Já começo com uma confissão: sou um péssimo apostador de bolão. Sempre aposto no time favorito ou para quem quero torcer. Raramente levo em conta as zebras e nunca procuro saber nada sobre as seleções em disputa para além do retrospecto em Copas que minha própria memória traz. Jamais aposto contra o Brasil. Pior ainda: sempre coloco um monte de gol para a Canarinha, só para não ter que, em algum momento, torcer pelo adversário.
Contra a Escócia, por exemplo, meti um 4 x 0 que me deixou animado até o finalzinho, contando com Endrick para cravar o resultado. Nesse esquema, estou sempre nas posições medianas, sempre me divertindo e dando risada, aproveitando muito mais a galhofa das amizades do que a esperança da minha própria vitória ao final do certame. Quando alguém levantar o troféu, eu terei gasto aproximadamente um real por dia com essa travessura.
O maior objetivo é mesmo a confraternização. Tanto que um bolão em que estou tem regras próprias e características inusitadas, como a sanção que impede os apostadores de pontuar em placares favoráveis aos Estados Unidos e até um perfil que sempre faz apostas levando em conta a situação geopolítica do país defendido por cada seleção.
Imagino que não sou o único a me divertir com isso. Enquanto escrevo estas mal traçadas, é capaz de você estar aí esquentando a cachola (ou mesmo o ChatGPT) para adivinhar quem vai passar para as oitavas de final. A tradição ‘bolonística’ não é de hoje e muitas vezes é, inclusive, usada como forma de captação de recursos para igrejas, blocos de carnaval e organizações sociais.
Entre seres humanos, a “brincadeira” de apostar vem de muito longe. Se entendermos aposta como qualquer jogo de azar envolvendo algo de valor, as evidências arqueológicas mais antigas conhecidas podem recuar para cerca de 12.800 anos atrás, quando objetos semelhantes a dados teriam sido utilizados por povos da cultura Folsom, na América do Norte, possivelmente para jogos de azar, resolução de disputas e distribuição de bens (Science Advances, 2026).
Muito antes disso, dados e jogos de sorte já apareciam nas grandes civilizações antigas. Arqueólogos encontraram dados de seis faces na Mesopotâmia datados de cerca de 3.000 a. C., enquanto no Egito Antigo eram comuns jogos como o Senet, frequentemente associados a apostas e também a rituais religiosos.
Na China, loterias e jogos de azar são documentados há mais de dois mil anos e há historiadores que defendem que parte dos recursos arrecadados ajudou a financiar obras públicas durante as primeiras dinastias imperiais. Na Grécia e em Roma, apostas acompanhavam competições atléticas, corridas de cavalos e combates de gladiadores, apesar das frequentes tentativas das autoridades de restringir sua prática (Encyclopaedia Britannica; The Guardian, 11 abr. 2026).
Mas, de um tempo para cá, convenhamos, a coisa saiu mesmo do controle.
As apostas esportivas deixaram de ser uma brincadeira entre amigos para se transformar numa das indústrias que mais crescem no planeta. Segundo a consultoria Grand View Research, o mercado global movimentou US$ 100,9 bilhões em 2024 e pode atingir US$ 187,4 bilhões até 2030, impulsionado sobretudo pelas plataformas digitais.
A Copa do Mundo de 2026 já é apontada por analistas como o maior evento de apostas da história, com expectativa de movimentar mais de US$ 50 bilhões apenas durante o torneio, superando os cerca de US$ 35 bilhões estimados para a Copa de 2022 (Reuters, 25 jun. 2026).
No Brasil, o crescimento foi explosivo. Embora as apostas esportivas tenham sido autorizadas pela Lei nº 13.756, de 2018, o mercado só passou a ser efetivamente regulamentado em janeiro de 2025. Nesse intervalo, houve uma verdadeira corrida de empresas nacionais e estrangeiras para ocupar esse novo filão econômico.
Um levantamento da Datahub mostrou que o número de empresas do setor cresceu 734,6% entre 2021 e abril de 2024. Apenas nos quatro primeiros meses de 2024 foram abertas tantas empresas quanto existiam em todo o ano de 2022.
O resultado já aparece no bolso das famílias brasileiras. O Banco Central estima que os brasileiros estejam apostando até R$ 30 bilhões por mês em plataformas online — um salto em relação à estimativa anterior, de R$ 20 bilhões mensais.
