Há uma metáfora silenciosa que impera nos corredores das faculdades de saúde no Brasil: a de que a “diocese” do conhecimento – o ambiente hospitalar, de alta complexidade e especialização – é o ápice da carreira. Enquanto isso, a “paróquia” – o território vivo, complexo e desordenado da atenção primária – é vista como um posto secundário.
A persistente sensação de “despreparo” de médicos, enfermeiros, dentistas e fisioterapeutas ao chegarem às unidades básicas não é um fracasso individual, mas o sintoma de um fracasso coletivo da nossa formação.
A graduação em saúde, notadamente na medicina, mas seguida como cartilha pela maioria das demais profissões, ainda é profundamente hospitalocêntrica. O estudante passa seus anos mais formativos imerso em um mundo de raras síndromes e tecnologias de ponta, enquanto os problemas que afetam 80% da população – como as condições crônicas e os sofrimentos psicossociais – são tratados como um apêndice.
O resultado é a produção de um “estrangeiro em seu próprio território”. Seja o médico, o dentista focando apenas na cavidade oral ou o fisioterapeuta no músculo isolado, seus olhares foram treinados para ver fragmentos doentes e não pessoas inseridas em um contexto. Conceitos fundamentais para o SUS, como vínculo e territorialização, soam como teoria distante da “prática real”.
Outro pilar que desaba é o trabalho em equipe. Pesquisadoras como Lígia Junqueira e Marina Peduzzi já demonstraram que o trabalho na estratégia saúde da família é intrinsecamente coletivo. No entanto, a formação é rigidamente isolada. Médicos, enfermeiros e dentistas são educados em mundos paralelos. Aprende-se a ser “chefe”, nunca um “integrante”. Na prática, isso gera atendimentos fragmentados e sobrecarrega a rede.
O Programa Mais Médicos funcionou como um espelho brutal dessa crise. Estudos sobre a percepção desses profissionais revelaram que conceitos basilares, como o acolhimento, eram um desafio concreto. O programa evidenciou que a crise não era apenas de escassez, mas sobretudo de inadequação do perfil profissional. Ele tornou incontornável a discussão: é impossível ter um SUS forte sem uma reformulação radical da formação.
Diante de um despreparo tão enraizado, a saída está na educação permanente em saúde. Diferente de cursos pontuais, é uma estratégia de transformação a partir da reflexão sobre o trabalho real. É aprendendo a resolver coletivamente os desafios do dia a dia que o profissional constrói as competências que a graduação lhe negou.
O despreparo para a atenção primária à saúde é uma escolha política de um modelo de formação que não serve ao SUS. Enquanto a “diocese” hospitalar for o ideal a ser perseguido, lançaremos profissionais bem-intencionados em um campo de batalha para o qual não receberam armas ou mapas.
Precisamos de um currículo que valorize o cuidado e não apenas a doença – para todas as categorias. Só assim a “paróquia” da atenção primária se tornará, como deveria ser, o coração pulsante do nosso sistema de saúde.

