Jaldes Meneses

Professor Titular do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Doutorem Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atua na Gradução em História da UFPB e junto ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, na qualidade de Professor Permanente. Tem experiência na área de Teoria Política, com ênfase em História, atuando principalmente nos seguintes temas: democracia e teoria política contemporânea. Atuou como Assessor Parlamentar no Senado Federal entre fevereiro de 2016 e outubro de 2018.

Terceira via ou Plano B?

No audio source provided.
Charge de André Dahmer | Crédito: Ilustração

Historicamente o fascismo sempre foi o Plano B da burguesia

Historicamente o fascismo sempre foi o Plano B da burguesia, uma espécie de segundo time de arruaceiros na sociedade civil prontos para assumir o poder de Estado. Tanto Hitler (1933) como Mussolini (1922) assumiram o poder no cargo de primeiro-ministro em crises terminais do regime parlamentarista, a chamado do presidente Gal Hindenburg (Alemanha) e do rei Vitor Emanuel III (Itália). Nem Hitler nem Mussolini deram o golpe militar bonapartista clássico à maneira dos generais latino-americanos. Assumiram por dentro das regras do sistema político vigente, com o apoio da maioria parlamentar, e logo passaram a endurecer e criar a institucionalidade de uma ditadura. Neste sentido, nos termos de Gramsci, a estratégia número um dos fascistas, ao contrário do senso comum, é de guerra prolongada ou de posição, com um momento militar de reconstrução do Estado e não uma rápida guerra de movimento ou blitzkrieg.

É engraçado quando leio que a câmara federal foi leniente com Bolsonaro por 28 anos. As pessoas se iludem e não compreendem que uma esquisitice bizarra como Bolsonaro estava no pacote na transição transada de 1988, que nunca, em que pese a hibernação do Senhor Urso, liberou o país totalmente da possibilidade de uma tutela militar. Basta arguir a letra – nem falo das interpretações de “poder moderador” imperial à lá Ives Granda Martins – do artigo 142. Afinal de contas, está lá escrito que cabe às forças armadas, e não ao presidente da república, “… a defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem” (Artigo 142 da Constituição Federal).

O “Plano B” Bolsonaro estava ali – mas poderia ser qualquer outro que a deusa Clio olhasse complacente –, produzindo gargalhadas em programas de auditório, para uso quando devidamente necessário quando fosse necessário virar “Plano A”. A “necessidade Bolsonaro” surgiu exatamente na oportunidade da crise do sistema político (atenção, não resumo a questão do regime político à querela do “pacto de governabilidade” em torno da constituição de 1988), que começou nas confusas manifestações de 2013, mas cujas principais sequências foram o golpe continuado do impeachment de Dilma, a prisão e cassação de Lula e a eleição de Bolsonaro. 

Evidentemente, a vitória de Bolsonaro foi uma surpresa que não estava posta no começo do processo de crise, em 2013. Ele credenciou-se durante a crise orgânica de representação do sistema político no bojo do movimento de massas pelo impeachment de Dilma. De Plano B virou Plano A e os tucanos de Plano A viraram Plano B. Digo mais: apesar das reservas de alguns setores burgueses, Bolsonaro continua o Plano A nas eleições de 2022.

De tudo isso pode-se apurar que “terceira via” (nem Lula, nem Bolsonaro) é uma marca de fantasia. Não foi por acaso que políticos tidos hoje como de “terceira via” como João Dória e Eduardo Leite do PSDB votaram em Bolsonaro, Moro e Mandetta foram ministros de Bolsonaro (Ciro Gomes, um caso a parte, é conversa que deixo para outro texto).
 

*Jaldes Meneses é Professor Titular do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Heloisa De Sousa

|

Newsletter