Por Izabela Bezerra da Silva*, José Edilson Fidelis Laurentino** e Thiago Brandão da Silva***
Chegamos ao mês de novembro, período em que ganham centralidade os debates, as aulas, as exposições, as apresentações culturais, as exibições de cinema e audiovisual dedicadas à história e à cultura da população negra – pessoas pretas e pardas. É um momento em que a representatividade negra é convocada a ocupar espaços de produção e difusão do conhecimento, como escolas, museus, teatros, quilombos, universidades, centros culturais e diversos ambientes formativos.
A celebração do dia que rememora a luta dos agrupamentos quilombolas, especialmente na região Nordeste, faz referência direta ao Quilombo dos Palmares e à figura de Zumbi, liderança cuja memória permanece como símbolo de resistência e de luta ancestral por melhores condições – humanas – de vida. Essa data não marca apenas a celebração de uma trajetória histórica, mas também busca evidenciar a atual situação sociorracial da população negra, além de demarcar a potência identitária e a multiplicidade de pertencimentos do povo negro. O Dia da Consciência Negra torna possível trazer à luz as existências, vozes e experiências da população negra brasileira.
Na Paraíba, mais de 60% da população se autodeclara negra (pretos e pardos). O estado conta com 49 comunidades quilombolas reconhecidos, reunindo cerca de 16,3 mil pessoas. Em 20 de novembro de 2025, o Quilombo Engenho Mundo Novo, localizado na zona rural de Areia, no Brejo paraibano, foi oficialmente reconhecido como território quilombola, o que implica processos de desapropriação e titulação das terras. Embora a microrregião do Brejo seja marcada por forte presença da população negra, ainda há lacunas de dados sociorraciais, mesmo após a aprovação, em 2021, do Plano Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Planepir).
A cidade de Areia tem um polo turístico arquitetônico, a exemplo do Casarão José Rufino, o que evidencia a opulência de uma terra cujos engenhos, porões e senzalas marcam a história social negra do brejo paraibano. Foi nesse espaço que, entre os dias 16 a 20 de novembro, foi realizada a 9º Semana da Consciência Negra de Areia, cujo tema para edição de 2025 foi “Memória viva: a força de contar nossa própria história”.
Com uma programação robusta realizada em quatro dias, o evento contou com a parcerias institucionais como Neabi/IFPB, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), prefeitura de Areia, além dos movimentos sociais como grupo de capoeira Caá Puêra Semente Crioula, Associação de Mulheres Negras de Areia (Aman), Casa do Mensageiro, povos de terreiros e Jurema Sagrada. O evento propiciou aos moradores da cidade e região uma imersão em diversas atividades vinculadas à prática afropedagógica de cunho antirracista.
Mantendo a tradição de anos anteriores, o evento iniciou com abertura no Quilombo Mundo Novo, na ocasião, a liderança Ana Paula, homenageou a matriarca D. Maria Passarim de 95 anos de idade. Após falas de memória e história do quilombo houve a roda sobre raça e gênero conduzida pela assistente social Viviane Lira, do Centro da Igualdade Racial João Balula, vinculado à Secretaria das Mulheres e da Diversidade Humana; em seguida, a apresentação do grupo de capoeira Caá Puêra Semente Crioula, liderada pelos contramestres Hioga e Pablo, além de grupos de dança: Negritude e Juventude (Mundo Novo) e do grupo de dança do quilombo Senhor do Bonfim.

No dia seguinte (17), no pátio do Casarão José Rufino, a roda de conversa “Corpos, caminhos e curas: narrativas de mulheres negras” dialogou com público da rede municipal de ensino. Composta pela educadora Giliane Vicente, do Movimento de Mulheres Negras de Areia, pela cineasta e produtora cultural Carolina Porto, pela assistente social Viviane Lira e mediada pela professora e uma das fundadoras do evento Maria Gracilene (IFPB/Areia), o momento foi significativo quanto à pauta de luta das mulheres negras.

