Eu trabalhava como atendente em uma loja especializada na venda de cannabis, recebendo pacientes, turistas, consumidores curiosos e investidores que chegavam para ver de perto o nascimento de um mercado legal.
O cliente era um holandês branco, alto, grande, direto e de poucas palavras. Comprou suas flores e, na saída, proferiu aquilo quase como uma maldição. Naquele instante, senti o peso do processo histórico que o Canadá comandava: legalizar uma planta depois de quase um século de proibição e provar ao mundo que era possível fazer diferente. Eu carregava, na importante e mal remunerada função de atendente, uma responsabilidade bem maior do que podia imaginar. E essa frase ainda hoje me serve de norte.
Agora, o Brasil se aproxima de uma nova etapa da sua história com a cannabis. A regulamentação do cultivo proposta pela Anvisa em janeiro entra em vigor em agosto de 2026 e promete abrir caminho para a produção nacional. O discurso oficial fala em avanço, segurança sanitária e ampliação do acesso.
Mas existe uma ausência gritante nesse desenho regulatório: o varejo da cannabis.
A nova regulamentação prevê caminhos de dispensação por farmácias, drogarias, importação direta, associações de pacientes e farmácias de manipulação. No entanto, não regulamenta os dispensários de cannabis medicinal, isto é, lojas especializadas capazes de conectar produção, educação, orientação de uso e acesso direto ao público.
O Brasil está regulamentando o cultivo da cannabis, mas sem reconhecer a parte final da produção e sem legitimar o varejo próprio da cannabis. Regulamentar o cultivo sem regular os dispensários é criar uma cadeia produtiva amputada no seu ponto de contato com a população.
Trabalhar no varejo da cannabis é uma experiência rica justamente pelas “horas de voo” adquiridas no atendimento de dezenas de pessoas por dia. Esse treinamento é fundamental para quem quer atuar no chamado “mercado verde”, porque o varejo é o lugar primordial de acolhimento dos usuários e pacientes. É ali que aparecem as dúvidas sobre produtos, dosagens, formas de uso, segurança, acesso, medo, preconceito e expectativa.
O varejo é a síntese da produção da cannabis. É o final de uma cadeia que começa na semente, passa pelo cultivo, pela extração, pela formulação, pelo controle de qualidade, pela embalagem e chega ao contato com o público. A loja especializada é para a cannabis o que a padaria é para o pão, a concessionária para o carro ou a sapataria para os calçados. Parece óbvio quando olhamos para qualquer outra cadeia produtiva.
Sem um varejo especializado, a população perde um espaço de educação. Os trabalhadores da cannabis perdem um campo de formação prática e de entrada no mercado. As associações perdem uma possibilidade de fortalecimento institucional. E a indústria da cannabis perde legitimidade para organizar sua própria cadeia produtiva.
Nos Estados Unidos e no Canadá, o sistema de dispensários foi decisivo para ampliar e facilitar o acesso à cannabis. A venda não se consolidou prioritariamente nas farmácias comuns, mas em lojas especializadas, com regras próprias, profissionais treinados e relação direta com consumidores e pacientes.
Na União Europeia e em países latino-americanos como o Paraguai, lojas de CBD se multiplicam e ajudam a popularizar os produtos de cânhamo. Na Tailândia, desde 2022, lojas de cannabis se espalharam rapidamente pelo país, impulsionadas por um modelo inicial de licenciamento facilitado.
O Uruguai mostra o outro lado da moeda. Foi o primeiro país do mundo a legalizar totalmente a maconha, mas, mais de uma década depois, ainda sofre as consequências por não ter estruturado plenamente o varejo da cannabis. O sistema baseado em clubes canábicos e farmácias não dá conta da diversidade da demanda de consumo, o que mantém vendas ilegais, limitações de acesso, encarceramento e novas contradições regulatórias.
O Brasil está indo na mesma linha do Uruguai e ignora o varejo da cannabis. A cultura médica e farmacêutica é tão enraizada no imaginário da população que vender maconha na farmácia parece óbvio e inquestionável. Isso reafirma a posição de que o monopólio da produção de remédios pertence à indústria farmacêutica. Portanto, nenhuma outra indústria, como a indústria da cannabis, teria legitimidade para organizar toda a sua própria cadeia produtiva.
