Jô Cavalcanti

Vereadora eleita do Recife. Mulher negra, mãe, feminista, trabalhadora do comércio informal, militante sem-teto junto ao MTST e ex-codeputada estadual com as Juntas.

A democracia brasileira não está à venda

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O senador Flávio Bolsonaro e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, ambos do PL, posam em frente à Casa Branca.
O senador Flávio Bolsonaro e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, ambos do PL, posam em frente à Casa Branca, nos Estados Unidos. | Crédito: Reprodução do Instagram

O Brasil não pode ser tratado como quintal de estrangeiros e nem ser entregue pelos falsos patriotas que nos rebaixam para Donald Trump

O sequestro de um mandatário de um país soberano, bombardeios em território venezuelano, assassinato de servidores públicos. Não é só mais um capítulo da escalada autoritária global: é um recado direto para a América Latina.

E esse movimento não acontece no vazio. Ele está inserido em uma nova correlação de forças internacionais marcada pela disputa entre os Estados Unidos e a China pela hegemonia econômica, política e tecnológica. Diante da ascensão chinesa e da sua capacidade de impor unilateralmente sua vontade, os EUA intensificam práticas imperialistas a fim de preservar sua zona histórica de influência de maneira ainda mais direta na América Latina.

Nenhuma democracia periférica está segura de verdade se a truculência autoritária se sobrepõe ao direito internacional. O ataque dos EUA à Venezuela coloca toda a América Latina e o Sul Global sob ameaça.

Não à toa, em artigo publicado no New York Times, o presidente Lula deixou um alerta diplomático e foi certeiro ao afirmar que a erosão do direito internacional e o uso unilateral da força colocam em risco a paz global e a soberania dos povos.

Essa postura também está ligada à disputa global por tecnologia, que hoje é uma disputa por poder. Os EUA tentam manter sua liderança enquanto países como a China avançam para construir independência tecnológica.

Nesse cenário, os recursos naturais ganham ainda mais importância. Entre eles, as chamadas terras raras, minerais essenciais para a produção de tecnologias como celulares, baterias e equipamentos militares. O Brasil possui reservas importantes desses materiais, o que aumenta o interesse e a pressão externa sobre o país. Não é uma disputa ideológica, é uma disputa concreta por riqueza, soberania e controle do futuro.

O recado transmitido pelo ataque à Venezuela encontrou terreno fértil aqui no Brasil, já que convivemos com uma extrema direita que nunca aceitou a democracia por completo. Atacaram as urnas, pressionaram as instituições e, ao final, tentaram um golpe. Derrotada no voto, essa extrema direita foi tentar buscar lá fora a tutela que não conseguiu conquistar aqui dentro.

Não dá para minimizar o que está óbvio: parte da direita brasileira prefere rifar a democracia a aceitar a vontade popular.

O entreguismo bolsonarista como método de poder

O bolsonarismo não é só autoritário: é entreguista na essência. Por baixo da conversa fiada e do verniz de patriotismo, essa ala política construiu uma prática baseada na submissão a interesses estrangeiros, em especial aos setores mais agressivos da extrema direita estadunidense.

Isso não é novidade na história da América Latina. Essa lógica retoma uma velha ideia defendida pelos Estados Unidos desde o século 19: a noção de “América para os americanos”. Na prática, isso sempre significou que os Estados Unidos se colocam como donos do continente e tratam os países latino-americanos como seu quintal, territórios que devem estar sob sua influência e obedientes aos seus interesses. Essa visão volta a ganhar força agora, justamente porque o poder dos Estados Unidos está sendo desafiado no cenário global e eles buscam reafirmar seu controle.

A vontade de submissão aos EUA não morreu com o governo Bolsonaro. Ela está em processo de reorganização. Parlamentares bolsonaristas atuam internacionalmente para deslegitimar as eleições brasileiras, constranger o STF, pressionar o Estado de fora para dentro. É uma estratégia consciente de erosão da soberania nacional, mascarada de “opinião política” e de “denúncia”.

