Humberto Costa é médico, jornalista e Senador da República desde 2011 (2 mandatos). Ex-ministro da Saúde do governo Lula, atual secretário de relações internacionais do PT e vice-presidente do Parlasul.

Médico, jornalista e Senador da República desde 2011 (2 mandatos). Ex-ministro da Saúde do governo Lula, atual secretário de relações internacionais do PT e vice-presidente do Parlasul.

A violência contra as mulheres exige resposta urgente da sociedade

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Misoginia é a conduta que manifesta ódio ou aversão às mulheres | Crédito: Elineudo Meira @fotografia.75
Misoginia é a conduta que manifesta ódio ou aversão às mulheres | Crédito: Elineudo Meira/@fotografia.75

Os dados evidenciam que a violência de gênero não é um fenômeno isolado, mas um problema estrutural ligado às desigualdades históricas entre homens e mulheres

A violência contra as mulheres não é uma realidade distante e nem um problema restrito a casos isolados. Ela acontece todos os dias, em milhares de casas, ruas e espaços de convivência por todo o país. Por trás de cada estatística há uma mulher real, com história, família, sonhos e direitos.

O Brasil precisa encarar essa realidade com a seriedade que o problema exige e compreender que combater a violência de gênero não é apenas uma pauta específica, mas um compromisso coletivo com a dignidade, a justiça e a própria democracia.

Essa gravidade também aparece de forma contundente nos números. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 14 mulheres são agredidas a cada minuto no país. Brasileiras que carregam no corpo e na memória as marcas de agressões que ainda persistem em nossa sociedade.

Quando incluímos outras formas de violência, como a psicológica e a sexual, o cenário se torna ainda mais alarmante. Em 2022, 18,6 milhões de mulheres foram vítimas de algum tipo de violência, o que corresponde a quase 30% da população feminina brasileira. Esses dados evidenciam que a violência de gênero não é um fenômeno isolado, mas um problema estrutural profundamente ligado às desigualdades históricas entre homens e mulheres.

O avanço dos feminicídios

Os casos mais extremos dessa violência aparecem nos dados de feminicídio. Informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que o país registrou recordes em 2024 e 2025, com 1.458 e 1.518 mulheres assassinadas, respectivamente. Cada um desses números representa uma vida interrompida, uma família devastada e uma sociedade que falhou em proteger suas cidadãs.

No sistema de justiça, os registros também apontam para uma escalada preocupante. O Conselho Nacional de Justiça registrou 947 novos processos de feminicídio apenas em janeiro de 2026, número superior ao do mesmo período do ano anterior. Em apenas cinco anos, o volume de processos quase triplicou.

Além da violência física, há um impacto silencioso que atravessa o cotidiano feminino: o medo. Pesquisa do Instituto Patrícia Galvão, em parceria com o Instituto Locomotiva, mostra que 82% das mulheres brasileiras têm muito medo de serem vítimas de estupro. Em 2020, esse índice era de 78%, indicando que a sensação de insegurança também cresce.

Outro dado igualmente preocupante revela que 88% das mulheres já sofreram violência psicológica, muitas vezes dentro de casa e, frequentemente, na presença de crianças. Esse cenário contribui para perpetuar ciclos de violência que atravessam gerações.

Cultura de ódio e violência digital

Nos últimos anos, a violência de gênero também ganhou novas dimensões no ambiente digital. O crescimento de comunidades misóginas na internet, como os chamados grupos red pill, tem contribuído para disseminar discursos de ódio, inferiorização e desumanização das mulheres.

Esses espaços reforçam estereótipos machistas e, em alguns casos, incentivam comportamentos agressivos. A violência contra a mulher não começa no ato físico. Ela começa na palavra, na desinformação e na cultura que naturaliza a desigualdade.

Enfrentar essa realidade exige não apenas punição aos crimes, mas também políticas de prevenção, educação para a igualdade de gênero e responsabilização daqueles que promovem ou disseminam discursos de violência.

O papel das políticas públicas

Diante desse cenário, o enfrentamento à violência exige políticas públicas consistentes e ações coordenadas entre diferentes instituições. Recentemente, os três Poderes da República assinaram o Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, iniciativa que busca fortalecer a articulação nacional no combate aos crimes contra as mulheres.

Além disso, uma força-tarefa do governo federal resultou na prisão de mais de cinco mil suspeitos de crimes relacionados à violência contra meninas, adolescentes e mulheres em operações realizadas em parceria com forças de segurança estaduais e federais. Essas ações demonstram que o enfrentamento da violência precisa ser permanente e estruturado, combinando prevenção, proteção às vítimas e responsabilização dos agressores.

Mas esse esforço não pode ser responsabilidade apenas do Estado. Trata-se também de um desafio cultural que exige o engajamento de toda a sociedade.

Trabalho, desigualdade e sobrecarga feminina

A luta pelos direitos das mulheres também passa pelas desigualdades no mundo do trabalho e na divisão das tarefas domésticas. Dados do IBGE mostram que as mulheres dedicam 9,6 horas semanais a mais que os homens às atividades domésticas e ao cuidado com outras pessoas.

Ao longo de um ano, isso representa mais de 500 horas adicionais de trabalho não remunerado: uma contribuição essencial para o funcionamento da sociedade, mas que permanece invisível e frequentemente desvalorizada.

Nesse contexto, o debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 torna-se ainda mais relevante. Jornadas exaustivas, somadas à sobrecarga doméstica, reduzem drasticamente o tempo de descanso e ampliam desigualdades históricas que afetam principalmente as mulheres trabalhadoras.

Defender melhores condições de trabalho é também defender mais dignidade, mais qualidade de vida e mais justiça social.

Igualdade salarial também é proteção

Outro desafio persistente é a desigualdade salarial. Mesmo quando estudam mais e trabalham tanto quanto os homens, as mulheres brasileiras recebem, em média, cerca de 20% a menos.

Essa diferença não representa só uma injustiça econômica. Ela também limita a autonomia feminina e pode dificultar que muitas mulheres rompam ciclos de violência. A independência financeira, nesse sentido, também é uma forma de proteção.

Quando observamos a realidade das mulheres negras, a desigualdade se torna ainda mais profunda, evidenciando a necessidade de enfrentar simultaneamente as desigualdades de gênero, raça e de oportunidades.

Uma luta que precisa ser coletiva

Combater a violência contra as mulheres não é apenas uma pauta feminina. É um compromisso que precisa envolver toda a sociedade, especialmente os homens, que devem assumir o papel de aliados na construção de relações mais justas e respeitosas.

Garantir segurança, igualdade e dignidade para as mulheres é uma condição fundamental para o fortalecimento da democracia e para a construção de um país verdadeiramente justo.

Enquanto as mulheres continuarem a ser agredidas, violentadas e humilhadas em nosso país, o silêncio jamais poderá ser uma opção.

A luta por respeito, igualdade e liberdade continua e ela precisa ser de todos nós. Todos por todas!

Editado por: Vinicius Sobreira

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