Em dezembro de 2025, uma situação curiosa teve lugar no mundo dos semicondutores. O governo dos Estados Unidos anunciou que, sob certas condições, permitiria à Nvidia vender seus chips de IA avançados (H200) para a China. Ao mesmo tempo, o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China emitiu uma diretiva própria: qualquer empresa nacional que deseje adquirir esses chips dos EUA deve primeiro solicitar uma licença e explicar por que as alternativas produzidas internamente não atendem às suas necessidades.
Por que o país ao qual está sendo oferecida tecnologia de ponta estabeleceria barreiras para acessá-la? Esta situação aparentemente contraditória revela uma história mais interessante, na qual as sanções dos EUA produziram precisamente o oposto do efeito pretendido.
Um tiro que saiu pela culatra
Quando os Estados Unidos colocaram a Huawei em sua “Lista de Entidades” em 2019, o impacto, para o senso comum, era evidente: isolada da tecnologia estadunidense, a gigante chinesa das telecomunicações definharia. Seu negócio de smartphones iria colapsar. Suas ambições de 5G seriam paralisadas. A empresa, muitos previram, cairia na irrelevância em poucos anos.
Seis anos depois, os resultados indicam outra história. A participação da Huawei no mercado global de equipamentos de telecomunicações cresceu de 29%, em 2018, para 31-34%, em 2024. No mercado de smartphones da China, onde se esperava que a empresa desaparecesse totalmente, a Huawei e sua subsidiária Honor se recuperaram de uma participação de mercado combinada de 5%, em 2021, para uma média de 29%, entre 2022 e 2024. Seus chips de IA da série Ascend detêm agora aproximadamente 40% do mercado doméstico de chips de IA da China, tornando a Huawei a maior fornecedora de chips de IA do país. Longe de entrar em colapso, a empresa emergiu como o carro-chefe da busca da China por autossuficiência tecnológica.
A transformação exigiu um esforço extraordinário. De acordo com informes do setor, a Huawei substituiu mais de 13 mil componentes em seus produtos e redesenhou mais de 4 mil placas de circuito para eliminar a dependência de fornecedores estadunidenses. Entre 2019 e 2024, a empresa adicionou mais de 17 mil profissionais de pesquisa e desenvolvimento (P&D) à sua força de trabalho. Seu sistema operacional próprio, o HarmonyOS, agora roda em mais de um bilhão de dispositivos. Os gastos da empresa com P&D atingiram 20% da receita, intensidade que poucas empresas globais de tecnologia conseguem alcançar. De 2013 a 2020, a taxa de crescimento de P&D da Huawei foi três vezes maior que a de seus concorrentes, um ritmo que as sanções apenas aceleraram.
Enquanto isso, as empresas estadunidenses pagaram um preço alto pelas sanções que outrora defenderam. A Information Technology and Innovation Foundation estima que as empresas de tecnologia dos EUA perderam pelo menos 33 bilhões de dólares em vendas para a Huawei entre 2021 e 2024. A Nvidia, sozinha, estima perder entre 15 e 16 bilhões de dólares em 2025 devido às restrições em suas exportações do chip H20. Qualcomm, Micron, AMD — a lista de empresas dos EUA que sofrem com a perda de negócios na China continua a crescer.
A avaliação da fundação foi direta: “Sancionar a Huawei e tentar imobilizar a empresa provou ser arrogante e autodestrutivo”, pois as restrições aceleraram, em vez de impedir, a independência tecnológica chinesa.
A vantagem da aplicação: onde os chips encontram a realidade
As sanções por si só não explicam o impulso da indústria chinesa de chips. Elas podem ter sido o catalisador, mas o combustível veio da abundância de aplicações do mundo real sedentas por poder de processamento de IA.
Considere o setor automotivo. A Horizon Robotics, uma empresa chinesa fundada em 2015, tornou-se uma força dominante em sistemas avançados de assistência ao condutor (ADAS). Sua série de chips Journey 6 abrange um poder de computação de 10 TOPS a 560 TOPS, cobrindo tudo, desde a manutenção básica do veículo dentro da faixa até recursos sofisticados de direção autônoma. A empresa detém mais de 40% do mercado de chips ADAS da China e entregou 2,9 milhões de unidades apenas em 2024. BYD, SAIC, Chery e até a Volkswagen integraram os chips da Horizon em seus veículos. A projeção de analistas do setor para 2025 é de que 75% a 80% dos automóveis chineses irão apresentar capacidades de direção autônoma de Nível 2 ou Nível 3, criando uma demanda massiva por chips de IA produzidos internamente.
O ecossistema de aplicações vai muito além dos carros. A China opera agora mais de 200 milhões de robôs industriais — a maior base instalada do mundo — com quase 60% das novas instalações em 2024 provenientes de fabricantes nacionais. O governo comprometeu 138 bilhões de dólares em um fundo de capital de risco nacional para robótica, IA e tecnologias de fronteira. Mais de 600 projetos de centros de computação inteligente foram lançados em todo o país, com o poder total de computação de IA atingindo 788 EFLOPS. Esses centros utilizam chips de múltiplos fornecedores domésticos — entre eles o Ascend da Huawei, a série MLU da Cambricon e os aceleradores DCU da Hygon. Pequim estabeleceu uma meta ambiciosa: até 2027, os centros de computação inteligente da capital deverão atingir 100% de autossuficiência tecnológica doméstica.