Em seguida, foi aberta a exposição no Espaço da Arte, que contou com a participação de artistas visuais, com o reconhecido “mestre do barro” José Pituca e o artista plástico José Felipe. Na praça Pedro Américo, o empreendedorismo tomou conta com a Feira Encantaria formada por artesãs locais.
O cortejo que saiu da Igreja do Rosário em direção à praça central, simbolizou um ato de memória viva, uma vez que contou com a participação de quase todos os terreiros de matriz afroindígenas e da Jurema Sagrada da cidade. Na ocasião, a comissão organizadora homenageou cada sacerdote e sacerdotisa presente, com entrega de certificados. À noite, a praça foi tomada pelas luzes do audiovisual e cinema, o projeto Cineclube Sabores e Saberes, do IFPB, tornou o espaço cenário de exibições de curtas-metragens e debates. Logo após, o público da praça foi convidado para o lançamento do livro O Encantado, do escritor negro Rosivaldo de Sá, e para o embalo da música do artista local Fumaça.
No mesmo dia, no Centro de Formação/Educação de Areia, a abertura do evento contou com o projeto da UFPB Vozes da África, composto por estudantes moçambicanos que fazem parte de projeto de intercâmbio Brasil-África, na ocasião, José Ilton, do Sindicato da Agricultura Familiar, também conduziu o diálogo com o público da rede municipal de ensino sobre alimentação como identidade e resistência.
Na praça, o público aguardava ansioso pela degustação de acarajés, que foram distribuídos na aula-espetáculo do projeto Mesa de Saberes/IFPB, que contou com a interação do professor de gastronomia do Tadeu Rena (IFPB) e do Babalorixá Diego de Omolu, numa interconexão entre a perspectiva técnica e cultural cujo intuito foi informar, desmistificar mitos e desconstruir preconceitos sobre a comida ancestral de orixá para o público presente. À noite o cinema na praça mais uma vez se fez presente tomando atenção das dezenas de pessoas.
No dia seguinte, as cores da africanidades coloriram a frente do Casarão José Rufino. A oficina de turbantes e tranças, desenhos, linhas e cores potencializaram corpos e cabelos com a estética africana. A multiartista Ariana Costa e a trancista Janine Ventura emoldaram a verve cultural por meio do encantamento estético afro-brasileiro.
O 1º Encontro dos Povos de religiões de Matriz Afroindígenas e Terreiros de Areia movimentou a tarde da praça central. Tomada por corpos-templos com suas vestimentas, a praça passou a ser palco de um dia histórico para cidade, pois ao receber sacerdotes e sacerdotisas, filhos e filhas da Jurema Sagrada e Terreiros, deu passo fundamental no que concerne o respeito a diversidade religiosa. Na ocasião Mãe Renilda (João Pessoa) e Pai Wellington (Remígio) estiveram presentes para dialogar acerca da institucionalização de uma Coordenadoria da Diversidade, e do dia 19 de novembro como Dia dos Povos de Terreiros da cidade de Areia, além de receberem da comissão organizadora devidas homenagens.
Em seguida, o som dos tambores, a fumaça dos cachimbos, cantorias que reverencia os encantados da Jurema, ou seja, a Gira,prática cultural afroindígenas,0 propiciou ato simbólico na consolidação da luta por respeito e equidade de direito, transformou o espaço em território sagrado. O artista local Tiago de Assis fechou o dia com a notória performance, inspirada na história de um homem escravizado do século 19.

O encerramento da Semana da Consciência Negra de Areia, como ocorre há anos, foi no quilombo Senhor do Bonfim. Na mesa solene, estiveram presentes: o anfitrião e liderança do território quilombola, Geraldo Gomes, a prefeita da cidade de Areia Silvia Cunha, o mestre de capoeira Cabedelo, o secretário de Turismo Rinaldo Bandeira, Suzany Ludimila, da Rede CSA Parahyba, Francimar Rodrigues, da Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes da Paraíba (Aacade). Após reflexões sobre educação para relações etnicorraciais, política pública dos povos quilombolas e agricultura familiar, ocorreu lançamento de livro sobre a história do quilombo e da matriarca Dona Severina (D. Biu), finalizando com atrações culturais.

Na praça central de Areia, contando com a presença do mestre Cabedelo, contramestres, professores e monitores, ocorreu o 27º Batizado do grupo de capoeira Sementes Crioulas, com apresentação de maculelê e troca de graduações de capoeiristas.
A Semana da Consciência Negra difundiu conhecimento afropedagógico em ruas, praças e territórios quilombolas de Areia, unindo diferentes segmentos sociais na transmissão de memórias e práticas da negritude brejeira. Ao extrapolar os limites da escola e das instituições, o evento reafirma a potência do povo negro e fortalece o compromisso da Paraíba com justiça racial, visibilidade e dignidade humana.
Para saber mais
Perfil no Instragram do Movimento de Reflexão da Negritude em Areia.
9º Semana da Consciência Negra em Areia celebra memória e resistência.
Nilma Lino Gomes. O Movimento Negro Educador: saberes construídos na luta por emancipações. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
*Izabela Bezerra da Silva é graduada em química pela UFPB.
**José Edilson Fidelis Laurentino é graduado em química pela UFPB.
***Thiago Brandão da Silva é professor de história e doutorando (PPGH/UFPB).
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