História Pública & Narrativas Afro-Atlânticas

Coluna escrita por integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi-UFPB) e por colaboradores externos que lecionam e pesquisam sobre educação antirracista, relações raciais, classe e gênero.

José Antonio Novaes – Baruty: uma obra, memórias, vidas negras

No audio source provided.
Ilustrar o artigo de autoria de Elio Flores
Antonio Baruty vai lançar seu livro ‘Metamorfoses e (Re)invenções de um Professor Ativista’ no próximo dia 3 de dezembro, em João Pessoa | Crédito: Acervo pessoal/Antonio Baruty

Como professor ativista, ele emancipou a biologia do laboratório, por adotar a pesquisa-ação dentro e fora da universidade

Por Elio Flores*

Eu sou quem descreve minha própria história, e não quem é descrita. Escrever, portanto emerge como um ato político. O poema [Por que escrevo?] ilustra o ato da escrita como um ato de tornar-se e, enquanto escrevo, eu me torno a narradora e a escritora da minha própria realidade, a autora e a autoridade na minha própria história. Nesse sentido, eu me torno a oposição absoluta do que o projeto colonial predeterminou (Grada Quilomba. Memórias da Plantação, 2008).

Foi Baruty quem me anunciou a autora da obra e epígrafe citadas acima. Trago-as nesse momento para expressar toda a força da escrita do próprio Baruty no seu último livro, a ser lançado no mês de dezembro de 2025, nomeado Metamorfoses e (Re)invenções de um Professor Ativista: educação antirracista e emancipatória no campo da Biologia.  

Por que Baruty escreve?

A identificação “baruti” tem origem linguística Tswana, idioma que se fala e se escreve na África meridional, especialmente em Botsuana, Zimbábue, Namíbia e partes da África do Sul e tem a ver com “professor de baliza”. Antonio Novaes, já Baruty, me informou que significa “aquele que ensina, aquele que aprende” e, nesse sentido, passou a incorporar ao seu nome social/político. Para um homem negro, escrever, ser autor é sempre um ato pedagógico e político. Não por acaso, o Antonio Novaes é o nosso conhecidíssimo professor Baruty.

Por que a obra Metamorfoses e (Re)invenções de um Professor Ativista?

A obra ou o livro de memórias e experiências negras é resultado do seu concurso para professor titular junto ao Departamento de Biologia Molecular (DBM), vinculado ao Centro de Ciências Exatas e da Natureza (CCEN) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ocorrido no dia 4 de dezembro de 2018. Daquele memorável dia na vida social de Baruty volta-se para o mês de março de 1982, quando o jovem José Antonio Novaes, que ainda não era Baruty, iniciou seus estudos universitários como discente do curso de Ciências Biológicas na Fundação Universidade Estadual de Londrina.

‘A obra de Baruty, na organização, nomeação e finalização dos capítulos, na escrita densa e simbolicamente africanizada, significa um ‘torna-se’ autor da sua própria história’ | Crédito: Acervo pessoal/Antonio Baruty

Por dentro do título contextualizado (1982-2018) do dia da defesa nota-se mais “datas icebergs” que também marcam a vida e a carreira docentes. Na sua narrativa, Baruty logo embaralha a cronologia, ainda que não a abandone, para dizer de sua realidade mesma, incrustada no seu fazer docente. Assim, como professor ativista, ele emancipou a biologia do laboratório, por adotar a pesquisa-ação dentro e fora da universidade e, também, se tornar consciente de sua identidade étnica forjada na resiliência e resistência frente ao racismo cotidiano da vida social brasileira.    

No dia 7 de julho de 1988, Antonio Novaes defendeu dissertação de mestrado que deu por título Matriz Extracelular de Mamas: caracterização de fibras de colágeno e quantificação de mastócitos, que lhe rendeu o diploma de mestre em Ciências Biológicas na área de Biologia Celular, emitido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), instituição em que já era docente em regime temporário.

