Guila Xukuru

Indígena do povo Xukuru do Ororubá, localizado em Pesqueira (PE). Vereador eleito (2025-28) e presidente da Câmara Municipal de Pesqueira. Ex-vice-prefeito (2023-24). Advogado, mestre em Antropologia Social e fundador da Ororubá Filmes.

Quando a política se fantasiou de camisa da Seleção?

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Nos textos, Patto analisa como setores da extrema direita passaram a ocupar espaço central na cena pública brasileira nos últimos anos, especialmente após o avanço do bolsonarismo.
Nos textos, Patto analisa como setores da extrema direita passaram a ocupar espaço central na cena pública brasileira nos últimos anos, especialmente após o avanço do bolsonarismo. | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No país do futebol, a ‘amarelinha’ ganhou tem significados que vão além das quatro linhas

O que representa vestir a camisa da nossa Seleção? Estamos apoiando o país? O povo? Um governo? Um partido? Uma corrente política? Dizem que futebol e política não se discutem — mas aqui a gente faz exatamente isso. Existe uso político da Seleção?

Poucos símbolos despertam tantas emoções como a camisa da Seleção brasileira. No país do futebol, ela tem significados que vão além das quatro linhas.

Ao ser adotada como principal símbolo entre grupos de direita, a “amarelinha” deixou, para muitos, de representar apenas o esporte e se tornou um uniforme ideológico, uma declaração de voto e lealdade política, transformando a camisa no símbolo da polarização que divide o país.

E o peso dessa associação é tão grande que até as tentativas de variar as cores da camisa, como o caso da versão vermelha, geraram reações intensas. E olhe que a justificativa se ancorava na discussão sobre a origem do nome do país, na ideia de “cor de brasa”. Mas o debate sobre isso foi logo associado a cores e bandeiras partidárias.

Só o fato de existir essa discussão já revela como a camisa da Seleção, de alguma forma, foi capturada pela política. No fim, a CBF pressionou para que a camisa da não saísse em outras cores que não fossem as tradicionais.

Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro entrou no gramado para tirar fotos com a taça da Copa América durante a festa dos atletas
Em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro entrou no gramado para tirar fotos com a taça da Copa América durante a festa dos atletas | Crédito: Carolina Antunes / Presidência da República

Mas há, de todos os lados ideológicos, quem defenda que a camisa pertence a um grupo político. Assim como há quem discorde e entenda que essa camisa é a representação de um país, um símbolo que a esquerda precisa resgatar para que pertença a todo o povo brasileiro. Mas isso é mais complicado do que parece, porque, embora aparente ser uma questão recente, a associação de grupos políticos à Seleção ocorre há muito tempo.

Getúlio Vargas foi um dos pioneiros a entender que o futebol poderia criar uma identidade nacional unificada. Ele utilizou a imagem da Seleção, que ganhara projeção após a boa campanha de 1938, para promover o sentimento de “brasilidade”. Vargas se aproximou de grandes estrelas, como o “Diamante Negro” Leônidas da Silva, para surfar nessa popularidade e ganhar a simpatia das massas. Ali, a política entendeu de vez que o futebol era um espaço de poder.

Na Ditadura Militar essa aproximação virou uma questão de sobrevivência do regime. E foi o que aconteceu na Copa de 1970.

O Brasil tinha como técnico João Saldanha, que montou o time e classificou para a Copa com 100% de aproveitamento nas eliminatórias. Mas ele era um militante declarado do Partido Comunista. Para o general Médici, presidente da época, aquilo era inaceitável. Como se não bastasse, Médici começou a exigir que Dadá Maravilha fosse convocado. A resposta de Saldanha entrou para a história como um ato de rebeldia: “O presidente escala o ministério, eu escalo o time”.

Arquivo nacional
João Saldanha, ex-técnico da Seleção Brasileira, confrontou o ditador Médici e acabou demitido | Crédito: Arquivo nacional

É óbvio que João Saldanha, o João “Sem Medo”, foi demitido e, para o seu lugar, entrou Zagallo. A partir daí, a Seleção virou um braço da propaganda estatal. Era o projeto “Brasil Grande” fortalecendo a narrativa do milagre econômico.

A euforia dos gols e a comemoração do tricampeonato mundial eram a cortina de fumaça perfeita: enquanto o país celebrava, a ditadura se vendia como um regime de sucesso e, em paralelo, silenciava opositores, torturava e censurava, tudo a poucos metros de distância da festa.

E não achem que isso aconteceu só no Brasil. Temos vários exemplos para citar, mas há um bem clássico, que virou capítulo marcante da história das Copas: Camarões na Copa de 1990.

O país africano vivia uma crise econômica brutal, com revoltas nas ruas. O ditador Paul Biya decidiu chamar atenção para outra coisa, uma distração, e fez um apelo público para que o atacante Roger Milla — já com 38 anos, aposentado da seleção e longe dos holofotes — voltasse à seleção camaronesa.

Camarões chegou às quartas de final, feito que até aquele momento nenhuma seleção africana havia conseguido. Eles quase chegaram à semifinal. Venceram a Argentina de Maradona. Representaram simbolicamente não só o país, mas um continente inteiro. Milla era o craque, o herói. A dança na bandeirinha de escanteio foi protagonizada por ele e até hoje continua a embalar gols pelo mundo. Vocês têm dúvida de que o ditador se aproveitou disso?

Não é só futebol. A próxima vez que a bola rolar e o mundo parar para assistir, lembre-se: acontece muita coisa fora das quatro linhas. A pergunta não é se a política entra em campo, mas quem está usando o futebol para nos fazer olhar para o lado oposto do que nos interessa?

Editado por: Vinícius Sobreira

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