Nas últimas semanas, o mundo soube que Elon Musk se tornou o primeiro trilionário da história. Sua fortuna ultrapassou US$1 trilhão, impulsionada principalmente pela valorização de empresas das quais é proprietário, como a Tesla e a SpaceX. Em outras palavras, o mercado passou a atribuir a essas empresas um valor cada vez maior e, como Musk detém uma parcela significativa delas, sua riqueza cresceu junto.
É uma fortuna que existe não apenas em dinheiro disponível na conta bancária, mas sobretudo no valor das ações e participações empresariais que ele controla. Ainda assim, esse é um número tão gigantesco que desafia qualquer tentativa de compreensão.
Vamos tentar. Se Musk gastasse um milhão de dólares por dia, levaria 2.740 anos para terminar sua fortuna. Em um único ano, ele acumulou o equivalente a mais de R$293 milhões por hora. Enquanto isso, no Brasil, 20% da população sobrevive com menos de R$600 por mês. Essa diferença brutal não é uma coincidência, é parte de um sistema que passa, literalmente, pelo chão de Minas Gerais.
As empresas que tornaram Musk trilionário dependem de minerais que estão em grande parte sob os nossos pés. O Brasil detém 94% das reservas mundiais de nióbio e é a segunda maior reserva de terras raras do planeta. O Vale do Jequitinhonha, que tanta gente de fora insiste em ver como uma região pobre, tem grandes reservas de lítio que abastece as baterias dos carros elétricos da Tesla, uma das empresas de Musk.
O minério é retirado das montanhas por trabalhadores explorados que respiram poeira de sílica, desenvolvem doenças sem cobertura adequada e recebem o mínimo pelo que move bilhões lá fora. Esse material sai daqui em navio, volta processado em produtos importados, mas o trabalhador das minas de regiões como Araçuaí e Coronel Murta, onde vou com frequência, jamais verá a cor desse dinheiro. Isso tem nome: é o modelo primário-exportador de sempre, com embalagem tecnológica nova, travestido de desenvolvimento sustentável.
A riqueza pública por trás da fortuna privada
Há outros detalhes que os admiradores de Musk costumam esquecer. O primeiro deles é que o trilionário já nasceu com muitos privilégios, vindo de uma família de classe média alta em Pretória, na África do Sul, o que possibilitou que ele cortasse um grande caminho rumo à riqueza.
A segunda é que, ao longo de sua vida, boa parte dessa fortuna foi construída com dinheiro público. Entre suas empresas, a SpaceX existe graças a contratos com a NASA e o Pentágono. Já a Tesla foi viabilizada por subsídios governamentais. Musk não é um gênio que saiu do zero. É um empresário que começou sua vida já no andar de cima da pirâmide, e foi hábil em capturar recursos do Estado e convertê-los em acumulação privada.
No Brasil, a lógica é a mesma. O trabalhador de cidades comuns, como Contagem ou de Montes Claros, paga Imposto de Renda todo mês, descontado na folha, sem escapatória. O grande acionista, não. Discutimos a tributação de grandes fortunas há anos e avançamos muito nos últimos tempos, com o projeto de lei que propõe regulamentação do tributo sobre grandes fortunas no Brasil, mas o sistema fiscal continua onerando proporcionalmente mais quem ganha menos.
O Brasil que a desigualdade constrói
Os dados do IBGE de 2026 são constrangedores: os 10% mais ricos concentram 40,3% de toda a massa de rendimentos do país, mais do que os 70% mais pobres juntos. Não é falta de riqueza, e sim de distribuição.
O Brasil é um país rico com muita gente pobre. Temos o subsolo mais valioso do mundo numa era em que minerais críticos valem ouro. Temos energia renovável, biodiversidade, território, povo trabalhador. O que falta é uma política que coloque esse patrimônio a serviço do povo, e não apenas das exportações de commodities, como minério, café, lítio e milho.
Mas a notícia da presença de um trilionário entre nós não deveria nos paralisar de admiração e sim nos provocar a agir em três frentes urgentes: a soberania mineral, a tributação adequada e a democracia.
Precisamos de uma Política Nacional de Minerais Críticos que exija o beneficiamento em território nacional e distribua os royalties de forma justa para quem vive sobre essas reservas. Elas têm fim e isso precisa ser pensado e debatido junto das comunidades localizadas nestes territórios.
Precisamos de uma tributação justa. Um imposto de 10% sobre a fortuna de Musk, só dele, seria suficiente para erradicar a pobreza extrema global por um ano inteiro. Se isso é possível no papel, o que nos impede de adotar medidas parecidas aqui?
Precisamos também fortalecer a democracia em todos nossos atos. Musk não é apenas um empresário rico. Ele comprou uma plataforma de comunicação global, financiou campanhas e elegeu presidentes. A concentração de riqueza nessa escala é uma ameaça à democracia em qualquer lugar do mundo, inclusive aqui.
O primeiro trilionário da história é o sintoma mais agudo de um sistema que acumula em cima enquanto a maioria luta embaixo. O Brasil tem tudo para construir outro modelo, mas isso exige de nós coragem política, soberania sobre nossos recursos e disposição de taxar quem tem muito para investir em quem tem pouco.
Essa é a disputa do nosso tempo. E ela acontece também aqui, de onde vem boa parte dos trilhões de um homem só.
Leninha é bióloga, mestre em Desenvolvimento Social (Unimontes) e está em seu segundo mandato como deputada estadual. É uma mulher negra, periférica e trabalhadora e constrói sua trajetória de vida e luta a partir das bases populares, com raízes profundas no Norte de Minas. É a primeira vice-presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e atual presidenta do Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais (PT MG).
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

