Querida gente leitora do Brasil de Fato, em 21 de junho de 2026, o 4º domingo após o Pentecostes, a comunidade da Paróquia Episcopal Anglicana São Francisco, em Petrolina, seguiu as leituras do Lecionário Comum Revisado, roteiro bíblico compartilhado por diferentes igrejas cristãs no mundo.
Ouvimos Jeremias contar que o sacerdote Pasur, responsável pela ordem no templo, o espancou e prendeu por causa da palavra profética que lhe ardia nos ossos (Jr 20,7-13); a voz poética do salmo 69 lamentar ter-se tornado estrangeira dentro da própria casa; Paulo anunciar à comunidade cristã de Roma uma “novidade de vida” (Rm 6,1b-11); e, no Evangelho, Jesus repetir três vezes: “não tenham medo” (Mt 10,26.28.31).
Lidas no mês do orgulho LGBTQIAPN+, numa comunidade cristã que se deseja radicalmente afirmativa, essas palavras não permitiram uma meditação abstrata sobre coragem. Colocaram-nos diante do medo, conhecido por várias de nós, de dizer o próprio nome, apresentar quem se ama, perder teto, emprego ou família, apanhar na rua, morrer ou entrar num templo e ter negado o direito ao Sagrado.
O entendimento comunitariamente construído naquela celebração foi cristalino: a libertação evangélica não retira ninguém à força do armário; ela desmonta as casas, igrejas, empresas e políticas que fazem do armário uma condição de sobrevivência.
Por isso, o “não tenhamos medo” dirige-se primeiro a quem, se reivindicando cristão, controla teto, púlpito, salário, informação, voto e orçamento. Quem dispõe dessas chaves não pode transferir para as pessoas ameaçadas o medo que suas instituições fabricam. Mesmo correndo riscos, não tenhamos medo de participar da força libertadora do Evangelho, que rompe estruturas de opressão.
Há silêncios individuais que funcionam como abrigo provisório. Quem depende de instituições LGBTfóbicas para comer, morar, estudar ou trabalhar precisa mesmo calcular cada palavra e ação. Ninguém possui o direito de expor outra pessoa, nem mesmo uma comunidade que se deseja afirmativa. Nosso alvo deve ser o regime que fabrica armários, não quem está momentaneamente protegido por eles.
Eve Kosofsky Sedgwick mostra a dinâmica social que torna o armário mais que um esconderijo íntimo. Trata-se de um regime de conhecimento que distribui quem pode falar de si sem consequências, quem deve negar, quem tem o direito de perguntar e quem controla a revelação.
Assim, quando Jesus afirma que “nada há encoberto que não venha a ser revelado” (Mt 10,26), não é autorizando exposições compulsórias ou revelações denunciatórias. Ele está anunciando que, um dia, no Mundo Novo em gestão no presente, a dignidade escondida não será apagada e que a violência vestida de moral e fé perderá sua máscara.
Armários possuem base material. Afinal, famílias não distribuem apenas afeto, mas comida, moradia, herança e pertencimento. Igrejas não oferecem apenas crenças, mas reputação, vínculos e influência política, inclusive eleitoral. Empresas controlam salário e permanência no trabalho. O Estado registra ou apaga, financia ou abandona, protege ou expõe. A existência dos armários depende, portanto, de casas, púlpitos, folhas de pagamento, delegacias, escolas, algoritmos e orçamentos.
A participação de instituições autodenominadas igrejas cristãs na sustentação da opressão LGBTfóbica pode escandalizar algumas pessoas, mas as histórias bíblicas não nos deixam ser ingênuos sobre a participação da religião na legitimação de tiranias. Jeremias enfrentou uma ordem religiosa capaz de cultuar no templo e tolerar, na mesma cidade, o sacrifício de crianças a Baal. Por denunciá-la, foi preso e torturado num tronco existente na própria área do templo (Jr 19,4-5; 20,1-2).
Atualizando a força profética dessa tradição libertadora, Marcella Althaus-Reid desfere um golpe de corpo na religião cristã instituída e nos chama a uma teologia indecente, capaz de abandonar os salões respeitáveis para procurar Deus nos corpos, cozinhas, ruas, trabalhos, quartos e desejos considerados impróprios. Lida ao lado de Jeremias, sua crítica desloca o escândalo de lugar: escandaloso não é o corpo dissidente, mas o culto que preserva sua respeitabilidade enquanto aceita corpos sacrificados.
O Grupo Gay da Bahia documentou 257 mortes violentas de pessoas LGBT+ em 2025, uma a cada 34 horas, e advertiu sobre a subnotificação. A Antra identificou 80 assassinatos de pessoas trans e travestis: sete em Pernambuco e pelo menos 67,5% em cidades do interior. Esses dois levantamentos possuem recortes distintos e não devem ser somados, mas juntos revelam um poder público que não protege suficientemente e tampouco conhece todas as vidas que deixa sob risco.
Em Petrolina a resistência organizada contra o sacrifício idólatra de corpos-templo possui endereço (e não é o de nenhum templo religioso). Refiro-me à Casa Cores. Criada em 2019, a organização oferece acolhimento e serviços jurídicos, psicológicos e culturais gratuitos para a comunidade LGBTQIAPN+, atuando ainda com a promoção de sua empregabilidade, alfabetização e articulação política no Vale do São Francisco. Em sua prática, produz-se conhecimento genuinamente sertanejo sobre como corpo, raça, classe, trabalho e território se encontram.
