Gleide Andrade

Gleide Andrade é Secretária Nacional de Finanças e Planejamento do PT

Prisão de Bolsonaro: um marco que simboliza o início de um acerto de contas histórico

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Gleide Andrade | Crédito: Arquivo pessoal

Tentativa de se livrar da tornozeleira foi continuidade de uma estratégia

A prisão de Jair Bolsonaro — após a tentativa grotesca de se livrar da tornozeleira eletrônica — não inaugura um novo capítulo apenas em sua biografia, mas no processo histórico de responsabilização que o país adiou por tempo demais. Golpe, destruição institucional e 700 mil mortos na pandemia não cabem no esquecimento.

É ainda, a consequência direta de um projeto político que, desde 2019, opera pela erosão das instituições, pela disseminação da mentira e pela manutenção de uma lógica autoritária que insiste em sobreviver mesmo após a derrota eleitoral.

A decisão do STF, não inaugura sua trajetória criminosa: ela apenas a coloca, pela primeira vez, dentro dos trilhos formais da responsabilização penal.

As bases jurídicas

Os ministros do STF aceitaram a denúncia de forma unânime, destacando a robustez das provas: discursos convocando ruptura institucional, articulações com militares da ativa e da reserva, minutas golpistas e a mobilização de sua base para confrontar o resultado das urnas.

A justificativa jurídica é, portanto, sólida: havia risco real à ordem pública, ameaça à aplicação da lei penal e indícios suficientes de que Bolsonaro continuava tentando obstruir investigações — circunstâncias clássicas que fundamentam a prisão preventiva, prevista no Código de Processo Penal.

A tentativa de se livrar da tornozeleira não foi um gesto de desespero: foi continuidade de uma estratégia. Bolsonaro sempre tratou a Justiça como um obstáculo a ser contornado e não como parâmetro de convivência democrática.

A ameaça que ainda existe

A prisão apenas confirma algo que o país já sabia: Bolsonaro nunca aceitou os limites institucionais da República. Desde o início, operou como um presidente que se acreditava acima da lei, acima das instituições e acima da vontade popular.

Mesmo agora, condenado, segue tentando mobilizar sua base política para sustentar uma narrativa de perseguição — uma estratégia conhecida de líderes autoritários que tentam converter seus crimes em capital político.

Os mortos da pandemia: o crime que ainda exige justiça

É impossível discutir a responsabilidade de Jair Bolsonaro sem mencionar as quase 700 mil vidas perdidas na pandemia de Covid-19. A CPI demonstrou que seu governo promoveu, de forma deliberada, negligência, desinformação e sabotagem das políticas sanitárias. Os possíveis crimes — da epidemia com resultado morte aos crimes contra a humanidade — seguem exigindo apuração e julgamento. A pandemia foi mais que incompetência: foi escolha política que custou vidas.

Mesmo sem que esses crimes tenham sido julgados em sua totalidade, eles seguem pesando sobre sua trajetória e reforçam a tese jurídica e política central: Bolsonaro não governou, operou contra o país.

A soberania nacional como inimiga do bolsonarismo

Diferentemente do que prega sua retórica, Bolsonaro jamais defendeu a soberania. Ao longo de seu governo, atacou instituições de Estado, submeteu decisões estratégicas aos interesses dos Estados Unidos, desmantelou políticas ambientais — entregando territórios e recursos ao crime e ao capital internacional —, incentivou o desmonte da ciência, da saúde pública e das estruturas de proteção social, além de estimular a formação de grupos armados paralelos ao próprio Estado.

Sua prisão não diz respeito apenas aos atos golpistas de fevereiro de 2024 ou à destruição da tornozeleira eletrônica; ela é parte de um acerto de contas histórico que precisa reconhecer um ciclo contínuo de agressões à ordem institucional, ao pacto republicano e ao próprio povo brasileiro.

Democracia exige vigilância permanente

A prisão de Jair Bolsonaro é juridicamente necessária, mas politicamente insuficiente se não vier acompanhada de um esforço coletivo de reconstrução democrática. O momento exige enfrentamento político, comunicacional, institucional e cultural.

É preciso nomear seus crimes de forma completa: o crime contra a democracia, o crime contra a vida e o crime contra o Brasil.

Justiça não é vingança. Justiça é memória, é método e é proteção do futuro. Transformar esse marco em salvaguarda democrática é o desafio que permanece diante de nós.

Gleide Andrade é Secretária Nacional de Finanças e Planejamento do Partido dos Trabalhadores (PT).

Leia outros artigos de Gleide Andrade em sua coluna no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Elis Almeida

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