História Pública & Narrativas Afro-Atlânticas

Coluna escrita por integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi-UFPB) e por colaboradores externos que lecionam e pesquisam sobre educação antirracista, relações raciais, classe e gênero.

E os afrodescendentes e indígenas no Museu de História da Paraíba?

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Museu de História da Paraíba, em João Pessoa | Crédito: Divulgação/Secom-PB

Que história(s) estamos 'escrevendo' enquanto memória paraibana/brasileira com essas ausências em um Museu de História da Paraíba?

Por Wanderson Alberto da Silva*

Um sentimento de empolgação percorreu dentro de mim ao saber da inauguração do Museu de História da Paraíba no final do ano de 2025. Imaginei uma série de passagens e personagens da nossa história que estariam representados em um equipamento público de fomento à cultura, à ciência e à arte. Mas, como eu não estava em João Pessoa no dia da inauguração (3 de outubro), acompanhei pelas mídias as notícias sobre o evento, que teve na sua abertura grupos carnavalescos, de chorinho e de rodas de samba locais.

Muito bom celebrar com música uma festa de implantação de um museu, que são espaços que “contribuem de forma mais específica para a consolidação de uma unidade construída entre passado e presente no imaginário coletivo […]”, conforme a museóloga Maria Célia Teixeira Moura Santos, no texto Museu e educação: conceitos e métodos.

Assim sendo, me perguntei: nesse imaginário coletivo paraibano, quais as “musas” poderiam ter inspirado a curadoria do mais novo museu local? Mesmo porque, museu e música me lembram as musas, pois: “Dentro da mitologia clássica, o termo ‘musas’ refere-se às nove entidades da primavera, filhas de Mnemósine (deusa da memória) e Zeus, a quem eram atribuídas a capacidade de inspirar nos homens a criação artística e científica […]. Os lugares que eram dedicados às nove musas eram chamados de ‘muoseion’, termo este que futuramente deu origem à palavra ‘museu’”, segundo a definição contida em O Museu Nacional: aspectos arquitetônicos em arquivos tridimensionais e realidade virtual.

Dessa maneira, imbuído de expectativas geradas a partir das conversas com colegas professores, alunos e ex-alunos, que rendiam elogios à beleza arquitetônica do antigo Palácio da Redenção, decidi ir visitá-lo em um domingo de fevereiro de 2026, pois os horários disponíveis à visitação durante a semana (grupos de até 50 pessoas, às 9h, 11h, 13h e 15h) não são compatíveis com a maioria dos trabalhadores da capital paraibana.

Sua localização ainda me deixa algumas dúvidas quanto à nomenclatura oficial e a usualmente adotada. Praça João Pessoa ou Praça dos Três Poderes? O nome de um político ou o nome do espaço geográfico que aloca(va) os poderes Legislativo (Assembleia Legislativa), Judiciário (Tribunal de Justiça) e Executivo (antigo Palácio do Governo). Mas, historicamente, esse mesmo Centro da cidade de João Pessoa foi um local de confronto entre indígenas (potiguaras e tabajaras) e ibéricos (portugueses e espanhóis), pela posse e defesa da terra.

De pé na praça, observando aquela urbanização, recorri a minha memória àquelas prazerosas aulas de História da Paraíba. Deparei-me com um passado “enterrado” naquele local de fúria do ímpeto mercantilista e absolutista de mais de uma década de incursões colonialistas europeias para a conquista do território. Olhando adiante, verifiquei pessoas perfiladas na escadaria do museu, sendo alguns poucos afrodescendentes, juntos a outras tantas etnias, se inscrevendo para o próximo grupo de visita. Não sei se esses visitantes sabem da importância de um museu histórico, mas, pelo menos, devem saber que o ser humano negro foi arrastado de sua África, roubado de sua vida, separado de sua família, de seus amigos, de sua natureza, forçado a abandonar sua cultura. Talvez não pensem na resistência e no genocídio indígena que manchou aquele chão, ou que foi o seu trabalho forçado, assim como dos africanos, que edificaram aquele monumento arquitetônico. Será que os visitantes percebem que esse espaço também foi um ambiente de escravização?

O prédio do museu, que pertencia ao Conjunto Jesuíta, teve sua construção iniciada em 1586, era composto de convento, colégio e capela/igreja. Com a expulsão dos jesuítas, no século XVIII, foi confiscado pela coroa e tornou-se moradia dos governadores. A partir da visita do Imperador D. Pedro II, já em meados do século XIX, encontramos o título de Palácio da Redenção e, na década de 1920, a igreja foi demolida.