Depois, havia um doutorado no meio do caminho. A difícil e quase impossível realização de um doutorado para pessoas negras no Brasil é apenas um dos muros epistemológicos do nosso atualizadíssimo racismo estrutural. Essa dimensão pode ser acompanhada num dos capítulos pela paráfrase poética de Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho tinha uma tese. Tinha uma tese no meio do caminho”. Assim, no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP,) no dia 4 de maio de 1999, o nosso mestre Baruty defendeu a tese Clonagem e Sequenciamento do Gene da Enzima L-glutamina: D-frutose-6-fosfato amidotransferase de Blastocadiella emersonii, o que para um mortal comum soa como um enigma de galáxias. Para o biólogo é ofício e ciência.

Professor, pesquisador e ativista de uma pedagogia antirracista, Baruty buscou em sua trajetória o caminho interdisciplinar. Ao se constituir como Antonio Baruty, ele passou a pesquisar, com energia de Rá, nomes, histórias e saberes médicos professados pelos viventes do Antigo Egito. Torna-se um buscador de obeliscos “nas quatro partes do mundo” tentando compreender legados das civilizações negro-africanas desbiologizando, assim, as noções de raça e civilização. No campo científico que abraçou e, por decurso de se posicionar como um homem negro, Baruty consubstanciou as práticas didático-pedagógicas e o ativismo social de tal modo que significou, para nós, seus amigos/as neabistas, estudantes, orientandos/as, enfim os e as caminhantes antirracistas, uma exemplaridade de protagonismo negro, um sujeito afro-atlântico.

Os leitores/as vão encontrar várias formas para se apropriar da escrita de Baruty no decorrer da leitura de uma obra muito bem documentada, seja em termos de produção científica, seja na forma do documentalista criterioso, com um acervo fotográfico pessoal e profissional rico na construção da escrita de si.  

Uma chave interpretativa que tentei operar foi ler a obra “barutyana” a partir de uma instigação necessária de autoria negra. A formulação está na obra coletiva organizada por Abdias Nascimento (1961) e que ainda ressoa nas nossas vidas diárias, tal o grau do racismo estrutural: Dramas para Negros e Prólogo para Brancos. O Teatro Experimental do Negro – Baruty fez teatro − colocou o drama negro-africano no palco da história brasileira. Na década anterior, o médico afro-caribenho Frantz Fanon interpelava os seus contemporâneos no mesmo sentido dialético e antirracista: não sejamos “prisioneiros da História”, cabe a cada um, na defesa de sua ancestralidade e comunidade, “introduzir a invenção na existência”.

A obra de Baruty, na organização, nomeação e finalização dos capítulos, na escrita densa e simbolicamente africanizada, significa um “torna-se” autor da sua própria história, como sugere Grada Quilomba, no seu Memórias da Plantação. Penso que achei a pista para responder a pergunta: por que Baruty escreve?  Em boa medida está lá no capítulo 17, Ubuntu, na penúltima página:

Estas duas novidades em meu existir: 1) a origem no continente africano e 2) o nome de meus antepassados Oitocentistas somente me alcançaram quando eu já havia completado 60 voltas ao redor de Rá, e por meio delas passei dar uma valorização muito especial àquelas pessoas negras que vieram antes de mim e que deixaram suas histórias de vida registradas na forma de tinta sobre papel, tornando-as públicas e acessíveis ao longo do tempo que as sucedeu de suas passagens para os Jardins de Obatalá.

Então, bora lá para a leitura da obra de Baruty?

Serviço de lançamento

Título: Metamorfoses e (Re)invenções de um Professor Ativista: educação antirracista e emancipatória no campo da Biologia.

Autor: José Antonio Novaes (Baruty)

Editora: Apris. Curitiba. 1.ª ed. 2025.

Páginas: 415 p. com imagens e ilustrações

Formato: 27cm x 21cm

Valor: R$ 150

Local: Casa da Magistratura (Esma)

Rua Abelardo da Silva Guimarães Barreto, s/n, bairro Altiplano, em João Pessoa

Dia: 3 de dezembro de 2025

Hora:  20h

*Elio Flores é professor titular aposentado da UFPB e professor associado do Neabi/CCHLA/UFPB.

**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Apoie a comunicação popular, contribua com a Redação Paula Oliveira Adissi do jornal Brasil de Fato PB
Dados Bancários
Banco do Brasil – Agência: 1619-5 / Conta: 61082-8
Nome: ASSOC DE COOP EDUC POP PB
Chave Pix – 40705206000131 (CNPJ)

Editado por: Carolina Ferreira

|

Newsletter