Gleide Andrade

Gleide Andrade é Secretária Nacional de Finanças e Planejamento do PT

Entre Trump, o Pix e o Brasil: de que lado estão os Bolsonaro?

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A família Bolsonaro passou anos cultivando uma relação de subordinação política e ideológica ao trumpismo | Crédito: reprodução

Essa postura não prejudica governos. Prejudica o país.

Flávio Bolsonaro quer convencer os brasileiros de uma tese difícil de sustentar: que sua proximidade política com Donald Trump deve ser comemorada quando rende manchetes e dividendos eleitorais, mas ignorada quando produz consequências negativas para o Brasil.

Nos últimos dias, assistimos a mais um capítulo dessa contradição.

Enquanto integrantes da família Bolsonaro celebravam sua interlocução com Trump, o governo dos Estados Unidos anunciava novas medidas comerciais contra o Brasil. Entre os argumentos utilizados, surgiu algo que é motivo de orgulho nacional: o Pix.

Sim, o Pix.

O sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central, utilizado diariamente por milhões de trabalhadores, pequenos empreendedores e consumidores, transformou-se em alvo de críticas de setores que enxergam na inovação brasileira uma ameaça aos interesses econômicos consolidados.

Depois da repercussão negativa, Flávio Bolsonaro buscou se desvincular das consequências políticas do episódio. E é justamente aí que começa o problema.

A questão é política.

Se a família Bolsonaro transformou sua relação com Donald Trump em ativo político permanente, é legítimo que a sociedade brasileira questione essa relação quando medidas hostis aos interesses nacionais partem justamente do campo político que eles tanto celebram.

Não é possível reivindicar os dividendos da proximidade e rejeitar qualquer responsabilidade política pelos seus efeitos. Não é possível posar para fotos, comemorar alianças ideológicas internacionais, exaltar lideranças estrangeiras e depois fingir surpresa quando essas mesmas lideranças atacam interesses brasileiros.

Mas o episódio do Pix revela algo maior do que uma disputa comercial. Ele expõe uma contradição profunda do bolsonarismo: onde termina a devoção a Trump e começa o compromisso com o Brasil?

Os mesmos grupos políticos que passaram anos sequestrando os símbolos nacionais, monopolizando o discurso patriótico e reivindicando para si o amor à pátria permanecem constrangedoramente silenciosos quando os interesses brasileiros entram em rota de colisão com os interesses da extrema direita norte-americana.

O caso de Flávio Bolsonaro é emblemático porque simboliza exatamente essa escolha.

Nos últimos anos, o senador construiu sua trajetória política associando-se à agenda internacional liderada por Trump e aos setores mais conservadores da política estadunidense. Não há problema em manter relações internacionais. Isso faz parte da atividade política.

O que estamos assistindo é a consolidação de uma direita que transformou o nacionalismo em peça de marketing eleitoral. Uma direita que veste a camisa da seleção, enrola-se na bandeira e fala em soberania apenas quando isso serve para mobilizar sua base. Mas que desaparece quando a soberania nacional exige enfrentamento real.

Soberania é defender os interesses do Brasil

Porque soberania não é discurso, é prática. Soberania é defender a indústria nacional quando ela é atacada; é defender empregos brasileiros quando eles são ameaçados; é proteger instrumentos estratégicos construídos pelo próprio país. Soberania é defender o Pix.

O Pix representa exatamente aquilo que o bolsonarismo jamais soube reconhecer: a capacidade do Estado brasileiro de produzir soluções eficientes para a população.

Em poucos anos, o sistema transformou a vida de trabalhadores, comerciantes, microempreendedores e consumidores. Reduziu custos, ampliou a inclusão financeira e colocou o Brasil na vanguarda mundial dos meios de pagamento instantâneo. Não por acaso, tornou-se alvo de interesses contrariados.

Quando setores ligados ao mercado financeiro internacional apontam o Pix como problema, não estão criticando sua eficiência. Estão reagindo justamente ao seu sucesso. Estão reagindo ao fato de que uma solução pública brasileira conseguiu competir com modelos altamente lucrativos para grandes conglomerados privados.

É nesse momento que se espera a atuação firme daqueles que dizem defender o país. Mas o que se vê é o oposto.

A família Bolsonaro passou anos cultivando uma relação de subordinação política e ideológica ao trumpismo. Transformou a política externa brasileira em instrumento de alinhamento automático a interesses estrangeiros. Substituiu a tradição diplomática de autonomia por uma lógica de vassalagem ideológica que produziu isolamento internacional e enfraqueceu a posição do Brasil no mundo.

Não é a primeira vez. Durante o governo Bolsonaro, vimos o país abrir mão de protagonismo internacional, hostilizar parceiros estratégicos e adotar uma postura de alinhamento quase incondicional aos Estados Unidos de Trump. A promessa era de ganhos econômicos e prestígio internacional. O saldo foi perda de influência, constrangimentos diplomáticos e sucessivas demonstrações de desprezo pelos interesses brasileiros.

Desde 2023, o governo Lula vem reconstruindo a presença internacional do Brasil com base na defesa da soberania nacional, na diversificação das relações diplomáticas e na recuperação do protagonismo do país em espaços multilaterais. Trata-se da retomada de uma tradição histórica da política externa brasileira: dialogar com todos, subordinar-se a ninguém.

É justamente essa visão de um Brasil autônomo, capaz de defender seus próprios interesses, que está sendo colocada à prova diante das recentes pressões norte-americanas.

Ainda assim, a postura da família Bolsonaro parece permanecer a mesma. Mesmo fora do governo, seus principais representantes seguem apostando em uma relação de submissão política ao trumpismo, reproduzindo a lógica que marcou a política externa bolsonarista.

A história se repete não porque o Brasil tenha voltado ao mesmo lugar, mas porque os Bolsonaro continuam agindo da mesma forma.

E o mais grave é que essa postura não prejudica governos. Prejudica o país.

Quando produtos brasileiros são alvo de barreiras comerciais, quem sofre não é um partido político. São trabalhadores. São agricultores. São pequenos empresários. São regiões inteiras que dependem das exportações para gerar renda e emprego.

Quando uma inovação nacional como o Pix é atacada, não está em jogo uma disputa ideológica. Está em jogo a capacidade do Brasil de desenvolver tecnologia própria, fortalecer sua autonomia econômica e reduzir dependências externas.

Por isso, a defesa do Pix não deveria ser uma pauta de governo ou de oposição. Deveria ser uma pauta nacional.

Porque o patriotismo verdadeiro não se mede pelo volume dos discursos nem pelo tamanho das bandeiras agitadas em manifestações. Ele se mede pela disposição de defender o país quando isso exige contrariar aliados poderosos.

Soberania é a capacidade de defender o país quando ele é pressionado por interesses externos. E é justamente nesses momentos que descobrimos quem está disposto a defender o Brasil — e quem prefere continuar batendo continência para quem o ataca.

Gleide Andrade é secretária nacional de Finanças e Planejamento do Partido dos Trabalhadores (PT).

Leia outros artigos de Gleide Andrade em sua coluna no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Elis Almeida

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