História Pública & Narrativas Afro-Atlânticas

Coluna escrita por integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi-UFPB) e por colaboradores externos que lecionam e pesquisam sobre educação antirracista, relações raciais, classe e gênero.

Quando sua vida é entregue à luta: Raoni Metuktire, um exemplo de persistência

No audio source provided.
ilustrar artigo
Cacique Raoni Metuktire | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Cacique Raoni continua recebendo apoio de seu povo e das pessoas que fizeram parte de sua trajetória de luta

Por Misrael Raamá* e Ana Daxenberger**

Nascido em um ano desconhecido por volta do início da década de 1930, acredita-se que em 1932, em uma pequena vila chamada Krajmopyjakare, também conhecida como Kapôt, o cacique Raoni Metuktire é um dos líderes do povo Mẽbêngôkre que se situam em regiões do Pará e Mato Grosso, onde reside a Mata Amazônica. Durante a infância, Raoni viveu de forma nômade, devido ao modo de vida e sustento do seu povo e já cultivava a vontade de lutar por suas terras.

O icônico adorno que usa em sua boca é tradicional de seu povo, e é utilizado pelos guerreiros que estão dispostos a morrer pela sua terra, o processo para colocar foi iniciado aos seus 15 anos pelo seu irmão Motibau.

Raoni sempre acreditou no modo de vida alinhado à natureza, e nunca abandonou sua luta; seu primeiro contato com o homem branco aconteceu no ano de 1954, ano em que foi introduzido à língua portuguesa. Poucos anos depois, já teve seu primeiro encontro com um líder nacional, o presidente brasileiro Juscelino Kubitscheck. Nesse encontro, Raoni questionou o projeto de iniciação ao turismo para a Ilha do Bananal, localizada no Tocantins, tal projeto impactaria o local com transformações sérias e, assim, se iniciou o pedido de demarcação das terras indígenas.

No ano de 1973, Raoni se encontrou com um cineasta belga chamado Jean-Pierre Dutilleux, que posteriormente foi o escritor do documentário Raoni. A obra teve uma indicação ao Oscar, como o Melhor Documentário de 1978. A produção aborda sua luta pelo parque Xingu e os problemas com caçadores, madeireiros e grileiros.

Com o sucesso do documentário, Raoni Metuktire conseguiu expor suas ideias ao mundo, e isso atraiu para ele pessoas que tiveram um papel fundamental em sua luta, como o cantor britânico Sting, que levou Raoni para uma turnê mundial que passou por 17 países. Durante a turnê, Raoni denunciou problemas de desmatamento e roubo de terras indígenas, e o impacto foi grandioso, conseguindo o fundo para criação de 12 unidades de fundações Rainforest, fundações que têm como objetivo a proteção de áreas de floresta tropical e também de direitos dos povos indígenas.

Durante os anos 2000, o cacique continuou suas viagens ao redor do mundo. Em 2011, ele foi declarado cidadão honorário de Paris pelo presidente da época, no mesmo ano, ele se posicionou contra o projeto da Usina Hidrelétrica Belo Monte, devido ao desvio da água do rio Xingu. Raoni era firme em seus posicionamentos, oferecendo sua vida para a usina não ser construída, pois como ele previa, a usina hidrelétrica remanejou populações indígenas para outras áreas e trouxe impactos ambientais.

Devido a sua tamanha influência, o cacique Raoni foi indicado oficialmente ao Prêmio Nobel da Paz, sua indicação ocorreu em 2019, por meio da Fundação Darcy Ribeiro. Mesmo não ganhando o prêmio, essa indicação confirma o impacto mundial de suas ações.

Raoni em 2023 subiu junto com o presidente Lula em sua posse da presidência do Brasil, sendo o escolhido pelo presidente como o representante dos povos indígenas no evento que simboliza mudança.

Subida do presidente Lula com representantes da sociedade brasileira, em 2023 | Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

As premiações para o cacique continuam ocorrendo. Em 2023, ele recebeu a honraria mais alta da diplomacia no Brasil, a de Grão-Mestre da Ordem Nacional do Mérito diretamente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Posteriormente em 2024, recebeu a honraria de cavaleiro da Legião de Honra da França das mãos do presidente Emmanuel Macron e, no mesmo evento, pediu para o presidente Lula que não ocorresse a construção da ferrovia “ferrogrão – EF – 170” que cortaria 933 km de extensão. Em seu discurso, falado em Mẽbêngôkre, à época, ele mencionou que sempre foi contra o desmatamento e citou o apoio à candidatura do presidente, exigindo também a demarcação das terras indígenas. Em 2025, esteve na COP30 protestando em prol da união pela Amazônia e criticando fortemente a indústria petrolífera.

Em 2026, no mês de maio, o cacique Raoni Metuktire foi submetido à internação e procedimento cirúrgico. Complicações do quadro clínico o fizeram permanecer no hospital por mais de um mês. No mês de julho, o cacique Raoni se recuperou e recebeu alta hospitalar e, aos 93 anos, continua recebendo apoio de seu povo e das pessoas que fizeram parte de sua trajetória de luta.

Para saber mais

MẼTYKTIRE, Raoni e NUNES, Alceu Chiesorin, Raoni: memórias do Cacique. São Paulo: Companhia da Letras, 2025.

RAONI. Biografia.

INSTITUTO RAONI. História sobre o cacique e as ações do Instituto.

*Misrael Raamá é licenciando em ciências biológicas e membro do Prolicen Formação docente na perspectiva da educação das relações étnico-raciais: contribuindo para as discussões dos aspectos exigidos pelas leis 10.639/2003 E 11.645/2008.

**Ana Daxenberger é professora do DCFS/CCA/UFPB. Membra do Neabi/UFPB e professora do PPGL. Coordenadora do Prolicen/2026.

***A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

|

Newsletter