O empate entre Brasil e Marrocos na estreia da Copa não serviu apenas para quebrar o seu bolão ou para morgar a noitada do sábado. Primeiro, porque trouxe conversa nova para a mesa e depois porque não faz nenhum sentido perder o forró só porque se esperava um resultado melhor da Seleção. Enquanto você pensa se vale a pena continuar apostando no time liderado por Ancelotti, vamos focar na lição aprendida: não existe disputa vencida antes de começar.
O Brasil entrou em campo com um elenco avaliado em cerca de 910 milhões de Euros. Marrocos, cotado em aproximadamente € 490 milhões. O Brasil possui cinco títulos mundiais, uma coleção de craques espalhados pelos maiores clubes da Europa e uma tradição que dispensa apresentações. Marrocos tem uma história muito mais modesta, pelo menos aos olhos de quem começou a acompanhar seu futebol apenas recentemente.
Se o futebol funcionasse como muitos analistas políticos imaginam que funcionam as eleições, bastaria divulgar a folha salarial dos elencos e encerrar os campeonatos antes da primeira rodada. Entre os grandes esportes coletivos, o ludopédio é o que mais preserva a possibilidade do improvável.
No basquete, a equipe mais forte costuma impor sua superioridade ao longo de dezenas de ataques. No vôlei, a diferença técnica aparece ao longo de centenas de fundamentos executados durante uma partida. Mas no futebol não. Uma equipe mais organizada pode equilibrar uma disputa contra outra mais rica, mais famosa e mais tradicional. Como diz o meme: é raro, mas acontece muito.
A Dinamarca venceu a Eurocopa de 1992 depois de ter sido eliminada nas classificações e convocada às pressas para substituir a Iugoslávia. A Grécia conquistou a Eurocopa de 2004 derrotando sucessivamente algumas das seleções mais poderosas do continente. O Leicester City venceu o Campeonato Inglês em 2016 enfrentando adversários com orçamentos muitas vezes superiores ao seu.
Agora veja o Marrocos. Em 2009, o país iniciou um ambicioso programa nacional de desenvolvimento do futebol. Em 2010, inaugurou a Academia Mohammed 6º, destinada à formação de atletas de alto rendimento. Vieram depois centros regionais de treinamento, investimentos em infraestrutura e um sistema nacional de observação de talentos. Em 2022, tornou-se a primeira seleção africana e árabe a chegar a uma semifinal de Copa do Mundo. Dois anos depois, conquistou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Paris e, em 2025, foi campeão do Mundial Sub-20.
No empate contra o Brasil, Marrocos se mostrou uma equipe taticamente disciplinada, organizada e capaz de controlar momentos importantes do jogo, enquanto o Brasil apresentou problemas de coesão e organização, dependendo de um lance genial de Vinícius Jr. para empatar. O jovem volante Ayyoub Bouaddi, de apenas 18 anos, teve mais de 86 toques na bola e acertou mais de 90% dos passes. Nenhum projeto coletivo sobrevive sem seus Bouaddi: gente que distribui o jogo, conecta setores, ocupa espaços e faz a engrenagem funcionar.
Vivemos uma época em que somos permanentemente estimulados a acreditar que os resultados (não apenas no campo esportivo) decorrem apenas de recursos, fama, influência ou poder. No futebol, isso equivaleria a entregar o troféu para quem possui os jogadores mais caros. Na política, equivaleria a cancelar as eleições e distribuir os mandatos de acordo com o tamanho das máquinas, dos sobrenomes, do número de partidos coligados, do tempo de tevê ou do volume das contas bancárias.
Só que, por mais que queiram nos dizer o contrário, a experiência humana na Terra mostra que nem sempre é assim. A independência da Índia parecia improvável. O fim do apartheid parecia improvável. O voto feminino parecia improvável. A campanha das Diretas Já parecia improvável. O fim da escravidão, o direito ao divórcio, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo gênero e a regulação do mercado de cannabis em diversos países do mundo também pareciam improváveis.
Em diferentes momentos da história, todas essas causas foram tratadas como derrotadas antes mesmo de entrarem em campo. Longe do favoritismo, essas lutas venceram. Em comum: pessoas em grande quantidade unidas e comprometidas com seu objetivo, dispostas a ocupar espaços públicos e visíveis. O sucesso vem do esforço em construir organização, formar lideranças, estabelecer vínculos de confiança e produzir algo que nenhum indivíduo é capaz de realizar sozinho.
A democracia também funciona assim. Há candidatos com mais dinheiro, mais estrutura, mais tempo de televisão e mais pesquisas favoráveis. Mas, enquanto a urna não fecha, continua existindo espaço para organização, inteligência coletiva, generosidade e inovação. Assim como no futebol, ninguém vence apenas porque era o favorito.
Para isso servem os azarões, também no futebol. Eles nos lembram que a existência de favoritos não transforma o resultado em destino. O Brasil, ainda que careça de um sentido de conjunto que parece distante, é sem dúvida uma das grandes seleções do mundo. Principalmente pelo talento individual dos nossos jogadores, seguimos favoritos contra a maioria dos adversários que aparecerem pela frente.
Mas o empate com Marrocos serve para recordar algo que vale para o futebol e para quase tudo mais na vida: até o apito final, o jogo continua aberto.