O próprio Banco Central afirma que começou a estudar o fenômeno ao perceber um comportamento estranho da economia: a renda das famílias aumentava, mas esse crescimento não aparecia nem no consumo nem na poupança. Parte desse dinheiro estava simplesmente desaparecendo nas plataformas de apostas.
O impacto é ainda mais dramático entre os mais pobres. Um estudo técnico do Banco Central mostrou que, apenas em agosto de 2024, cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para empresas de apostas por meio do Pix, um valor equivalente a quase 20% de todo o orçamento mensal do programa naquele mês. A mediana de gastos foi de R$ 100 por pessoa, mas 70% dos apostadores eram justamente os responsáveis pelo recebimento do benefício em suas famílias.
Também começam a aparecer evidências preocupantes sobre os impactos na saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que os jogos de azar podem provocar dependência, aumentar a incidência de ansiedade, depressão e suicídio e empurrar famílias para situações de pobreza ao deslocar recursos que seriam destinados à alimentação, à moradia e a outras necessidades básicas. Estudos recentes também associam o chamado transtorno do jogo ao aumento do endividamento, do sofrimento psíquico e da violência doméstica.
Tudo isso vem sendo movido por uma máquina de propaganda jamais vista na história recente do esporte brasileiro. As empresas multiplicam-se nesse negócio e investem pesadamente em publicidade e patrocínio. Em poucos anos, tornaram-se patrocinadoras de campeonatos, transmissões esportivas, clubes, arenas, programas de televisão, influenciadores digitais e criadores de conteúdo.
Hoje, é difícil assistir a uma partida de futebol — em qualquer canal, aberta, fechada ou plataforma digital — sem ser atingido por uma avalanche de marcas de apostas. Uma vez, assistindo ao Brasileirão (que também leva o nome de uma bet), contei com meu irmão simplesmente sete dessas empresas aparecendo simultaneamente em painéis no estádio, nas camisas dos jogadores, nas placas de LED e nas inserções da transmissão.
Na televisão, atletas fazem propaganda dessas plataformas como se eles próprios, participantes do espetáculo esportivo, não tivessem qualquer interesse na preservação da credibilidade das competições.
Nesta Copa do Mundo, então, tem canal falando muito mais de apostas e odds do que do retrospecto das equipes, das ambições dos jogadores e das sempre maravilhosas histórias de vida que marcam competições internacionais desse tipo. A Cazé TV, pioneira nas transmissões pelo YouTube, tem corretamente levado boa parte das críticas, mas está longe de ser a única empresa de comunicação a abraçar-se com o universo das apostas online.
Um amigo conta que estava assistindo a um jogo num bar — todo decorado com bandeirinhas betísticas — quando promotoras distribuíram “créditos” para uma dessas plataformas.
Entendo que as bets deveriam receber tratamento regulatório semelhante ao adotado para outros produtos capazes de produzir comprovados danos à saúde pública, como o cigarro e as bebidas alcoólicas.
Se, à luz das liberdades individuais, a proibição provavelmente não resolveria o problema, cabe ao Estado estabelecer regras muito mais rígidas, capazes de desestimular o ingresso de novos apostadores, proteger os grupos mais vulneráveis e cobrar das empresas impostos compatíveis com os custos sociais que essa atividade produz. Esses recursos deveriam ser destinados a políticas de prevenção, tratamento e mitigação dos danos associados ao vício em jogos.
Da mesma forma que ocorreu com o tabaco, deveria ser proibida toda publicidade dessas empresas em locais de acesso público, na radiodifusão e em transmissões esportivas ou culturais, independentemente da plataforma utilizada. Mais do que aquelas discretas notas de rodapé informando sobre o risco de dependência — que praticamente ninguém lê —, o alerta deveria ocupar o centro da comunicação pública financiada pelo próprio setor.
É uma pena que ainda haja gestores públicos que finjam não compreender o tamanho do problema. No Recife, onde moro, a prefeitura comandada pelo PSB aprovou um projeto que reduziu o ISSQN pago pelas plataformas de apostas de 5% para 2%. Coincidentemente (ou não), nos últimos anos uma dessas empresas tornou-se patrocinadora master de grandes eventos do município, como o Carnaval e o São João.
Com o perdão do trocadilho, aposto que isso não pode dar certo.

