O Recife vive uma contradição difícil de ignorar. Enquanto crescem os números tanto de pessoas em situação de rua quanto de domicílios vazios, aumenta também o custo da moradia, do transporte e dos serviços básicos. Famílias convivem com insegurança dentro do seu próprio território, comunidades vivem sob ameaça de remoção e morar com dignidade se torna um desafio cada vez maior para quem trabalha e sustenta a nossa cidade todos os dias.
A cidade que esteve na vanguarda do direito à moradia nos anos 1980, quando criou as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), é hoje uma das capitais mais desiguais do país. Ainda assim, a resistência das famílias trabalhadoras nos territórios oferece uma barreira ao avanço da “expulsão branca” e do mercado. Caso contrário, a cidade seria apenas dos ricos, porque o Recife — que nos versos de Carlos Pena Filho era metade roubada ao mar, metade à imaginação — parece hoje trocar essa imaginação pela especulação.
Ao mesmo tempo, a Prefeitura do Recife anuncia grandes projetos urbanos, programas de requalificação e intervenções vendidas como “modernização da cidade”. Mas modernizar para quem? Quem poderá, de fato, permanecer e viver bem no Recife?
Falamos disso do lugar de quem acompanhou essas mudanças e que construiu a partir disso uma ferramenta de luta pela reforma urbana, o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Teto (MTST). Foi nesse caminho, organizando ocupações, acompanhando famílias ameaçadas de despejo e convivendo com quem enfrenta diariamente a insegurança de não saber se conseguirá continuar vivendo onde construiu sua vida, que aprendemos que moradia não é só sobre quatro paredes e um teto.
Nos movimentos sociais aprendemos que, quando uma família perde o seu território, ela perde também os vínculos, tempo de vida, acesso ao trabalho, rede de apoio, pertencimento e dignidade.

A capital pernambucana sabe mais do que qualquer outra que não se pode reduzir o debate de moradia à construção de habitacionais. Moradia é direito à cidade, é poder viver perto do trabalho sem enfrentar trajetos exaustivos, manter os filhos na escola, acessar saúde, cultura, transporte e permanecer onde a sua vida acontece. E é essa ideia de permanência que ajuda a gente a compreender o que está em disputa no Recife hoje.
O ProMorar é mais uma face dessa contradição. Apresentado pela prefeitura como uma grande resposta urbana aos impactos das chuvas e à vulnerabilidade socioambiental, o programa mobiliza o maior empréstimo da história da cidade — R$ 1,5 bilhões junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) — uma dívida prevista para perdurar cerca de 20 anos, passando por diferentes gestões municipais. Não estamos falando de uma decisão qualquer. A dimensão do investimento exige, no mínimo, debate público, transparência e participação social.
Após a tragédia das chuvas de 2022, tornou-se mais evidente a urgência de políticas públicas de prevenção e do enfrentamento aos impactos da crise climática. Mas o enfrentamento às enchentes e deslizamentos não pode acontecer às custas do aprofundamento da desigualdade territorial.
O problema é que, apesar do nome, ProMorar não se trata de programa de moradia popular. Ele tem se materializado, para muitas comunidades, como ameaça à habitação, insegurança territorial e incerteza de futuro. Quando se fala no maior empréstimo da história do Recife, a pergunta não pode ser apenas quanto custa, mas para quem a cidade está sendo “reformada” e quem vai pagar o preço dessas mudanças. Quase sempre estamos falando das mesmas comunidades, nas periferias. Sempre as mesmas famílias trabalhadoras que historicamente precisam lutar para permanecer onde vivem.
Essa não é uma preocupação aleatória. Hoje, sete comunidades da zona sul do Recife estão sob ameaça de despejo associada à intervenção do ProMorar: Bom Jesus, Pocotó, Fazendinha, Beco da Celpe, Curral, Joca e Beira do Rio estão convivendo com o medo e a ausência de respostas concretas.
A falta de diálogo e de sensibilidade aprofunda uma questão muito séria. Por que pessoas que moram em comunidades e permanecem em situação de vulnerabilidade sempre são as jogadas para as franjas da cidade, mais distantes dos centros urbanos?
Essa pergunta também aparece quando observamos o Morar no Centro. A defesa da moradia em áreas centrais é fruto de décadas de luta dos movimentos sociais, da denúncia de imóveis vazios convivendo com a insegurança habitacional e da reivindicação de que o centro também deve ser espaço de vida para todos.

Foi justamente para denunciar essa contradição que o MTST Pernambuco realizou, em 2018, no Centro do Recife, a Ocupação Marielle Franco, transformando em denúncia pública um prédio abandonado na Praça do Diário e fortalecendo o questionamento: por que tanta casa sem gente e tanta gente sem casa?
Reocupar a região central, enfrentar a quantidade de imóveis subutilizados e ampliar políticas de locação social é urgente. Recife precisa voltar a ser uma cidade onde as pessoas consigam morar perto de emprego, serviços e infraestrutura. Em uma cidade marcada por imóveis vazios e insegurança habitacional, discutir moradia no centro é muito importante. Inclusive porque viver longe custa caro em dinheiro, tempo e qualidade de vida.
Quem realmente vai conseguir morar no centro? Quando a política pública depende fortemente das parcerias público-privadas e dos preços já praticados pelo mercado para viabilizar o acesso à moradia, isso limita o seu alcance e produz um efeito contraditório. A área recebe investimentos, se valoriza, os preços sobem e parte da população acaba sendo silenciosamente empurrada para fora.
O centro pode até voltar a ser usado, mas não necessariamente democratizado. Se o Recife quer construir uma política real de permanência, precisa enfrentar o preço da moradia e não só subsidiar o acesso a uma lógica já definida pelo mercado. Esse tem sido o desafio das principais cidades do mundo e isso só avança com parceria público-populares.
O Distrito Guararapes também precisa ser debatido nessa perspectiva. Não apenas como um projeto urbano com viabilidade econômica, mas como parte de um modelo de cidade, que seja organizada para garantir permanência, reduzir desigualdades territoriais e aproximar a classe trabalhadora das oportunidades. Ou será que o Recife vai repetir a lógica de uma cidade orientada pela especulação imobiliária, onde morar bem, ao invés de direito, será um privilégio?
Esse debate ganha ainda mais urgência quando olhamos as expressões de degradação do centro do Recife, do seu comércio e da sua população, esta última cada vez mais em situação de rua. Moradia e população em situação de rua não são debates separados — fazem parte de um regime de proteção social comum.
Os movimentos sociais ensinam que nenhuma conquista urbana foi dada de presente. Se hoje existe debate sobre moradia, locação social, urbanização e permanência, isso também é resultado de décadas de organização popular, de ocupações urbanas, da luta de famílias que se recusaram a aceitar que viver com dignidade fosse privilégio. A cidade nunca foi transformada apenas por decisões de gabinete. Ela foi disputada nas ruas, nos territórios e pela organização coletiva.
Qual será teu futuro, Recife? Tu que és “ingrata para os da terra, boa para os que não são; amiga dos que a maltratam, inimiga dos que não”, como disse Pena Filho. Pela tua vocação para a luta das mulheres dos territórios pesqueiros, das ambulantes, dos sem-teto e de tanta gente resistente, queremos te evocar de novo como “Noiva da Revolução”.


