Em 2024 escrevi o texto “Sobre gatilhos e Big Brother” e hoje retorno para falar sobre uma icônica participação negra no BBB 26. Nas duas edições, os personagens, sem letramento racial, encontraram estratégias baseadas em suas vivências para superar a inferiorização que foi imposta na casa pela maioria dos participantes.
A participação de Milena Moreira (Tia Milena) no Big Brother Brasil 26 transcende o entretenimento, revelando as tensões latentes do “dispositivo de racialidade” de Sueli Carneiro, que opera no tecido social brasileiro. Ao ocupar a casa, Milena não apenas jogou; ela inscreveu sua própria “escrevivência”, conceito de Conceição Evaristo que funde a escrita com a vivência de mulheres negras, borrando as imagens de passividade historicamente impostas.
Em um programa de televisão, a imagem e a ação substituem a palavra escrita. Milena “escreve” sua história por meio de seus gestos, de sua recusa em aceitar papéis pré-estabelecidos e de suas falas. Quando ela narra episódios de sua vida (como a vivência no abrigo, a realidade dura do trabalho doméstico infantil e o trauma no resort), ela está realizando uma narrativa oral que, ao ser transmitida para milhões, torna-se uma “escrita pública” de sua existência e resistência.
A mídia e a sociedade costumam ter um script pronto para mulheres negras: ou são as “‘mães pretas” cuidadoras, ou as “barraqueiras”. Ao agir de forma individual, por vezes contraditória, e recusar o papel de vítima, Milena rasura esse roteiro que esperavam dela.
Dentro da casa, Milena confrontou o que a intelectual Cida Bento denomina como “pacto narcísico da branquitude”: um mecanismo de preservação de privilégios onde pessoas brancas se protegem e silenciam o outro racializado. Episódios como os questionamentos sobre sua legitimidade ao prêmio, desumanização ao compará-la a objetos, questionamento sobre sua capacidade profissional e intelectual e ridicularização de seu corpo ilustram essa tentativa de confiná-la ao “não ser”, conceito emprestado de Sueli Carneiro.
Milena rompeu com a expectativa externa de uma militância performática. Sua postura de “não-vítima” e a afirmação de que não define suas relações pela cor da pele foram lidas como uma estratégia de autoafirmação e dignidade. Para o público que vota, essa resiliência sem o uso do trauma como moeda de troca gerou uma popularidade sólida. Milena provou que a identidade negra é múltipla e que o direito à individualidade é, por si só, uma forma de resistência ao dispositivo que tenta homogeneizar corpos pretos.
Diferente das dinâmicas de exclusão, a relação de Milena com Ana Paula Renault apresentou uma face positiva do antirracismo: o reconhecimento do privilégio seguido pela ação. Após críticas sobre a invisibilização de Milena em tarefas domésticas, que remetiam a memórias de servidão, Ana Paula demonstrou uma postura de escuta.
Essa amizade tornou-se um exemplo de como a convivência pode gerar um “letramento racial” prático. Ana Paula tornou-se uma aliada ativa contra as microagressões de outros participantes. Essa aliança reforça que o antirracismo por parte de pessoas brancas exige abandonar o conforto do silêncio para aprender com a vivência do outro, transformando a “escrevivência” de Milena em um aprendizado coletivo.
No BBB, cada minuto é gravado. Essas imagens tornam-se um documento histórico da vivência de uma mulher negra brasileira em 2026. Mesmo sem uma caneta, Milena está documentando as estratégias de sobrevivência, os afetos e as dores de sua raça e gênero. Como diz Evaristo, a escrevivência não é para “ninar os da casa-grande, mas para despertá-los de seus sonos injustos”. Cada vez que Milena confronta um participante, ela está “despertando” o público por meio de sua realidade vivida.
A trajetória de Milena no BBB 26 deixa um legado que desafia as estruturas de opressão por meio da sua simples e potente existência. Como diria Conceição Evaristo, “a gente combinamos de não morrer”, e Milena, ao sobreviver ao dispositivo de racialidade com altivez, reescreveu o script do que se espera de uma mulher negra em um reality show.


