Ivan Moraes

Ivan Moraes é pai, jornalista, sonhador, escritor, conversador, defensor de Direitos Humanos e ex-vereador do Recife pelo PSOL.

A voz do povo e uma nova maneira de curtir a Copa

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Brazil's players celebrate their second goal during the 2026 World Cup round of 32 football match between Brazil and Japan at the Houston Stadium in Houston on June 29, 2026. (Photo by Paul ELLIS / AFP)
Primeiro jogo da seleção brasileira no mata-mata da Copa do Mundo de 20226, contra o Japão | Crédito: Paul ELLIS / AFP

Nunca na história das transmissões houve tantos canais para se acompanhar os jogos, cada um no seu tempo. Em cada canto o jogo está num momento diferente

“Cadê a voz do povo?”, “Cadê o grito da galera?”. Era o que se dizia na varanda de minha amiga Mariana a cada ataque do Brasil contra o Japão, na intenção de saber se já tinha alguém comemorando ali por perto. Domingo, contra a Noruega, não tenho dúvidas de que a cena se repetiu.

A dinâmica já faz parte da memória coletiva deste ano. Sim, sempre houve os apressadinhos que assistiam à televisão com o radinho no ouvido, muitas vezes antecipando as jogadas. Mas nunca, na história das transmissões ao vivo com som e imagem, houve tantos canais alternativos para se acompanhar os jogos do Brasil, cada um no seu tempo.

A radiodifusão, cada vez mais rara, chega primeiro. Depois vêm os canais de TV, os por assinatura e os Youtubers da vida. É como se, em cada canto, o jogo estivesse num momento diferente. Enquanto os olhos acompanham o que acontece na tela, os ouvidos, também atentos, prestam atenção ao entorno. Não demora para descobrir de onde vêm os primeiros gritos.

Tem gente dizendo que o delay, para as pessoas ansiosas, é uma bênção. Assim, você não precisa deixar o coração sair pela boca a cada arrancada de Vini Júnior em direção ao gol. Se a vizinhança estiver em silêncio, fica de boa que não vai dar em nada.

Algumas pessoas têm se aproveitado desses spoilers, inclusive, para não prestar atenção na partida. Ficam por ali conversando, bebericando, contando piada. Mas é só alguém gritar na esquina que ainda dá tempo de deixar o copo num lugar seguro e, num salto, procurar o melhor lugar para acompanhar o desenrolar do lance, que pode demorar poucos segundos ou mais de um minuto para terminar com a bola nas redes.

Às vezes, é verdade, não dá para confiar. Já vi meme de famílias gritando gol depois de um lateral somente para sacanear quem assiste na casa ao lado. Também tem uma turma que se emociona com qualquer canelada, muitas vezes confundindo quem está esperando uma oraculada certeira. E temos céticos, como um amigo que sofre e torce igual, ainda que racionalmente saiba que será em vão. Fé é fé e ninguém vai dizer que ele não tem o direito de fazê-lo. Não é porque na casa ao lado Endrik estava impedido que aqui, na nossa sala, o assistente vai levantar a bandeira.

Tenho me divertido com esse jeito novo de torcer, em que as interações humanas não se limitam às paredes e ao teto onde você se encontra. Ainda que com ruídos e tramóias, é muito legal imaginar essa corrente de energia e comunicação funcionando. Nesta Copa, um gol não é mais um momento fincado no espaço, mas uma sequência quase interminável de celebrações em onda, com um grupo se alimentando da emoção do outro e passando sua energia adiante.

Mais que tudo, eu gosto da metáfora de “ouvir o povo”. De pensar na voz irmanada das pessoas reunidas como um acontecimento profético, que mostra o caminho incontestável e certeiro. Fico imaginando que será gol não porque as pessoas viram antes e gritaram antes. Será (e será mesmo!) porque as pessoas simplesmente se juntaram para dizer que seria. E gritaram. E protagonisticamente fizeram o gol acontecer.

Não é à toa que, quando o juiz apita depois de uma vitória apertada, percebemos que o corpo está cansado. Afinal, se não fosse a gente torcendo, a derrota seria certeira.

É essa a fé que eu boto no nosso povo. Porque acredito de verdade que os seres humanos podem resolver seus problemas na Terra. Que podem interagir mesmo sem se ver, dialogar e expressar seus sentimentos. Podem até gritar juntos, desafiando as leis da física, para mudar o rumo de uma bola, do seu Estado, do seu País e até mesmo do planeta. E, se não for, eu xóxi.

Editado por: Vinícius Sobreira

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