A aparente confusão e o descolamento da cannabis de sua própria cadeia produtiva geram um ganho primordial para a indústria farmacêutica, que hoje detém o monopólio do varejo da cannabis no país. Desconstruir essa lógica é crucial para obter autonomia na produção da cannabis de ponta a ponta, provando também que a competência para a produção de remédios pode e deve ser construída dentro da própria cadeia produtiva da cannabis.
A isso podemos chamar de legalização tutelada pela farmácia.
A legalização tutelada pela farmácia é o processo pelo qual uma planta historicamente criminalizada passa a ser tolerada pelo Estado apenas quando cabe dentro da forma farmacêutica, da prescrição médica, da embalagem padronizada e do balcão da farmácia. Fora desse enquadramento, sua cadeia produtiva própria continua deslegitimada.
Para que a indústria da cannabis tenha autonomia sobre sua produção, é preciso se organizar em torno de iniciativas como os dispensários educacionais, que podem ser headshops, tabacarias e qualquer varejo que eduque e indique formas de acesso à cannabis pelas vias autorizadas pela Anvisa. Também podem ser ambientes de uso, conhecidos como clubes de cannabis. Legalmente, essas formas de varejo não dispensam o produto no local. Outra forma possível e fundamental é o varejo das associações de pacientes: lojas para associados, com educação, consulta médica e acesso aos produtos. Um modelo ainda pouco explorado pelas mais de 300 que estão formalizadas no país.
A novidade da regulamentação da Anvisa está nas farmácias de manipulação, que abrem a possibilidade de criação de uma espécie de dispensário médico no Brasil. Já existem farmácias desse tipo atuando no país, inclusive com franquias à venda, e esse setor pode ampliar um mercado que hoje conta com quase 9 mil lojas. Porém, ainda falta compreender que, para além da manipulação de fórmulas, essas farmácias podem se posicionar como pontos especializados de varejo da cannabis, com educação, orientação e acesso qualificado.
Essa possibilidade, no entanto, tem gargalos importantes. O primeiro é a dependência da formulação por profissionais de saúde, muitos ainda sem formação suficiente para acompanhar a velocidade do mercado canábico, especialmente quando falamos de prescrições individualizadas. O segundo é a limitação regulatória sobre o uso de THC, que restringe as possibilidades terapêuticas e reduz a cannabis a formulações de CBD isolado e outros fármacos. Ou seja, é uma brecha possível, mas ainda longe de resolver o problema do varejo da cannabis no Brasil.
A aparente confusão entre cannabis, medicamento e farmácia gera um ganho evidente para a indústria farmacêutica, que passa a ocupar o monopólio simbólico e econômico do varejo legal. Desconstruir essa lógica é fundamental para que a indústria da cannabis tenha autonomia sobre sua própria produção, da semente ao acesso.
Lutar pela autonomia do varejo extrapola a simples venda e garante a produção completa dentro da indústria da cannabis. Ceder e entregar o varejo da cannabis para a indústria farmacêutica é perder a legitimidade da produção da própria cannabis e a disputa perante a sociedade. Enquanto não temos uma legislação que regule a cadeia produtiva da cannabis, atuar e militar pelo varejo é uma forma efetiva de disputar espaço com a indústria farmacêutica.
Quatro anos depois de ouvir aquele cliente holandês dizer que não podíamos falhar, visitei uma produtora de cannabis em Portugal. Na copa da fazenda havia uma toalha plastificada com mensagens e assinaturas de pessoas que tinham passado por ali. Pediram que eu escrevesse algo.
Não tive dúvida. Passei o peso adiante e escrevi:
“Não podemos falhar.”
Porque falhar na construção da nossa cadeia produtiva, do acesso e da qualidade dos produtos é falhar com quem sente dor, com quem está preso, com quem foi morto pela guerra às drogas, com o futuro das pesquisas e com milhares de pessoas que precisam, e ainda vão precisar, dessa planta para viver melhor.
Não disputar o varejo da cannabis no Brasil é abrir mão da autonomia da produção e entregar à indústria farmacêutica não apenas o acesso, mas também a narrativa social sobre a planta. Se a cannabis legal nascer sem varejo próprio, nascerá dependente, tutelada e incompleta. Ainda dá tempo de disputar esse futuro.
*Luna Vargas é mestra em Antropologia pela EHESS (Paris). Fundadora e educadora da Inflore, projeto pioneira na formação de profissionais para o mercado canábico. Pesquisa mercado e regulamentação da cannabis em diferentes países. Atua como comunicadora, palestrante e consultora. Instagram: @lunavargas
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