Flávio Bolsonaro é um caso emblemático. Em vez de defender o Brasil diante de ataques externos, trabalhou politicamente para alimentar no exterior as narrativas de perseguição, questionar decisões do Judiciário brasileiro fora do país, sinalizar alinhamento com os trumpistas interessados em se meter e desestabilizar nossa política interna.

Quando um parlamentar da República, sustentado pelo dinheiro do povo brasileiro, trabalha para desacreditar a democracia do próprio país em arenas internacionais, isso passa longe de ser oposição – é pura sabotagem institucional.

Esse tipo de movimento normaliza uma ideia das mais perigosas: a de que potências estrangeiras (em especial os Estados Unidos, que agem como polícia do mundo) podem arbitrar nos conflitos internos das nações, punir economicamente ou “corrigir” decisões soberanas dos sistemas políticos que discordam. É assim que as democracias são enfraquecidas.

Democracia é disputa por direitos e proteção da vida

Precisa ficar bem demarcado: a democracia brasileira não é plena. Para milhões de pessoas (povos indígenas, população negra, trabalhadores precarizados do campo e da cidade, mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, quem mora nas periferias) o acesso a direitos sociais, terra, moradia, saúde, segurança e dignidade sempre foi limitado e desigual. E é exatamente por isso que defender a democracia importa.

Defender a democracia não é fingir que ela já funciona muito bem para todos. É disputar diariamente sua ampliação. Lutar para que direitos cheguem a quem sempre foi excluído, enfrentar desigualdades históricas por dentro do processo político, com organização, participação popular e soberania nacional.

O que não fortalece uma democracia? Aderir a agressões externas, flertar com intervenções estrangeiras, normalizar o autoritarismo. Tudo isso só coloca em risco o pouco que foi conquistado até aqui.

A história é testemunha disso: sob regimes autoritários, são justamente os grupos minorizados que sofrem primeiro e com mais intensidade. A violência aumenta, os direitos somem, a repressão se aprofunda e a precarização se amplifica. Autoritarismo “neutro” não existe: ele sempre escolhe seus alvos.

2026: o Congresso como fronteira decisiva

Nesse cenário, 2026, como já sabemos, é ano decisivo. O risco não é só eleitoral ou simbólico. O risco concreto e material é a formação de uma maioria bolsonarista no Senado e na Câmara, capaz de paralisar o governo, chantagear instituições, avançar ainda mais sobre nossos direitos e abrir caminho para retrocessos autoritários.

Um Congresso dominado pela extrema direita pode sabotar políticas sociais, ambientais e de proteção aos povos indígenas. Pode atacar o Judiciário e enfraquecer o sistema de freios e contrapesos. Pode avançar agendas entreguistas sobre petróleo, terras, territórios e patrimônio público. Pode criar um ambiente permanente de instabilidade, preparando o terreno para novas rupturas democráticas. Pode sabotar o País com manobras de impeachment do presidente eleito e dos ministros da Suprema Corte.

Por isso a defesa do governo Lula não pode estar separada da disputa pelo Congresso. Lula hoje é uma barreira democrática fundamental porque ele afirma princípios básicos: soberania nacional, respeito às urnas, multilateralismo, solução política dos conflitos.

A extrema direita sabe que não precisa vencer só a Presidência para impor seu projeto. Se eles controlarem o Congresso, basta travar as decisões que importam para o povo e para o governo eleito. Basta produzir o caos e desestabilizar.

Precisamos de ainda mais organização política, disputa consciente do Legislativo, enfrentamento direto ao bolsonarismo. Não há espaço para neutralidade. Defender a democracia exige eleger um Congresso comprometido com a ampliação de direitos, com soberania e com o povo.

O Brasil não pode aceitar ser tratado como quintal por autoritários estrangeiros e nem ser entregue por políticos que se dizem patriotas, mas se rebaixam para Donald Trump e seus aliados. A democracia brasileira não está à venda: defendê-la em 2026 é tarefa coletiva, urgente e histórica.

Editado por: Vinicius Sobreira

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