Gildazio Moura

Fisioterapeuta, sanitarista, professor universitário e mestrando em Saúde Coletiva na UFRN.

100 anos de Milton Santos, um pensador vivo para entender o caos

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Milton Santos, um intelectual comprometido com as causas populares
Milton Santos, um intelectual comprometido com as causas populares | Crédito: Acervo IEB/USP

A obra de Santos não é um manual, mas um método. Cabe a nós — sanitaristas, gestores, professores, pesquisadores, ativistas — aplicá-lo ao caos presente

“O espaço não é, nem uma coisa, nem um sistema de coisas. É uma realidade relacional: coisas e relações, juntas.” Quem escreveu isso, há quase três décadas, em “A Natureza do Espaço”, foi um geógrafo baiano, negro, exilado e genial. Milton Santos teria feito 100 anos no dia três de maio de 2026. Mais que um centenário de celebração, a data deveria nos obrigar a fazer uma pergunta incômoda: por que um intelectual que morreu em 2001 parece tão atual quanto um noticiário da manhã?

Em tempos de inteligência artificial, plataformização da vida e desinformação às massas, a obra de Milton Santos não é peça de museu, mas uma ferramenta viva. Ele não só descreveu o mundo: ele o antecipou. Seu conceito de meio técnico-científico-informacional, desenvolvido em “A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção” (1996), já apontava para algo que hoje vivemos na pele: a informação se tornou matéria-prima central e o território deixou de ser mero suporte para ser um condicionante ativo das desigualdades.

Mas cuidado: não se trata de uma visão tecnocrática ou otimista. Milton Santos nunca foi um ingênuo. Ele viu, ainda nos anos 1990, que a globalização poderia ser “perversa” — e foi. As mesmas redes que conectam um trader em São Paulo a um fundo em Cingapura, elas excluem sistematicamente o trabalhador da periferia. Esse é o cerne da crítica ‘miltoniana’: a tecnologia sem justiça social não é progresso, mas barbárie com aparência de modernidade.

Por isso, revisitar a obra “A Urbanização Brasileira” (1993) é quase um ato de arqueologia política. Ali, ele mostra que a cidade brasileira não é um palco neutro, mas uma fábrica de pobreza. A metrópole que cresce vertical para os ricos e horizontal para os pobres — com o asfalto acabando no mesmo lugar onde começa o esgoto a céu aberto — segue a mesma lógica de hoje. O “circuito inferior” da economia (o camelô, o ambulante, o trabalhador informal) é tratado como sobra, quando na verdade é estrutura.

Uma tese central emerge da leitura cruzada dessas duas obras: se Milton Santos estivesse vivo, não estaria apenas dando palestras em congressos — ele estaria na rua. Milton Santos estaria ao lado dos movimentos populares que lutam por moradia, por transporte público, por internet como direito básico. Porque ele sabia que o espaço geográfico não é um detalhe técnico, mas um campo de batalha. Quem controla o território — decidindo onde passa o metrô, onde não passa a coleta de lixo, onde se instala uma antena de 5G — está decidindo quem vive e quem morre.

Do ponto de vista da saúde coletiva e da gestão pública do território, a obra de Milton Santos oferece um arsenal teórico ainda pouco explorado. As decisões sobre localização de equipamentos de saúde, saneamento básico e transporte público não são técnicas neutras: são decisões espaciais que produzem ou reduzem desigualdades. Um sistema de saúde universal, por exemplo, só se concretiza quando o território é organizado para garantir acesso equitativo.

O pensamento ‘miltoniano’ nos ensina que não existe transformação social sem transformação espacial. Ocupar um território é ocupar uma possibilidade. Garantir o direito à cidade é garantir o direito à vida digna. Sua geografia é, no fundo, uma geografia da esperança – mas uma esperança ativa, que exige projeto político.

Celebrar 100 anos de Milton Santos não é, portanto, um exercício saudosista. É um gesto político. É reconhecer que um intelectual negro, filho do interior da Bahia, doutor honoris causa em universidades do mundo inteiro, conseguiu a proeza de ser ao mesmo tempo universal e profundamente local. Ele explicou o mundo sem nunca esquecer do Beco dos Tamoios, em Salvador, onde começou a observar o espaço vivido.

Sua ausência, 25 anos após sua morte, ainda ecoa. Quantos Milton Santos seriam necessários para desatar os nós da nossa crise urbana? A resposta é cruel: nenhum. Porque sua obra não é um manual, mas um método. Cabe a nós — sanitaristas, gestores, professores, pesquisadores, ativistas — aplicar esse método ao caos presente. O capital segue reorganizando o território para extrair valor; e a população segue se organizando para resistir. O espaço, esse eterno campo de disputa, continua a exigir um olhar crítico.

Milton Santos faz 100 anos, mas segue mais atual e urgente que nunca. Que o seu centenário não seja só uma data na agenda acadêmica. Ela precisa ser um chamado para relê-lo, para ocupar e transformar. Como ele próprio dizia: o futuro não está dado. Ele está para ser construído — e começa pelo chão que pisamos.

Editado por: Vinícius Sobreira

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