Diante dessa realidade, a meditação bíblica em nossa comunidade cristã nos leva a reconhecer na Cores um sinal profético da libertação evangélica em nossa cidade. Paul Tillich, filósofo e teólogo luterano, propõe que a coragem de ser é afirmação libertadora da vida diante das forças do não-ser.

Não se trata de ousadia psicológica isolada: envolve participação e a experiência existencial de aceitar-se, apesar das vozes que decretaram sua inaceitabilidade. A Casa Cores materializa essa participação na dinâmica sagrada do Amor-que-tudo-criou-e-sustenta e deveria inspirar outras instituições em nossa região, sobretudo as que se autodenominam cristãs.
Sua cozinha solidária torna sua implícita teologia indecente ainda mais concreta. Financiada pelo Acolher+, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e abastecida também com alimentos do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), oferece refeições à população LGBTQIAPN+ em situação de vulnerabilidade. Qual outra mesa seria mais Eucaristia do que esta em nossa cidade? Afinal, uma ceia só celebra a comunhão cristã quando antecipa a festa em que ninguém precisa negociar a identidade por uma refeição (Lc 14,15-24).
Seria injusto falar em ausência absoluta do poder público. Recursos federais sustentam, como vimos, parte das ações da Cores. A Prefeitura também realizou, em 2024, a Caravana do Orgulho e tem repassado alimentos do PAA.
Mas essa presença é parcial e contraditória: segundo a Cores, a 3ª Semana de Combate às LGBTQIAfobias, prevista pela Lei Municipal nº 3.279/2020, de autoria do vereador Gilmar Santos (PT), precisou ser transferida para dezembro de 2025 por falta de apoio e recursos municipais. Política pública exige continuidade, orçamento, dados e participação social.
Na Carta aos Romanos, Paulo apresenta o pecado como um senhorio que escraviza e anuncia que, pelo batismo, somos incorporadas a uma vida nova, livre desse julgo. Equivocadamente, parte do cristianismo converteu essa passagem bíblica em arte de guerra justamente contra o corpo, o desejo e a diferença. Uma leitura libertadora, porém, a conduz ao sentido oposto: pecado é qualquer forma de poder que submeta a vida à morte.
E elas têm formas históricas bem palpáveis na fome organizada, exploração do trabalho, racismo, patriarcado e LGBTfobia. Pecaminosa é, portanto, toda teologia que usa a cruz do Cristo para crucificar outras pessoas ao invés de libertá-las.
No Salmo 69, a pessoa que ora tornou-se estrangeira entre os seus. Muitas pessoas LGBTQIAPN+ conhecem essa oração muito intimamente: sentam à mesa de casa e participam de cultos medindo palavras e gestos. Por isso, “acolher” — palavra que vem felizmente ganhando algum lugar em espaços autodenominados cristãos — é ainda pouco para famílias e congregações que se desejem evangélicas. O Evangelho exige reconhecer o dano, reparar, proteger, celebrar e repartir poder.
Nesse sentido, a Política de Justiça de Gênero da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, apresentada em 2026 após participação de mulheres, clérigas e da comunidade LGBTQIAPN+, assume a conversão institucional e pessoal como tarefa cristã. Seu critério de verdade, porém, não está na mera publicação de um documento, mas na capacidade de transformar nossas liturgias, formações teológicas, pastorais, orçamentos e acessos aos lugares de decisão instituinte.
Quando Jesus diz que veio trazer espada, e não paz, não estava abençoando a violência (Mt 10,34). Sua espada, porém, não corta corpos ou desejos, mas a mentira da paz doméstica, religiosa e estatal hipócrita, sustentada pelo silêncio das pessoas feridas.
A espada de Jesus anuncia que há uma paz que precisa acabar: aquela das famílias de reputação preservada pela expulsão de membros, das igrejas protegida da calúnia e vergonha por meio da invenção de infernos e pecados e, igualmente, das cidades e Estados que, apesar de inscreverem direitos em lei, não lhes asseguram meios materiais de concretização.
Não tenhamos medo de assumir tarefas verificáveis: interromper uma piada machista, usar o nome correto, acompanhar alguém ameaçado, rever linguagem e práticas comunitárias, apoiar a Casa Cores e iniciativas similares, cobrar orçamento, dados e políticas públicas permanentes.
Não tenhamos medo, como pessoas e instituições que se desejam cristãs e, portanto, evangélicas, de dizer à comunidade LGBTQIAPN+ em nosso território que, sem ela, o Corpo de Cristo encontra-se ainda mutilado. Gestos cotidianos não substituem mudanças estruturais, mas ajudam a reunir força para realizá-las.
Quando Jesus disse às suas seguidoras “não tenham medo”, não insinuava que os perigos do seguimento fossem imaginários. Convocava-nos à coragem compartilhada de não aceitar o medo como destino.
A libertação evangélica não arromba a porta de quem precisa de abrigo, mas desmonta o regime do segredo, enfrenta os poderes que transformam diferença em desigualdade, reparte as chaves dos esconderijos e põe pão na mesa de todas.
Que nossa mesa seja maior que o nosso medo!
OBS.: Texto com pesquisa e revisão apoiada por IAG. Concepção, conteúdo, checagem final e responsabilidades são do autor.

