Quando se fala em El Niño, muita gente imagina um assunto distante, um mapa colorido no jornal, um termo técnico que passa rápido no noticiário. Em Pernambuco, porém, esse assunto está muito perto de nós: é a água que falta na torneira; é a roça do agricultor que planta e fica olhando para o céu; é o carro-pipa que sobe a serra para socorrer uma comunidade inteira. O El Niño chega, principalmente, na vida das famílias que sofrem primeiro quando o poder público demora a agir.
Os boletins técnicos indicam, neste meio de 2026, que as condições de El Niño estão presentes no Pacífico e que esse cenário pode se fortalecer nos próximos meses. Essa constatação exige prudência. Ninguém tem bola de cristal para dizer que a seca vai acontecer em tal lugar, em tal data. Quem promete isso engana. O que as fontes técnicas apontam é um alerta sério. Historicamente, o El Niño tende a reduzir as chuvas no Norte e no Nordeste e a elevar o risco de seca na nossa região. Diante de um alerta desse tipo, o dever de quem governa é se antecipar.
A realidade concreta já apareceu em Pernambuco há poucos meses. Ainda em janeiro deste ano, o Governo Federal reconheceu situação de emergência em 112 municípios pernambucanos. Só nas três primeiras semanas de janeiro, a Operação Carro-Pipa atendeu a cerca de 500 mil pessoas no estado. Meio milhão de pernambucanos dependendo de água levada por caminhão para sobreviver. Essa cifra tem rosto: é gente, é família, é a medida concreta da nossa vulnerabilidade.
A conversa precisa sair do campo técnico e entrar no campo da decisão pública. A crise climática chega de modo desigual. Quem tem menos renda, menos infraestrutura e menos proteção pública sente antes e sente mais. O semiárido seca primeiro. O agricultor familiar perde a safra primeiro. A periferia das cidades, sujeita a alagamentos e deslizamentos quando a chuva concentra, fica exposta primeiro.
O mesmo fenômeno que mal arranha quem tem reserva de água e casa firme pode arrasar quem vive na ponta. Por isso, a prevenção climática em Pernambuco também é justiça territorial.
Os modelos climáticos nem sempre apontam para o mesmo lado. Boletins recentes divergiram sobre volume de chuva em determinados períodos e regiões, ainda que convirjam sobre temperaturas acima da média e sobre a necessidade de atenção. Essa divergência reforça a necessidade de planejamento. Quando os cenários variam, o poder público precisa monitorar, planejar e ter capacidade de resposta pronta antes que a emergência bata à porta.
Também é justo reconhecer que existem instrumentos. Há iniciativas recentes voltadas à Defesa Civil, à prevenção e à resposta a desastres, além de um plano estadual de adaptação climática. Esses instrumentos precisam sair do papel. Precisam de orçamento garantido, metas claras, responsáveis definidos, cronograma e capacidade de chegar a tempo na ponta, onde a população mais precisa. Ferramenta guardada na gaveta não protege ninguém.
Em debate recente na Assembleia Legislativa, a Frente Parlamentar do Meio Ambiente reuniu universidades, órgãos ambientais, instituições de planejamento regional e representantes dos municípios para tratar dos efeitos do El Niño no estado. Na ocasião, foi informado que o Governo do Estado constituiu um grupo de trabalho, com cerca de 40 agentes públicos, para elaborar um plano de prevenção. É um passo concreto.
Esse plano, porém, precisa ouvir quem vive a crise no território: trabalhadores rurais, comunidades vulneráveis, municípios e setores diretamente atingidos. O grupo precisa se abrir a quem está na linha de frente do problema.
Planejar exige coordenação concreta. Cada município exposto precisa, antes da crise, saber o que fazer, quem acionar e quais recursos mobilizar. A seca não respeita fronteiras de municípios. A crise climática não pede licença na divisa. O que protege a população é a articulação entre Estado, prefeituras, Governo Federal, órgãos técnicos e sociedade, com responsáveis definidos para cada medida e acompanhamento permanente de quem tem o dever de fiscalizar.
Planejar hoje é impedir que a próxima emergência recaia justamente sobre quem já vive em maior vulnerabilidade. É proteger a água, a agricultura, as cidades e as famílias que mais dependem do poder público. Pernambuco não pode tratar como surpresa aquilo que os dados já anunciam como risco.
O alerta climático precisa virar ação concreta: orçamento, metas, responsáveis, escuta dos territórios e capacidade real de resposta. Adaptação climática, no fim das contas, é uma forma urgente de proteger vidas agora.

