A celebração dos 46 anos do Partido dos Trabalhadores no dia 10 de fevereiro me fez refletir sobre como a minha própria história se mistura com a do partido. Ao revisitar essa trajetória coletiva, percebo que minha caminhada pessoal nunca esteve separada da luta política construída pelo PT desde sua fundação. Crescemos juntos, e isso é uma honra muito grande.
Aprendi cedo que ninguém transforma a vida sozinha. Foi na luta coletiva que me formei como mulher, educadora e militante. Participei de associação de moradores, das pastorais sociais da igreja, atuei na educação pública e me organizei no movimento sindical, na CUT. A filiação ao PT, ainda na década de 1980, foi consequência natural dessa vivência, e talvez eu não tivesse ideia do quanto aprenderia pela frente.
Em Montes Claros, o partido nascia organizado em núcleos de base nos bairros. Eu participava do núcleo da minha região antes mesmo das instâncias municipais. Discutíamos os problemas concretos da cidade, como moradia, uso e ocupação do solo, arborização e reflorestamento. Como professora e bióloga, a pauta ambiental sempre me interessou, e o PT dialogava com esses temas desde o início.
Nessa caminhada, existem diversas memórias marcantes. Uma lembrança que ainda me traz um entusiasmo muito grande é a da primeira vez que vi Lula em minha cidade. Ele ainda não era presidente. Lembro da praça cheia, dos ônibus vindos da região, de trabalhadores e trabalhadoras que saíam da roça para ouvir aquele metalúrgico que falava a linguagem do povo.
Ali estava a esperança organizada. Lula representava resistência e dignidade para quem conhecia a dureza da vida.
Em minha juventude, não tinha como projeto pessoal ocupar cargos políticos. Nesta época, eu coordenava a campanha de companheiros e companheiras do movimento sindical e do movimento negro, mas percebemos que era necessário ir além, com mais representação de pessoas negras no nosso palanque. Meus companheiros e minhas companheiras de partido acreditaram que eu poderia ser uma boa opção como candidata, e acabei sendo uma das mais votadas.
Depois segui na educação e na militância, longe das disputas eleitorais. Mas o caminho se faz no caminhar, e meu destino voltaria a cruzar o das urnas.
Em 2016, duas décadas depois, voltei à linha de frente em circunstâncias inesperadas. Durante a convenção partidária, a coligação foi inviabilizada e o PT ficou sozinho. Aceitei compor como vice-prefeita. Dias depois, o candidato a prefeito não pôde seguir com o projeto e me senti corajosa em assumir a cabeça da chapa. Fizemos uma campanha popular e surpreendemos a cidade. Foi a prova de que, quando a militância acredita, ela sustenta o sonho.
Minha trajetória não nasceu do privilégio. Tive minha primeira cama aos 21 anos, depois de dormir anos no chão. Venho de família pobre e sei o que significa a ausência do Estado na vida das pessoas. Talvez por isso eu nunca tenha imaginado ocupar o Parlamento. Mas a política, quando é instrumento coletivo, transforma destinos, e por isso sempre acreditei tanto no partido que escolhi para mim.
O PT chega aos 46 anos com uma história que mudou o Brasil, ampliando direitos, combatendo a fome e criando oportunidades para milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, precisa permanecer fiel às suas origens populares. O Brasil continua profundamente desigual e enfrenta novos desafios, como a emergência climática e a injustiça ambiental, que atingem principalmente os mais pobres.
Enquanto houver desigualdade, haverá necessidade de organização popular. Vejo o PT como um movimento vivo, um lugar que forjou a minha vida e a de tantas pessoas, que busca se renovar com novas pautas e novas lideranças, sem perder sua raiz. Minha história é apenas uma entre tantas que mostram que, quando o povo se organiza, a transformação se faz real.
Celebro hoje e sempre, os 46 anos do maior partido da América Latina, do qual faço parte, construindo meu próprio caminho e pavimentando o de tantas outras pessoas!
Leninha é bióloga, mestre em Desenvolvimento Social (Unimontes) e está em seu segundo mandato como deputada estadual. É uma mulher negra, periférica e trabalhadora e constrói sua trajetória de vida e luta a partir das bases populares, com raízes profundas no Norte de Minas. É a primeira vice-presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e atual presidente do Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais (PT MG).
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

