Por Padre João e Leleco Pimentel
As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante e já impactam diretamente a vida no campo e nas cidades. Períodos prolongados de seca, intercalados com chuvas intensas e concentradas, têm provocado perdas na agricultura familiar, escassez hídrica, enchentes e o avanço acelerado da erosão do solo.
Diante desse cenário, soluções simples, acessíveis e em harmonia com a natureza tornam-se cada vez mais urgentes.
É nesse contexto que as barraginhas se afirmam como uma tecnologia social eficaz e estratégica para a adaptação climática. Consistem em pequenas bacias escavadas no solo, destinadas a captar e reter a água da chuva, permitindo sua infiltração gradual. Em vez de escoar rapidamente e provocar enxurradas, a água permanece no território, recarrega o lençol freático e contribui para a recuperação de nascentes e cursos d’água.
A difusão dessa tecnologia em escala nacional tem sido impulsionada pela atuação do nosso mandato de deputado federal, principal articulador político das barraginhas como política pública. Enfrentar a crise climática exige soluções que fortaleçam os territórios e não aprofundem desigualdades.
As barraginhas mostram que é possível enfrentar a crise climática com soluções simples, baratas e sustentáveis. Em vez de destruir a natureza com grandes obras, nós precisamos cuidar do solo e da água, fortalecendo a agricultura familiar e garantindo segurança hídrica para quem mais precisa.
O engenheiro agrônomo Luciano Cordoval, analista da Embrapa Milho e Sorgo, pioneiro e idealizador do projeto, ressalta que a iniciativa teve início no cerrado, na região de Sete Lagoas (MG) e, ao longo dos anos, expandiu-se para o cerrado mineiro e para o semiárido do Norte de Minas.
A expansão demonstra a versatilidade da tecnologia em diferentes biomas e sua eficácia em regiões historicamente afetadas pela escassez hídrica.
Além de enfrentar os efeitos da estiagem, as barraginhas também atuam na prevenção de enchentes e no controle da erosão, reduzindo o assoreamento de rios e córregos. Trata-se de “plantar água” como estratégia de convivência com os extremos climáticos, rompendo com o modelo de grandes obras que frequentemente gera impactos socioambientais negativos e exclui pequenos produtores.
Essa concepção está materializada no Projeto de Lei 3.715/2020, de nossa autoria, que propõe a criação do Programa Barraginhas como política pública nacional. A proposta busca integrar a tecnologia às ações de segurança hídrica, adaptação às mudanças climáticas e fortalecimento da agricultura familiar, ampliando o apoio técnico e institucional para sua implementação em todo o país.
Atualmente o projeto aguarda análise na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados. Aprovado, segue para o Senado.
Experiências já consolidadas indicam que as barraginhas apresentam baixo custo, rápida implantação e resultados duradouros. Não agridem o meio ambiente, dispensam estruturas complexas e contribuem para aumentar a resiliência das comunidades frente aos desafios impostos pela crise climática.
Em um momento em que o Brasil debate caminhos para enfrentar os impactos do aquecimento global, iniciativas como o Programa Barraginhas, evidenciam que é possível articular conhecimento científico, saberes populares e ação legislativa. Mais do que uma alternativa emergencial, elas apontam para um modelo sustentável de convivência com o clima, baseado no respeito à natureza, na justiça socioambiental e na soberania dos territórios.
Leleco Pimentel é deputado estadual pelo PT (MG) & Padre João é deputado federal pelo PT (MG)
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Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

