Flores para o Povo

Uma coluna dedicada à cannabis e aos seus aspectos científicos, políticos e mercadológicos, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre essa planta, reduzir o estigma e promover ideias para uma legalização popular no Brasil.

Por que você não foi à Marcha da Maconha?

No audio source provided.
Ilustração mostra pessoas em marcha de protesto pela legalização da maconha
Ilustração sobre a Marcha da Maconha | Crédito: Garvão Bertazzi

Se a legalização que temos hoje não é como você gostaria, uma via fundamental de construção é o engajamento no movimento social

Poucos momentos são tão emocionantes no movimento social da maconha quanto chegar ao fim da descida da Rua da Consolação, com a luz bonita do pôr do sol de inverno, olhar para cima e ver um mar de gente se manifestando pela legalização de uma planta que, há mais de cem anos, tem sido usada como desculpa para matar, prender e controlar certos grupos sociais.

No último domingo, em São Paulo, aconteceu a 18ª Marcha da Maconha, que ocupou a Avenida Paulista reunindo ativistas, organizações, pacientes, famílias, usuários, pesquisadores, cultivadores, músicos, torcidas de futebol, movimentos populares e gente comum que decidiu colocar o corpo na rua pelos seus direitos.

Acordei na segunda-feira, ainda com o êxtase dos encontros e o corpo exausto da jornada da Marcha, com uma mensagem no inbox do Instagram: “Gata, tem alguma previsão de quando vão liberar para uso recreativo? Ou ainda é um sonho distante?”. A resposta curta é: seu sonho só vai se realizar quando você começar a ir para a Marcha da Maconha. A resposta longa exige olhar para o que é o movimento social e qual a sua importância no processo de legalização que estamos vivendo no Brasil.

A Marcha

A primeira Marcha da Maconha aconteceu no Rio de Janeiro, em 2002, e em São Paulo, em 2008, sempre marcada por muita truculência policial e prisões de manifestantes. Até que, em 2011, o Supremo Tribunal Federal garantiu a legalidade da Marcha da Maconha ao reconhecer que manifestações pela descriminalização das drogas estão protegidas pelos direitos de reunião e livre expressão.

Mais de 40 cidades pelo Brasil já tiveram edições da Marcha da Maconha. É um movimento descentralizado, autônomo, antirracista, antifascista, anti-imperialista e anticapitalista, como caracteriza o manifesto da Marcha de São Paulo. Na faixa principal deste ano, estava a frase “legaliza tudo”, afirmando o caráter antiproibicionista do ato e desconstruindo a narrativa hegemônica sobre as drogas.

São milhares de baseados acesos, fanfarras, cartazes de protesto e gritos de ordem por uma sociedade que reconheça o direito às escolhas das pessoas, contra a opressão policial e contra a chamada guerra às drogas. Esse cenário, convidativo para alguns e nem tanto para outros, é um dos pilares fundamentais do nosso processo de legalização.

O movimento social

Se hoje sua avó, sua tia, seu pai ou algum paciente da sua família usa cannabis medicinal, e se a mensagem que recebi no Instagram já fala em “uso recreativo”, é porque a maconha mudou de lugar no país. O uso medicinal da cannabis é regulado no Brasil. Ainda não é como gostaríamos. Ainda é caro, desigual, burocrático e cheio de contradições. Mas existe acesso por várias vias, e essas vias vêm se popularizando nos últimos dez anos.

Esse avanço na regulamentação brasileira não é espontâneo nem resultado da sensibilidade dos poderes ao tema. Ele está sendo forjado por diferentes lutas que se reúnem anualmente na Marcha da Maconha: cultivadores, mães, pacientes, advogados, pesquisadores, associações e uma multidão de gente revoltada com as injustiças da guerra às drogas.

O processo de legalização no Brasil avança por duas pressões simultâneas. De fora para dentro, temos a pressão externa, formada pela onda de países que passaram a legalizar ou regulamentar a cannabis a partir de 2013, como o Uruguai, e por muitos atores internacionais que já atuam no mercado brasileiro, principalmente exportando produtos de cannabis dos Estados Unidos e de países da União Europeia.

Da base para o topo, temos a pressão interna, com o movimento social e a desobediência civil abrindo caminho no mato fechado da ignorância da sociedade sobre as drogas. Ela vem dos pesquisadores, dos pacientes, das famílias, dos cultivadores, das associações, dos movimentos sociais, da juventude periférica, da cultura, da saúde pública e do desastre evidente da guerra às drogas. A Marcha da Maconha é a expressão desses diferentes universos que caminham na mesma direção.

