Uma nova turma de Medicina começou as aulas em dezembro na Universidade Federal de Pernambuco, no campus de Caruaru. Nada extraordinário, se não fosse um detalhe: nenhum desses 80 estudantes fez vestibular. As vagas foram todas reservadas para quilombolas e assentados da reforma agrária, pelo Programa Nacional de Educação para Áreas de Reforma Agrária (Pronera).
A polêmica foi imediata. Ação na Justiça, discursos inflamados na Assembleia Legislativa, protestos sobre “privilegiados” e “injustiça”. O debate, porém, ficou preso numa questão burocrática – se o método foi legal – e ignorou a pergunta de fundo que o Sistema Único de Saúde (SUS) faz há 35 anos: por que nossas universidades formam tantos “estrangeiros em seu próprio território”?
Refiro-me àqueles profissionais que, diplomados, não reconhecem a realidade do país. Sabem tudo sobre uma artéria coronária, mas nada sobre os determinantes sociais que adoecem uma comunidade ribeirinha. Dominam protocolos hospitalares de excelência, mas se perdem no mapa da Atenção Primária. São brilhantes especialistas de um fragmento do corpo, mas analfabetos do território.
A formação médica tradicional é um “cárcere disciplinar”. Ela aprisiona o estudante em grades curriculares rígidas, onde cada especialidade é um cubículo isolado. O coração fica em um departamento, o pulmão em outro, a saúde mental lá no fim do corredor. O território, a cultura, a história da comunidade – esses nem cabem no projeto pedagógico. O resultado é conhecido: uma medicina hospitalocêntrica, urbanocêntrica e voltada para a doença, não para o cuidado.
O curso do Pronera na UFPE é uma tentativa radical de fuga desse cárcere. Ele inverte a lógica. Não começa pela bioquímica ou anatomia; começa por uma pergunta concreta: como cuidar da saúde onde não há médico? O aluno já chega com a resposta no corpo: ele é do território. Ele não precisa de uma disciplina de “humanidades” para entender que a seca, a distância do posto de saúde e a insegurança fundiária são fatores determinantes da saúde. Ele vive isso.
Os críticos gritam sobre “mérito”. Mas que mérito é esse que, geração após geração, falhou em levar saúde digna para o interior do Brasil? O vestibular tradicional, com sua pretensa neutralidade, é na verdade um eficiente mecanismo de exclusão geográfica e social. Ele seleciona bem quem domina um tipo específico de conhecimento abstrato, mas é cego para a principal competência que o SUS precisa: o compromisso com o lugar.
A defesa judicial do edital pela Advocacia-Geral da União e sua autorização pelo TRF-5 foram vitórias importantes. Mas a verdadeira batalha é pedagógica e política. Trata-se de decidir para quem serve a universidade pública. Se ela serve para reproduzir uma elite profissional que depois migra para o setor privado, ou se consegue se reinventar para enfrentar os problemas nacionais mais urgentes.
Enquanto a medicina convencional forma indivíduos que tendem a ver o diploma como um passaporte para o plano de saúde, a turma de Caruaru já nasce com um contrato social assinado. Sua formatura terá como destino o SUS mais remoto. Eles não serão “missionários” temporários; serão profissionais-raiz.
A polêmica não é sobre 80 vagas. É sobre 80 sementes de um modelo diferente. Um modelo que entende que para curar o deserto de médicos no Nordeste, não adianta importar cactus; é preciso cultivar a vegetação nativa, aquela que já sabe viver no solo árido.
O Brasil precisa de muitos cursos como esse. Precisa de turmas de Medicina para indígenas na Amazônia, para ribeirinhos no Pantanal, para populações das periferias urbanas. Precisa, em suma, de uma educação em saúde que pare de produzir estrangeiros e comece a formar cidadãos do SUS.
O experimento de Pernambuco está apenas começando. Será observado, medido e, claro, atacado. Mas ele já cumpriu um papel vital: mostrou que a porta do cárcere disciplinar não está trancada. Estava apenas fechada por falta de coragem política para abri-la.

