Jornal Bicicleta

Neste espaço, o jornalista Rogério Viduedo vai discutir o uso da bicicleta sob a perspectiva do trabalhador, da trabalhadora, pois é uma ferramenta de transformação social e de combate tanto das mudanças climáticas quanto de doenças do coração e diabetes. Cidades que incentivam o uso da bicicleta têm menores índices de poluição e as pessoas têm uma saúde melhor. No entanto, não se pode esquecer que um ciclista também é pedestre e usuário de transporte público, temas que também serão abordados aqui.

Mobilidade ativa ganha meta no Plano Clima: mais bicicletas e menos carros nas cidades até 2035

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Ciclofaixa em Niterói (RJ) - Cidade é a mais amiga da bicicleta da América Latina
Ciclofaixa em Niterói (RJ) – Cidade é a mais amiga da bicicleta da América Latina | Crédito: Prefeitura de Niterói (RJ)

Ninguém quer sair de casa já pensando se vai se estressar com invasores de ciclofaixas ou cruzar com gangues de ladrões de bici na volta para casa

Em meio a tantas guerras e vilanias, pouca gente deu atenção à publicação do Plano Setorial de Cidades, que faz parte do Plano Clima – Mitigação, documentos do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do Ministério das Cidades que contêm a estratégia brasileira para enfrentar a crise climática. Nele, para mitigar (reduzir) a poluição gerada nos transportes, foi estabelecido que as cidades, em média, devem chegar a 2030 com 34,5% das viagens feitas por mobilidade ativa (a pé ou bicicleta). O texto também estabelece que esse número deve subir para 37% até 2035.

O parâmetro foi estabelecido a partir da média obtida nas principais regiões metropolitanas do Brasil e hoje está em 32%, número formado, em maioria, por pessoas que caminham. Na Grande São Paulo, por exemplo, a mobilidade ativa responde por 29% do total de viagens e as bicicletas figuram em míseros 1,3%, algo em torno de 400 mil deslocamentos diários, o que para uma região de 21 milhões de habitantes é uma gota no oceano. Os dados são da Pesquisa Origem-Destino de 2025.

Para alcançar o objetivo, o plano aposta diretamente na ampliação e qualificação da infraestrutura cicloviária como uma das principais ferramentas de mitigação de emissões. Mas a atração de novos ciclistas urbanos não será feita de modo isolado. A proposta é tornar a bicicleta uma alternativa real ao transporte motorizado individual: promover a construção de novas ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas, instalar bicicletários, paraciclos e estruturas de apoio que garantam mais conforto e segurança para quem pedala no dia a dia e também, antes disso, orientar que as políticas públicas diminuam as distâncias em relação às necessidades da população.

Ou seja, é preciso que as pessoas morem mais perto da escola, do trabalho e do lazer para que se possa oferecer a bicicleta e a caminhada. E além da segurança viária das ciclovias, deve-se oferecer segurança pública para que mulheres e crianças sejam estimuladas a pedalar. Ninguém quer sair de casa já pensando se vai se estressar com invasores de ciclofaixas ou cruzar com gangues de ladrões de bici na volta para casa. Ninguém.

É muito bom que os técnicos do Governo Federal tenham reconhecido essa necessidade de reduzir o espaço e as vantagens do transporte motorizado individual e incluído no rol de ferramentas a criação de zonas de baixa emissão com restrições à circulação de veículos automotores mais poluentes e o uso de instrumentos regulatórios e fiscais para desestimular o uso de carros e motos nos centros urbanos. Tais medidas devem reequilibrar o sistema viário, hoje amplamente favorável aos automóveis, e abrir espaço a formas mais sustentáveis de deslocamento.

Outro eixo fundamental da estratégia está no próprio desenho das cidades. Para aproximar moradia, trabalho e serviços, é preciso incentivar a ocupação de áreas urbanas já consolidadas e com infraestrutura, além de direcionar a habitação de interesse social para regiões bem localizadas. Ao reduzir as distâncias dos deslocamentos cotidianos, a bicicleta se torna mais competitiva como meio de transporte, especialmente em trajetos curtos e médios.

A mobilidade ativa também aparece integrada a soluções baseadas na natureza, como parques lineares e corredores verdes, que podem funcionar como rotas mais seguras e agradáveis para ciclistas e pedestres. Essa combinação reforça a ideia de que pedalar não é apenas uma alternativa de transporte, mas parte de um modelo de cidade mais saudável e resiliente.

Para viabilizar as mudanças, o plano prevê a articulação com o Plano Nacional de Mobilidade Urbana e com a Política Nacional de Desenvolvimento Urbano, além da destinação de dinheiro público, incluindo emendas parlamentares, para financiar infraestrutura e serviços voltados à mobilidade ativa.

Uma boa alternativa para financiar essa transição seria incluir a mobilidade ativa como parte da estratégia de implementação da Tarifa Zero dos transportes públicos em conjunto com iniciativas do SUS para que pessoas sejam incentivadas a pedalar e andar como forma de prevenir diabetes e doenças do coração. Muito dinheiro seria economizado e as pessoas se tornaram mais felizes, pois quem se exercita todo dias está sempre mais disposto a enfrentar os desafios cotidianos. 

Se alguém achar que não dá, faça o favor de prestar atenção em Niterói (RJ). Por um trabalho consistente, a cidade conquistou o primeiro lugar na América Latina no ranking das cidades mais amigas da bicicleta do mundo, elaborado pela consultoria internacional Copenhagenize Design Company, em conjunto com o Instituto de Tecnologia e Inovação da União Europeia (EIT). O órgão é considerado o mais prestigiado levantamento mundial sobre políticas públicas de ciclomobilidade. Parabéns!

*Rogério Viduedo é jornalista de São Paulo e integrante do Programa de Jornalismo de Segurança Viária da Organização Mundial da Saúde. Cobre as áreas de segurança viária a mobilidade sustentável desde 2016. Em 2018, criou o site Jornal Bicicleta para cobrar autoridades por soluções eficientes para deslocamento da população. Recebeu o Prêmio Abraciclo em 2021 com a reportagem “Cultura da bicicleta se aprende na escola”.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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