Se hoje temos avanços nítidos sobre a pauta da maconha no Brasil, devemos muito às Marchas da Maconha do país inteiro e a cada pessoa que sai de casa por algumas horas para somar no movimento. E, se a legalização que temos hoje não é como você gostaria, uma via fundamental de construção é o engajamento no movimento social. A legalização do uso adulto, o cultivo individual, o acesso popular e o desencarceramento provavelmente não serão contemplados nas futuras regulamentações sem pressão das ruas.

Por isso, mesmo com a regulamentação do cultivo a caminho, as Marchas serão cada vez mais necessárias, assim como a participação de quem quer ver mudanças importantes. Se, há pouco mais de duas décadas, a Marcha lutava pelo simples direito de marchar e protestar, hoje lutamos para não perder esse direito e por uma legalização que não exclua quem mais sofre diariamente os efeitos da guerra às drogas.

A contradição

Enquanto existem produtos de cannabis nas farmácias do asfalto, temos chacinas nas favelas. Enquanto empresas privadas lucram com a distribuição de produtos no SUS, associações de pacientes são destruídas pela polícia. Enquanto uns são reconhecidos como pacientes medicinais, outros são encarcerados por um baseado.

Essas contradições evidenciam o que podemos chamar de legalização seletiva: uma única planta é desmembrada e conceituada por uma grande ginástica epistemológica para criar barreiras artificiais entre o que pode e o que não pode, quem pode acessar e quem deve continuar sendo punido. O resultado é uma abertura lucrativa para o mercado neoliberal, com o requinte de crueldade e incoerência de manter a proibição e a criminalização, que também seguem gerando muito lucro.

Quando a Marcha ocupa o vão do MASP e desfila pelas veias abertas da metrópole, mostra que nenhuma dessas contradições passa pelos olhos da sociedade sem ser vista, questionada e denunciada. A Marcha exige coerência e justiça.

O convite

Mas por que você não foi à Marcha?

A Marcha não te representa? A estética não conversa com você? Tem fumaça demais? Tem medo? Acha radical, confusa, barulhenta, popular demais? Tudo bem. Nenhum movimento social nasce para ser confortável para todo mundo. Mas quem reduz a Marcha da Maconha a uma pauta identitária ou ao estereótipo do “maconheiro” perde a chance de entender que os símbolos da cultura canábica representam um universo muito mais amplo.

A resposta passa por consciência social, consciência de classe e empatia. Empatia por quem sofre sem acesso a tratamento. Por quem está injustamente encarcerado. Por quem perdeu filho, irmão, pai ou amigo para a guerra às drogas. Por quem cultiva para cuidar da própria saúde e ainda precisa viver com medo. Por quem abriu caminho quando falar de maconha ainda era motivo para apanhar, ser preso ou ser ridicularizado.

Também passa por uma pergunta incômoda: você quer apenas colher os frutos políticos dessa luta ou quer ajudar a sustentá-la?

Porque existe um egoísmo silencioso em querer a paz de fumar, cultivar, prescrever, vender, importar, estudar ou empreender com cannabis sem reconhecer quem abriu a trilha no facão e sem colaborar com o futuro do movimento. A legalização não será justa automaticamente, porque vivemos em um sistema injusto. Por isso mesmo, nosso trabalho é marchar por justiça.

A Marcha não acaba com a legalização. Ela vai se tornar mais necessária depois dela. Se a rua não disputar o modelo, a legalização será decidida por quem nunca pagou a conta da proibição. Então, tome seu ar, porque a caminhada é longa, e vá para a Marcha da sua cidade. Se não tiver, você pode ajudar a construir uma.

Não precisa gostar de tudo. Não precisa fumar. Não precisa caber no estereótipo. Só precisa entender que nenhum direito nasce de geração espontânea dentro de gabinete. Primeiro ele aparece como incômodo. Depois, como desobediência. Depois, como movimento. Só então vira política pública.

Se você não foi este ano, tudo bem. Ano que vem tem mais, e sua presença é importante.

Talvez eu não tenha argumentado o bastante para convencer o seguidor que me fez a pergunta no Instagram e o leitor a ir à Marcha da Maconha, então vou responder com outra pergunta: o que você está fazendo pela legalização que quer ver no Brasil?

*Luna Vargas é mestra em Antropologia pela EHESS (Paris). Fundadora e educadora da Inflore, projeto pioneiro na formação de profissionais para o mercado canábico. Pesquisa mercado e regulamentação da cannabis em diferentes países. Atua como comunicadora, palestrante e consultora. Instagram: @lunavargas

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter