Gleide Andrade

Gleide Andrade é Secretária Nacional de Finanças e Planejamento do PT

Mulheres ganham 21% menos que homens e a desigualdade resiste no mercado de trabalho

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Mulheres continuam recebendo, em média, 21,2% menos que os homens | Crédito: Foto: GETTY images

O que está em jogo não é apenas uma injustiça salarial, mas a hierarquia histórica que organiza o país

Os números divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego mostram, mais uma vez, o que o Brasil insiste em não corrigir: as mulheres continuam recebendo, em média, 21,2% menos que os homens. Quando o recorte é racial, a ferida se aprofunda — mulheres negras ganham 53,3% menos que homens brancos.

Esses dados não são apenas estatísticas. São o espelho de uma sociedade que naturaliza o machismo e o racismo como se fossem engrenagens inevitáveis da economia. São números que carregam histórias de mulheres que fazem as mesmas funções, com a mesma formação, mas recebem menos — porque nasceram mulheres, e, muitas vezes, porque nasceram negras.

O 4º Relatório de Transparência Salarial, criado a partir da Lei da Igualdade Salarial, sancionada pelo presidente Lula em julho de 2023, deveria marcar um novo tempo nas relações trabalhistas do país. A lei determina que empresas com cem ou mais empregados tornem públicos os dados de remuneração e expliquem diferenças salariais entre homens e mulheres. É uma medida histórica — fruto da luta do movimento de mulheres, dos sindicatos e da atuação firme de um governo que recoloca a igualdade de gênero no centro das políticas públicas.

No entanto, o fato de dois anos depois, a diferença salarial permanecer praticamente estagnada mostra que a mudança estrutural ainda não chegou onde precisa: na cultura das empresas e na estrutura do Estado.

Mesmo com o aumento da participação feminina no mercado — hoje elas representam 41% dos vínculos trabalhistas formais —, o topo da pirâmide segue masculino e branco. Segundo o IBGE, apenas 37% dos cargos de gerência e direção são ocupados por mulheres, e menos de 10% por mulheres negras. O teto de vidro continua firme, sustentado por preconceitos invisíveis e práticas discriminatórias que a transparência, sozinha, não consegue derrubar.

A desigualdade salarial não é apenas uma questão de justiça, é também um entrave ao desenvolvimento econômico. Se mulheres e homens recebessem o mesmo salário, R$ 92,7 bilhões a mais seriam injetados na economia, segundo o próprio MTE. Igualdade, portanto, não é gasto: é investimento,  desenvolvimento e soberania.

Mas enfrentar essa desigualdade exige ações estruturais e mudança de mentalidade. É preciso ampliar a licença-paternidade, garantir creches públicas em tempo integral, valorizar o trabalho de cuidado e implementar políticas afirmativas que assegurem a presença de mulheres — especialmente negras — em cargos de comando e decisão.

As mulheres brasileiras dedicam, em média, o dobro do tempo que os homens às tarefas domésticas e ao cuidado de filhos e familiares, segundo o IBGE. Esse desequilíbrio, invisível nas planilhas, é uma das raízes da desigualdade. Sem dividir o cuidado, não há igualdade possível.

O mercado de trabalho brasileiro reflete, com nitidez, a estrutura social que o produz. Quando uma mulher negra recebe metade do que ganha um homem branco, o que está em jogo não é apenas uma injustiça salarial, mas a hierarquia histórica que organiza o país desde a escravidão.

A Lei da Igualdade Salarial, sancionada pelo presidente Lula, é um passo essencial. Mas leis precisam ser acompanhadas de fiscalização, transparência efetiva e vontade política. É preciso garantir que as empresas que mantêm desigualdades não sejam apenas diagnosticadas — mas responsabilizadas.

O Brasil só avançará de fato quando compreender que igualdade de gênero e raça não é favor, é reparação. É o mínimo esperado de uma sociedade democrática. E, enquanto uma mulher continuar recebendo menos por ser mulher, nenhum de nós estará ganhando de verdade.

Gleide Andrade é Secretária Nacional de Finanças e Planejamento do Partido dos Trabalhadores (PT).

Leia outros artigos de Gleide Andrade em sua coluna no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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