Nesta terça-feira, dia 31 de março, faz 10 anos que eu me filiei a um partido político. Foi no meio de uma passeata contra o golpe de 2016, com a sensação de que só gritar na rua já não dava conta. Antes disso, e por muito tempo, bati no peito para dizer que nunca havia me filiado a partido nenhum.
Ali estava eu, assinando uma ficha e atravessando uma fronteira que parecia definitiva. Não foi uma decisão simples e nem romântica. Não bastaria estar organizado na sociedade civil, cobrando e propondo as políticas que eu queria ver implementadas. Era preciso meter o pé na porta. Era preciso disputar o poder.
Naquele mesmo ano, fui eleito vereador do Recife, cumpri dois mandatos consecutivos e não parei mais de colecionar aprendizados. Uns bonitos, outros duros, alguns até engraçados (porque, sim, a política também é cheia de situações que dariam um ótimo roteiro de comédia — se não fossem tão sérias).
Foi desse acúmulo que nasceu Papo Reto: o que eu aprendi (e ainda aprendo) tentando transformar a política, livro que está agora em pré-venda e que deve sair da gráfica no final de abril. Como escrevi logo no começo, a ideia é simples: “bater um papo livre, em primeira pessoa, sobre esta experiência na política institucional até agora”. Sem pose, sem manual, sem fingir que sei tudo.
No livro, eu conto como foi entrar numa Câmara de Vereadores sem saber nem por onde começar — e descobrir que muita coisa ali parece feita justamente para ninguém entender. Falo das conversas que fiz quase mil vezes dentro dos ônibus do Recife, prestando contas do mandato para quem me “contratou através do voto”. Falo de acordos, de tensões, das perguntas que nunca saem de moda (“isso vale a pena mesmo?”) e também de uma descoberta que me atravessou: não dá para transformar a política estando do lado de fora dela.
Ainda que fale sempre do meu ponto de vista, não é só uma história pessoal. Nesses últimos anos, cada vez mais gente que vem dos movimentos, das lutas sociais, da cultura, das periferias, também tem percebido isso: não basta pressionar — é preciso disputar. E, no Brasil, isso passa necessariamente pelos partidos. Gostando ou não, são eles que organizam a entrada no jogo institucional.
Na nossa democracia formal, é impossível ocupar o poder senão por meio dessas organizações. O problema é que pouquíssima gente está lá dentro. Mais de 160 milhões de pessoas podem votar, mas só cerca de 10% estão filiadas a alguma legenda. Ou seja: a imensa maioria de nós vota em “segunda mão”, escolhendo entre opções que já foram previamente definidas por um grupo muito, mas muito menor.
Hoje percebo o quanto isso é ruim para a democracia, porque reduz a diversidade, limita o debate e concentra poder. E, no fim das contas, faz com que muita gente siga achando que política é “coisa deles” — quando, na verdade, é uma das coisas mais nossas que existem.
Este ano, eu estou pré-candidato a governador de Pernambuco pelo primeiro e único partido ao qual me filiei, o Psol, numa inédita decisão que uniu todos os diversos grupos que compõem nossa agremiação. Fruto direto desses 10 anos de aprendizado, de tentativa, de erro e de insistência.
Sigo na tarefa de transformar a política — não porque seja fácil, mas justamente porque sei o tamanho da dificuldade. E porque sigo acreditando que dá. Que é possível construir um estado em que as pessoas tenham seus direitos garantidos e liberdade para serem quem são de verdade. Um estado em que o poder público esteja a serviço do bem viver.
Se esse texto te provoca de alguma forma, talvez seja porque a janela de filiação partidária para quem quer disputar as eleições deste ano está aberta, mas vai se fechar agora, no dia 4 de abril. E, olha, não precisa virar candidato ou candidata para se envolver. Mas precisa se aproximar. Participar. Disputar. Porque, como eu aprendi na marra, não tem outro caminho: a política vai seguir existindo. E, se a gente não se meter, ela vai continuar sendo controlada e dominada pelas mesmas famílias que já estão no comando há décadas e décadas.
Querendo entender melhor como essa engrenagem funciona por dentro (com seus labirintos, suas contradições e também suas possibilidades), já dá para garantir o seu exemplar do Papo Reto. O “caminho das pedras” eu dou nas minhas redes sociais. No final de abril, a gente se encontra no lançamento — de preferência com um copo na mão e muita conversa pela frente.
Afinal, é disso que se trata: sentar, trocar ideias e, quem sabe, decidir juntos os rumos das coisas que são de todo mundo.