Essa amplitude de aplicações marca uma diferença estrutural em relação ao cenário de IA dos EUA. Enquanto o desenvolvimento de IA nos EUA se concentra pesadamente em grandes modelos de linguagem (LLMs) e treinamento baseado em nuvem, os chips de IA chineses encontram aplicação em fábricas, veículos elétricos, automação agrícola e redes logísticas. Cada implementação gera feedback de desempenho que impulsiona a próxima geração de melhorias nos chips, um ciclo virtuoso que a pesquisa puramente laboratorial não consegue replicar.
O custo e o valor: uma avaliação pragmática
Uma avaliação honesta requer reconhecer o que essa independência tecnológica custou. As lacunas entre os chips chineses e dos EUA permanecem reais e significativas.
O Ascend 910C da Huawei atinge aproximadamente 60% do desempenho de inferência do H100 da Nvidia. Produzir chips de capacidade equivalente na China custa de duas a três vezes mais do que custaria na TSMC ou na Samsung. O sistema CloudMatrix 384 da Huawei, que agrupa 384 chips Ascend para fornecer 300 petaflops de poder computacional, consome 4,1 vezes mais eletricidade do que o sistema GB200 NVL72 da Nvidia. O gap tecnológico situa-se em aproximadamente dois a três anos — um déficit substancial em uma indústria onde cada geração representa um salto gigantesco.
Mas esse déficit alcançou algo que as métricas de eficiência pura não conseguem capturar: soberania tecnológica. O ecossistema de software CANN da Huawei — a ponte entre as estruturas de treinamento de IA e os chips Ascend — atraiu 3,3 milhões de desenvolvedores e 2,5 mil parceiros industriais. Essas colaborações produziram mais de 5,8 mil soluções comerciais implementadas em finanças, energia, governo e telecomunicações. Em agosto de 2025, a Huawei anunciou que tornaria o CANN totalmente de código aberto sob a Licença de Software Permissiva Mulan, escolhendo uma abordagem fundamentalmente diferente do ecossistema proprietário Cuda da Nvidia, que dominou o desenvolvimento de IA por quase duas décadas. Em dezembro, componentes de software essenciais, incluindo bibliotecas de aceleração de domínio e o mecanismo de grafos, seguiram o mesmo caminho.
A trajetória de adoção de chips domésticos conta sua própria história. Em 2023, a taxa de localização de chips de IA na China era de 17%. Analistas projetam que alcançará 46% em 2025 e 55% até 2027. Esse crescimento pareceria inconcebível há uma década.
Talvez o mais revelador seja como as empresas chinesas de IA aprenderam a maximizar o desempenho dentro das restrições. Em 1º de dezembro de 2025, a DeepSeek lançou o V3.2, o primeiro modelo de código aberto a igualar as capacidades do GPT-5, alcançando desempenho de medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática (IMO) e na Olimpíada Internacional de Informática. O que torna essa conquista notável não são apenas os resultados, mas como foram obtidos. O novo mecanismo de “Atenção Esparsa” (Sparse Attention) da DeepSeek reduz os custos de inferência entre 50% e 75%, mantendo a qualidade. Em poucos dias, o ecossistema estava preparado, com guias de integração para hardware doméstico publicados rapidamente. Quando Sam Altman, da OpenAI, alertou que “se não fizermos código aberto, o mundo será construído principalmente sobre modelos chineses de código aberto”, o DeepSeek V3.2 já começava a provar que ele estava certo.
Um paradoxo resolvido
A exigência de licenciamento do H200 com a qual iniciamos esse artigo agora faz todo o sentido. As restrições da China para a compra de chips dos EUA não são um sinal de fraqueza, mas de confiança. Apontam que as alternativas domésticas amadureceram o suficiente para justificar proteção e promoção.
Isso não minimiza os desafios restantes. Os chips chineses ainda ficam atrás em desempenho bruto. Os custos do desenvolvimento autóctone pesam sobre empresas e contribuintes. Mas para observadores do Sul Global, a experiência da China oferece uma lição diferente: as restrições tecnológicas ocidentais não são barreiras intransponíveis. A soberania tecnológica exige investimento, paciência e tolerância à ineficiência, mas pode ser o único caminho para evitar a dependência permanente de decisões políticas estrangeiras.
A China já está se tornando um fornecedor alternativo de infraestrutura de IA para países em desenvolvimento. Na iniciativa “Cinturão e Rota”, empresas chinesas construíram mais de 1,9 milhão de estações base 5G. O Plano de Ação Global de Governança de IA de 2025 da China enfatiza explicitamente o apoio à infraestrutura de IA dos países em desenvolvimento, um marco que posiciona a tecnologia chinesa como uma alternativa aos sistemas ocidentais.
O mundo dos semicondutores está se dividindo em ecossistemas paralelos. Para grande parte do Sul Global, isso pode representar não uma ameaça, mas uma oportunidade — a chance de construir bases digitais em termos escolhidos por eles mesmos.
*Jeff Xiong é secretário geral do Fórum Acadêmico do Sul Global. Esse artigo foi publicado originalmente em inglês, na newsletter do autor.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

