Guila Xukuru

Indígena do povo Xukuru do Ororubá, localizado em Pesqueira (PE). Vereador eleito (2025-28) e presidente da Câmara Municipal de Pesqueira. Ex-vice-prefeito (2023-24). Advogado, mestre em Antropologia Social e fundador da Ororubá Filmes.

Seleção de quem? Imigração, preconceito e identidade no futebol

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Lamine Yamal, nascido em 2007, é atualmente a maior promessa do futebol espanhol. Filho de pai marroquino e mãe guinéu-equatoriana, Yamal cresceu num bairro de imigrantes na periferia de Barcelona
Lamine Yamal, nascido em 2007, é atualmente a maior promessa do futebol espanhol. Filho de pai marroquino e mãe guinéu-equatoriana, Yamal cresceu num bairro de imigrantes na periferia de Barcelona | Crédito: AFP

O futebol nos lembra que as identidades são bem mais complexas que as fronteiras dos mapas

Quando uma seleção entra em campo, ela representa exatamente o quê? Um território? Uma bandeira? Um povo? Uma identidade? E quem decide, afinal, quem pertence a essa identidade? O futebol, frequentemente visto apenas como entretenimento, tornou-se o maior palco de um debate urgente da atualidade: a relação complexa entre migração, pertencimento e a resistência das nações em aceitar a diversidade que elas mesmas “acolhem”.

Lamine Yamal, o jovem prodígio que encantou a Espanha, é uma face dessa realidade. Ao comemorar seus gols fazendo o número 304 com as mãos, ele não faz uma dancinha vazia, mas uma referência direta ao CEP do bairro de imigrantes onde foi criado, em Rocafonda. Filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial — o único país africano onde o espanhol é língua oficial, herança direta de um passado colonial que ainda aparece na relação entre os povos — Yamal traz no gesto a sua própria história.

No mesmo cenário temos Achraf Hakimi, craque do PSG e campeão da Champions League. Nascido na Espanha, ele poderia estar ao lado de Yamal na seleção que sempre figura entre as favoritas ao título mundial. Mas ele escolheu defender o Marrocos, honrando suas raízes familiares em uma decisão que desafia a lógica puramente geográfica e abraça a afetiva.

Histórias como essas estão longe de ser exceção. Elas revelam um padrão global onde jogadores nascem num lugar, crescem sob a influência cultural de outro e carregam no sobrenome a história de um terceiro país. Quando perguntamos que nação eles representam, a resposta nunca é óbvia. É aqui que se torna inevitável discutir a fundo o conceito de imigração e pertencimento.

Talvez o futebol esteja expondo uma verdade que parte da política ainda se recusa a admitir: as sociedades são cada vez mais diversas, mas o conceito legal e social de pertencimento insiste em permanecer estático, preso a preconceitos.

Esse intercâmbio, embora gere resistências, traz vantagens imensuráveis. O exemplo de Mohamed Salah, atacante da seleção do Egito, que atua no Liverpool, é um caso de estudo sobre o poder da representatividade. Pesquisas apontaram que sua presença na Premier League (campeonato inglês) foi responsável por uma redução significativa nos episódios de islamofobia na cidade de Liverpool. Salah não é apenas um jogador; mas uma ponte cultural. E, no exercício de sua profissão, combate preconceitos enraizados.

Mesut Özil nasceu na Alemanha e é filho de pais turcos. Ele jogou pela Alemanha nas copas do mundo de 2010, 2014 e 2018
Mesut Özil nasceu na Alemanha e é filho de pais turcos. Ele jogou pela Alemanha nas copas do mundo de 2010, 2014 e 2018 | Crédito: AFP

Mas nem tudo são flores. Existe uma hipocrisia alarmante: fora das quatro linhas, a imigração é tratada por muitos setores como uma ameaça, seja política, econômica ou cultural. Vivemos em um sistema que celebra, lucra e se beneficia dos talentos migrantes quando eles trazem troféus, mas que rapidamente produz discursos de exclusão e xenofobia contra esses mesmos grupos quando o cenário muda.

