Humberto Costa é médico, jornalista e Senador da República desde 2011 (2 mandatos). Ex-ministro da Saúde do governo Lula, atual secretário de relações internacionais do PT e vice-presidente do Parlasul.

Médico, jornalista e Senador da República desde 2011 (2 mandatos). Ex-ministro da Saúde do governo Lula, atual secretário de relações internacionais do PT e vice-presidente do Parlasul.

Fim da escala 6×1: uma mudança necessária e urgente

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Trabalhadores do comércio estão entre os que mais sofrem com baixos salários e elevada jornada na escala 6x1
Trabalhadores do comércio estão entre os que mais sofrem com baixos salários e elevada jornada na escala 6×1 | Crédito: Marlon Diego / Prefeitura do Recife

Empresas que já adotam modelos mais flexíveis colhem resultados positivos. É reconhecer que descanso não é privilégio, mas condição básica para o desempenho

Há momentos na história em que um país precisa fazer escolhas que vão além da disputa política tradicional. Escolhas que dizem respeito ao tipo de sociedade que queremos construir, ao modelo de desenvolvimento que defendemos e, sobretudo, à forma como tratamos a classe trabalhadora, que é de fato quem faz mover a economia todos os dias. O debate sobre o fim da escala 6×1 é exatamente um desses momentos.

Vivemos, hoje, um período singular na história recente do Brasil. A atual gestão do presidente Lula tem demonstrado, com resultados concretos, uma capacidade de reconstrução e avanço que merece ser reconhecida. Em pouco mais de três anos, o país conseguiu recuperar políticas públicas essenciais, retomar programas sociais que haviam sido desestruturados e recolocar o Estado brasileiro no seu papel fundamental de promotor de inclusão, desenvolvimento e dignidade.

Na saúde, houve o fortalecimento de iniciativas como o Farmácia Popular, o Brasil Sorridente e o Mais Médicos, além da reestruturação do Samu e da criação do programa Agora Tem Especialista, que enfrenta um dos maiores gargalos do SUS. Na educação, programas como o Pé-de-Meia ampliam oportunidades, enquanto universidades e institutos federais seguem sendo fortalecidos. Na habitação, o Minha Casa, Minha Vida voltou a garantir acesso à moradia para milhões de brasileiros.

Do ponto de vista econômico, medidas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a redução gradual do imposto para quem recebe até R$ 7.350, representam mais que um ajuste fiscal. São ações que colocam dinheiro no bolso da população, aliviam o orçamento familiar e promovem justiça tributária. Além disso, sob Lula o Brasil tem alcançado os menores índices de desemprego e o maior número de pessoas empregadas com carteira assinada já registrados na nossa história.

Mas, apesar dos avanços, ainda há desafios urgentes. Entre eles, um se impõe firmemente: a necessidade de modernizar as relações de trabalho no Brasil. O fim da escala 6×1, sem redução salarial, precisa se tornar definitivamente uma realidade na vida dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil.

A escala 6×1 não é apenas um modelo de organização do trabalho. Ela se tornou, na prática, um sistema de desgaste contínuo para milhões de brasileiros. É a rotina de quem acorda antes do sol nascer, enfrenta transporte precário, cumpre longas jornadas sob pressão e retorna para casa já exausto. Quando chega o único dia de descanso, ele não é suficiente para recuperar o corpo e a mente. Esse tempo, muitas vezes, é consumido por obrigações acumuladas, deixando pouco ou nenhum espaço para o lazer, o convívio familiar ou o autocuidado.

Estamos falando, portanto, de um tema que envolve saúde física, saúde mental, produtividade e qualidade de vida.

E há também um aspecto econômico que não pode ser ignorado. A manutenção de jornadas exaustivas gera impactos diretos na produtividade. Trabalhadores cansados erram mais, adoecem mais e se afastam com maior frequência. Isso aumenta custos para empresas, eleva a rotatividade e compromete a eficiência dos processos produtivos. Ou seja, insistir em um modelo ultrapassado não é apenas injusto. É também economicamente ineficiente.

Diversos países já compreenderam isso. Experiências internacionais mostram que a reorganização das jornadas de trabalho, com mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional, contribui para aumentar a produtividade, melhorar o ambiente corporativo e fortalecer a competitividade das empresas. O mundo está avançando nessa direção. O Brasil não pode ficar para trás.

É importante destacar que essa mudança não representa um enfrentamento entre trabalhadores e empresários. Ao contrário: trata-se de uma oportunidade de convergência. Empresas que já adotam modelos mais flexíveis e equilibrados colhem resultados positivos. Conseguem atrair talentos, reduzir a rotatividade e aumentar o engajamento de suas equipes. O ganho é coletivo.

Defender o fim da escala 6×1 não é ser contra o setor produtivo. É, na verdade, compreender que o desenvolvimento sustentável depende de relações de trabalho mais inteligentes, mais humanas e mais eficientes.

Ainda assim, setores mais conservadores e reacionários insistem em resistir a esse debate. Não surpreende que grupos alinhados a uma visão ultrapassada das relações de trabalho tentem manter um modelo que traz prejuízos e fragiliza justamente aqueles que mais precisam de proteção.

Um proeminente representante desse segmento, inclusive, destacou enfaticamente que “vai dar a vida para barrar o fim da escala 6×1”. Trata-se de uma postura lamentável – mas não surpreendente -, uma postura que ignora tanto a realidade social quanto as evidências econômicas.

O Brasil precisa ter coragem de avançar. Modernizar a jornada de trabalho é uma decisão estratégica. É reconhecer que descanso não é privilégio, mas condição básica para o desempenho. É entender que produtividade não se mede apenas pelo tempo de presença, mas pela qualidade do trabalho realizado.

Mais que isso, é uma oportunidade histórica de alinhar crescimento econômico com justiça social. Durante muito tempo, tentou-se impor a ideia de que essas duas dimensões seriam incompatíveis. Os fatos mostram o contrário. Países que investem em qualidade de vida e valorização do trabalhador tendem a construir economias mais fortes e sociedades mais equilibradas.

O ano de 2026 se apresenta como um marco importante nesse processo. Não apenas pelo contexto político, mas pela possibilidade real de avançar em pautas estruturantes. O fim da escala 6×1 deve ser encarado como uma dessas prioridades.

Essa é uma agenda que interessa a todos. Aos trabalhadores, que terão mais qualidade de vida. Aos empregadores, que ganharão em eficiência e estabilidade. E ao país, que poderá dar um passo decisivo rumo a um modelo de desenvolvimento mais moderno e sustentável.

Como costuma afirmar o presidente Lula, o desenvolvimento de verdade só acontece quando as pessoas estão no centro das decisões. O fim da escala 6×1 não é apenas uma mudança na organização do trabalho. É uma afirmação de que o Brasil escolhe avançar. De que escolhe cuidar melhor de quem constrói, verdadeiramente, todos os dias, a própria história do país.

Editado por: Vinicius Sobreira

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