Conjunto Jesuíta. Desenho/aquarela de Nivalson Miranda, do livro ‘Paraíba: memória cultural’, de Chico Pereira, 2013 | Crédito: Nivalson Miranda

A restauração do prédio, que funcionava o antigo palácio do governo, teve suas obras iniciadas em 2021, sendo inaugurado como Museu de História da Paraíba em 2025. Ao observá-lo de fora é perceptível o belíssimo trabalho na exuberante fachada ao estilo neoclássico europeu, a exemplo dos palácios portugueses e franceses, colonizadores. Uma arquitetura que exalta a grandiosidade dos dominadores, como um símbolo do poder local, que por si só se apresenta em narrativa histórica positivista. Isto é, uma entrada que vai conduzir, com poucas exceções, à linha majoritária do conteúdo da exposição de seu interior.

Ao passar pelo hall de entrada, seguindo o percurso orientado pela curadoria, o primeiro ambiente chamado de “Arte em Conexão” apresenta em totens (monitores digitais) personagens considerados de destaque da cultura e da política paraibana, como Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos, Celso Furtado, Paulo Pontes, entre outros. Revisei meu olhar para essa sala e encontrei pouquíssimos afrodescendentes, mas o que me chocou foi não encontrar os indígenas como “destaque da Paraíba”. Sei que existem, pois muitos trabalhos acadêmicos já desapagaram essas pessoas. Por que elas não estão ali?

Mais adiante, uma sala como uma parede repleta de fotos de igrejas dos munícipios marca a presença da dominação católica. Porém, nenhuma referência às religiões de matriz africana, muito menos indígenas. Que tal salas dedicadas à memória de uma diversidade religiosa de maneira geral?

Mas, em outro ambiente em destaque, apresenta-se a tradicional história positivista, ou seja, da perspectiva linear dos governantes, com as pinturas daqueles que a história dos dominadores nos impõe como “os ilustres do poder”. Seguindo esse modelo positivista de exibição dos “fatos” e dos “heróis”, outra sala foi montada com os “marcos” desde 1500 até os dias atuais. Como assim? Não existiu história antes disso?

Um dos espaços internos do Museu de História da Paraíba | Crédito: Divulgação/Secom-PB

Diante do exposto, corroboro com a professora Maria Célia T. Moura Santos, especialista em museologia, ao afirmar que “as ações museológicas deverão ter como foco a nossa identidade como sujeitos singulares e múltiplos cidadãos”, os museus devem estar abertos às “leituras múltiplas do mundo, de tal forma que o conhecimento faça parte de nossas vidas, de nossa cultura, de nossa identidade”.

Como vivemos em uma democracia representativa, sinto dizer que apesar de toda iniciativa valorosa do governo em criar um equipamento público de visitação à memória social de um povo, eu, como cidadão negro e professor deste estado, não me sinto representado.

Acredito que a solução não se resume superficialmente a uma troca de uma “História vista de cima” por uma “História vista de baixo”, até porque esses conceitos, sejam eloquentes ou inadequados, merecem ser dissecados com mais precisão com sua devida fundamentação teórica. Mas seu repensar, pode, sim, estimular o leitor a novos olhares, pois, “a narrativa é a forma específica adotada pela história escrita para se opor à permanência da visão”, conforme afirmou Edward Said, no seu livro clássico Orientalismo [1978].

Que história(s) estamos “escrevendo” enquanto memória paraibana/brasileira com essas ausências em um Museu de História da Paraíba?

Para saber mais

AZEVEDO, Sergio; CARDOSO, Gabriel; CARDOSO, Lilian; Grillo, Orlando. O Museu Nacional: aspectos arquitetônicos em arquivos tridimensionais e realidade virtual. In AZEVEDO, Sergio; LOPES, Jorge; VELHO, Luiz; WERNER, Heron (Orgs.). Realidade Expandida: novas mídias e IA. Tradução Jorge Lopes. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Mourthé, 2025.

SANTOS, Maria Célia T. Moura. Museu e Educação: conceitos e métodos. São Paulo, 20, agosto, 2001. Aula inaugural proferida no Curso de Especialização em Museologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da universidade de São Paulo (USP).

SILVA JÚNIOR, Francisco Pereira. Paraíba: memória cultural. João Pessoa: Editora Grafset, 2013.

*Wanderson Alberto da Silva é professor da rede pública (SEE/PB) e doutorando em História no PPGH/UFPB; coordenador do ANKH – Grupo de Pesquisa e Ensino do Antigo Egito (UFPB/CNPq); pesquisador do Grupo de Pesquisa Sociedade e Cultura no Nordeste Oitocentista (UFPB/CNPq); pesquisador do grupo de estudos História, memória e educação na Paraíba – RASTROS-PB (UEPB/CNPq).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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