O futebol expõe essa contradição de forma cruel. Mesut Özil, campeão mundial pela Alemanha, é o exemplo definitivo de como esse status de cidadão é frágil. Durante anos, ele foi o símbolo máximo da integração alemã. Mas após a eliminação precoce da Alemanha na Copa de 2018, o cenário mudou. O jogador passou a sofrer ataques xenofóbicos que o levaram a romper com a seleção do país, denunciando em sua carta aberta o racismo e a falta de respeito que enfrentou, resumindo tudo com a frase: “Sou alemão quando ganhamos, mas sou um imigrante quando perdemos”.

Romelu Lukaku, pilar da seleção belga, relatou experiência semelhante. Filho de imigrantes congoleses, ele percebeu que sua identidade pública oscilava conforme o placar: nos dias de vitória, era o atacante belga; nos momentos de crise, a imprensa e o torcedor faziam questão de lembrar sua origem africana, como se ela fosse o motivo do fracasso.

E várias são as histórias de grandes jogadores, que mostram como as nacionalidades sáo diversas. David Trezeguet, cresceu na Argentina, viu o pai jogar pela seleção argentina, mas escolheu defender a seleção da França, país onde nasceu, tornando-se campeão mundial em 1998 e autor do gol do título da Eurocopa de 2000. Thierry Henry, filho de imigrantes das Antilhas Francesas, tornou-se um dos maiores jogadores da história da França e símbolo de uma geração multicultural que conquistou a Copa do Mundo 98.

Os irmãos Jerome Boateng (representando a Alemanha) e Prince Boateng (Gana) foram os primeiros irmãos a se enfrentarem num jogo de Copa do Mundo, em 2010. O duelo se repetiu na Copa de 2014
Os irmãos Jerome Boateng (representando a Alemanha) e Prince Boateng (Gana) foram os primeiros irmãos a se enfrentarem num jogo de Copa do Mundo, em 2010. O duelo se repetiu na Copa de 2014 | Crédito: AFP

Os filhos do nosso tetracampeão mundial Mazinho seguiram caminhos diferentes: Thiago Alcântara escolheu defender a Espanha, enquanto seu irmão Rafinha optou pelo Brasil. Andreas Pereira, nascido na Bélgica, decidiu representar o Brasil por sua ligação afetiva com a nação dos seus pais.

Os irmãos Jérôme e Kevin-Prince Boateng ilustram outra dimensão desse debate. Nascidos em Berlim e filhos do mesmo pai ganês, acabaram representando seleções diferentes. Na Copa de 2010, Alemanha e Gana se enfrentaram com os dois em lados opostos, transformando uma partida em símbolo dessa diferença de pertencimento.

O futebol revela uma verdade: as identidades são muito mais complexas do que as fronteiras desenhadas em mapas. Talvez o pertencimento não seja algo que se herda ou se define por um único território, mas algo plural, que se constrói na trajetória de cada um.

E, enquanto insistirmos em olhar para o atleta como um representante de um só lugar, continuaremos falhando em entender que a identidade, assim como a própria vida, é um somatório de vivências, não uma escolha excludente.

Mas a pergunta que permanece é simples: até quando a origem de um atleta continuará sendo tratada como obstáculo para que se tenha algo tão básico e necessário como o respeito?

A Copa do Mundo é um dos maiores espetáculos esportivos do planeta, um momento em que o mundo assiste nações batalhando dentro do gramado. Mas, por trás de cada time em campo, há um conjunto de histórias que não cabem nos 90 minutos de jogo. Migração, desigualdade, conflitos políticos, disputas por identidade, memória coletiva e formas diferentes de existir no mundo. Futebol e a política se discutem e também se misturam.

É com esse olhar que nasce esta série de textos (veja aqui) em que não falo apenas de futebol e nem só de política. A Copa é o ponto de partida para dar visibilidade a histórias, questões sociais, culturais e políticas. Mas e para você, qual é o tema que merece a nossa atenção nesta Copa?

Leia também: O futebol e a Copa como instrumentos coloniais

Editado por: Vinícius Sobreira

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