Um beijo entre Maradona e Caniggia virou um escândalo. Mas essa história não é só sobre um beijo. É sobre como o preconceito e a homofobia também já decidiram ou decidem quem pode ou não ocupar espaço no futebol. Precisamos conversar sobre!
Daniel Passarella, na época treinador da Argentina, afirmou que não convocaria um jogador se soubesse que ele era homossexual. Ao ser questionado do porquê, ele disse: simplesmente não gostaria de convocar. Era 1995 e essa declaração não foi uma atitude isolada, mas parte de uma lógica autoritária e preconceituosa que Passarella implementou. Além de banir homossexuais, ele quis impor o que ele julgava como estética masculina tradicional e proibiu o uso de cabelos compridos e de brincos.
E foi nesse cenário de desgaste entre atletas e treinador que, em um Superclássico nacional entre Boca Juniors e River Plate, Caniggia marca não somente um gol, mas também a história ao beijar a boca de Maradona. Os atletas nunca confirmaram que o gesto foi um ato político.
O que está na história é que Diego Maradona tinha uma relação tensa com Passarella e, por solidariedade aos jogadores cortados e em protesto contra a rigidez, chegou a pintar o cabelo de loiro e teceu duras críticas à gestão do treinador.
A imposição de Passarela custou à Argentina a presença de alguns de seus maiores talentos da época: Fernando Redondo e o próprio Claudio Caniggia recusaram-se a aceitar as exigências e acabaram excluídos da seleção, perdendo, inclusive, a chance de disputar a Copa do Mundo de 1998.
Mas essa, infelizmente, não é uma história isolada. A ausência de atletas assumidamente gays ou bissexuais em Copas do Mundo não significa a ausência deles e de outras pessoas LGBTQIAPN+ no esporte, mas sim um reflexo das barreiras que o ambiente esportivo impõe para que esses jogadores possam ser eles mesmos.
E a realidade é que, até hoje, nenhum jogador disputou uma Copa do Mundo sendo publicamente gay ou bi. Esse silêncio forçado atravessa fronteiras: do inglês Justin Fashanu, um dos pioneiros a se assumir em 1990, passando pelo francês Olivier Rouyer, que jogou a Copa de 1978, até Thomas Hitzlsperger, que disputou a Copa de 2006 pela Alemanha. Todos eles só encontraram segurança para revelar sua sexualidade anos após pendurarem as chuteiras.
No Brasil, o caso mais emblemático é o de Richarlyson, ex-volante com passagens por São Paulo, Atlético Mineiro e Seleção Brasileira. Ele só assumiu sua bissexualidade após a aposentadoria, por entender que o futebol ainda é um ambiente profundamente conservador e excludente, que não respeitaria sua sexualidade.
Richarlyson sofreu preconceito sistemático durante toda a carreira. Enfrentou entrevistas invasivas onde sua atuação em campo era sempre questionada através da sua sexualidade, além de gritos homofóbicos em estádios e bombas atiradas no clube em que atuava como forma de protesto contra sua chegada.
O dirigente de um clube expôs sua intimidade em rede nacional. A resposta do Judiciário foi ainda mais assustadora: o juiz arquivou a queixa do jogador afirmando que futebol é jogo viril, varonil, não homossexual e sugeriu que, se ele fosse homossexual, deveria abandonar os gramados ou formar seu próprio time. Essa sentença não foi apenas um erro, mas a legitimação institucional do ódio.
O próprio Richarlyson é direto ao dizer que sua fala, anos depois, é apenas um passo, porque o problema é estrutural. Ele defende que, enquanto não houver um posicionamento coletivo, especialmente dos jogadores heterossexuais, o futebol vai continuar sendo um ambiente hostil para a diversidade.
Enquanto o futebol masculino permanece refém de um conservadorismo que silencia, o futebol feminino ensina o caminho da liberdade. No cenário das mulheres, a realidade é outra: ícones de renome mundial e protagonistas da nossa Seleção, como Marta e Cristiane, vivem suas vidas e relacionamentos com a naturalidade que o esporte deveria permitir para todos. Elas são hoje as principais referências de representatividade LGBTQIAPN+ no esporte, provando que o futebol masculino, preso em seus preconceitos, tem muito a aprender com a coragem e a autenticidade das mulheres.
Na contramão disso, a Copa de 2018 na Rússia foi marcada por leis que proibiam o que o governo chamava de “propaganda gay”. Na prática, a censura impedia qualquer menção a relacionamentos homossexuais em filmes, livros, e manifestações públicas. Como resposta, surgiu o movimento “Bandeira Oculta”.
A estratégia foi brilhante: ativistas se posicionavam lado a lado em pontos turísticos ou nas ruas, vestindo camisas oficiais de seleções de diferentes países, como Holanda, Espanha, Brasil, México, Colômbia e Argentina. O alinhamento das camisas formava o arco-íris para representar a diversidade e desafiar a censura estatal diante dos olhos do mundo.
Na Copa do Qatar, em 2022, o caso foi mais crítico. O país sede criminaliza a homossexualidade. A campanha OneLove mobilizou diversas seleções para que seus capitães entrassem em campo utilizando braçadeiras com as cores do arco-íris em apoio à causa. A Fifa ameaçou aplicar cartão amarelo aos jogadores e impor punições esportivas às seleções, o que fez as federações recuarem.
Como forma de protesto, antes do jogo entre Alemanha e Japão, a seleção alemã posou para a foto oficial com as mãos cobrindo a boca, simbolizando como o torneio havia se transformado em um palco de silenciamento. Houve ainda o caso de um jornalista pernambucano que teve seu celular apreendido e uma bandeira do estado confiscada e pisoteada ao ser confundida com um símbolo do movimento LGBT.
O futebol perde com a homofobia. A sociedade perde com a homofobia. Estamos falando de relacionamentos. Em que os relacionamentos dessas pessoas impactam nas nossas vidas? Embora essa seja uma pergunta que ainda carrega preconceitos, ela serve para que observemos toda a estrutura repressiva necessária para tentar esconder algo simples: o amor. E, sim, eu expresso aqui uma visão menos socioantropológica e mais poética.
Eu não sei para vocês, mas, independentemente de quem eu ame, o amor simplesmente acontece. Então, por que tanto julgamento sobre isso? Tudo isso nos faz perder de vista o que há de mais real não só no esporte, mas na vida: a capacidade de se conectar.
Enquanto não nos repensarmos, a homofobia seguirá sendo esse esforço exaustivo e pequeno diante da grandeza de quem se permite ser aquilo que realmente é.
E o preconceito, por mais que tente ocupar o campo, sempre será uma visão limitada. Já o amor, não. O amor é infinito.

