Jean Freire

Jean Freire é médico e deputado estadual de Minas Gerais pelo Partido dos Trabalhadores (PT)

São Paulo é o mau exemplo que Zema copiou

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A Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou, na última quarta-feira (17), o Projeto de Lei 4.380/2025, do governo Zema, que autoriza a privatização da Copasa.
A Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou, na última quarta-feira (17), o Projeto de Lei 4.380/2025, do governo Zema, que autoriza a privatização da Copasa. | Crédito: Alexandre Netto/ALMG

O que está em jogo não é apenas uma empresa, mas um projeto de Estado

Enquanto os paulistas encaram as consequências da privatização no setor elétrico, os mineiros se preparam para lidar com os problemas decorrentes da privatização da Copasa.

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou, na última quarta-feira (17), o Projeto de Lei 4.380/2025, do governo Zema, que autoriza a privatização da Copasa. A decisão marca um dos maiores retrocessos recentes na política pública de saneamento do estado e coloca Minas Gerais no mesmo caminho que levou São Paulo a sucessivos colapsos na prestação de serviços essenciais após a privatização do setor elétrico.

A proposta de venda da Copasa repete um roteiro já conhecido: decisões tomadas sem transparência, sem diálogo com a população e sem responsabilização. Quando o que estava anunciado acontece e a crise se instala — como no grave apagão em São Paulo, provocado pela má prestação de serviço da ENEL — os responsáveis se esquivam, transferem a culpa e passam a cobrar iniciativas do governo federal, como se não tivessem participado diretamente das escolhas que levaram ao colapso.

O apagão que atingiu São Paulo recentemente, deixando mais de 2 milhões de unidades consumidoras sem energia elétrica, não foi um acidente imprevisível. Foi consequência direta de um modelo de privatização que prioriza lucro em detrimento de investimento, manutenção e segurança do serviço. A concessionária privada Enel falhou mais uma vez em um momento crítico, interrompendo serviços essenciais como saúde, escolas e abastecimento de água, causando prejuízos econômicos e expondo a população a riscos evitáveis.

Na prática, o discurso da eficiência da privatização se traduz em menos gastos para gerar mais lucro. Dados mostram que a Enel São Paulo investiu cerca de 22% a menos do que o patamar considerado necessário pela Aneel para garantir um serviço adequado. O resultado foi previsível: redes fragilizadas, mais interrupções e menos capacidade de resposta diante de crises.

Aqui, o “cala a boca” prospera

Esse modelo é exatamente o que o governo Romeu Zema impõe a Minas Gerais ao empurrar a privatização da Copasa goela abaixo do povo mineiro, sem diálogo e sem participação popular. Esse processo de privatização não surgiu do nada. Desde 2023, quando assumiu seu segundo mandato enquanto governador de Minas Gerais, Romeu Zema vem preparando o terreno para a venda da Copasa. 

Foi naquele ano que apresentou à ALMG a PEC 24/2023, proposta que retirou da Constituição mineira a exigência de referendo popular para a privatização de estatais estratégicas. 

O governo Zema, como sempre, não ignorou apenas os critérios técnicos, mas, também, o clamor popular. Diversas pesquisas de opinião, como a Itatiaia/Ver, apontavam que a maioria dos mineiros – cerca de 66% – desejavam ser consultados por referendo antes de qualquer decisão sobre a venda da Copasa. Outra pesquisa realizada pela Quaest mostrou que 51% dos mineiros são contrários à privatização da Copasa. 

A Copasa é nossa

A Copasa foi criada como estatal de saneamento em 1974 e, embora tenha aberto parte de seu capital em 2006, o controle sempre esteve nas mãos do Estado de Minas Gerais, responsável por levar água e esgoto a quase 12 milhões de pessoas em 640 municípios mineiros até 2024. 

Mesmo diante de um processo deliberado de precarização do serviço promovido pelo governo Romeu Zema, com redução de investimentos estratégicos, pressão sobre a empresa e uso da insatisfação da população como argumento político, a Copasa seguia sendo uma empresa robusta, financeiramente saudável e operacionalmente estratégica.

Em 2024, registrou receita líquida de aproximadamente R$ 6,97 bilhões, com lucro líquido de R$ 1,32 bilhão, além de investimentos superiores a R$ 2,1 bilhões em ampliação e melhoria dos serviços. Os números desmontam a narrativa de ineficiência: o problema nunca foi a incapacidade da empresa, mas a escolha política de enfraquecê-la para justificar sua privatização.

Privatiza que piora! 

Quando empresas privatizadas falham, como é o caso da Enel em São Paulo, quem entra em campo para tentar solucionar os problemas são as estatais. No apagão paulista, foi a Cemig, mais um dos patrimônios públicos de Minas, que enviou equipes técnicas, caminhões, especialistas e estrutura operacional para ajudar a restabelecer o serviço. 

O mesmo ocorreu durante as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024. Em meio ao colapso do saneamento em diversas cidades, a Copasa esteve presente, levando conhecimento técnico, tecnologia e apoio operacional. Não havia lucro envolvido. Havia a necessidade de salvar as vidas em risco. Essa diferença é central: empresas privadas operam até onde é rentável; empresas públicas existem para garantir direitos, inclusive nas situações mais difíceis.

É justamente esse papel do Estado que está sendo colocado em xeque. O debate que Minas deveria fazer não é sobre entregar patrimônio público, mas sobre como fortalecer o que é nosso: transformar o lucro das estatais em mais investimento, ampliação de redes, inovação, pesquisa, melhoria do serviço e tarifas mais justas. O lucro precisa voltar para o povo, na forma de qualidade de vida.

A aprovação da privatização da Copasa não encerra essa discussão. Ao contrário: escancara a necessidade de uma sociedade mais atenta e vigilante. Porque o que está em jogo não é apenas uma empresa, mas um projeto de Estado. Um projeto que reduz deliberadamente a presença do poder público na garantia de direitos e transfere ao mercado decisões que impactam diretamente a vida das pessoas, sobretudo das mais pobres.



Dr. Jean Freire é médico, deputado estadual e vice-presidente do PT de Minas Gerais. 

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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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