Leonardo Boff

Filósofo, teólogo, professor aposentado de Ética da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, professor visitante em diversas universidades europeias, possui títulos de doutor honoris causa e escritor de cerca de 100 livros. Twitter e Facebook: @LeonardoBoff, Blog: leonardoboff.wordpress.com

A hospitalidade: contra a expulsão por Trump dos imigrantes nos EUA

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Trump assinará no feriado nacional de 4 de julho medida que aumentará repressão contra imigrantes.
Trump assinará no feriado nacional de 4 de julho medida que aumentará repressão contra imigrantes. | Crédito: Imagem: Jim Watson/AFP

E os mais velhos repetem a lição até os dias atuais: quem hospeda o peregrino, o estrangeiro, o migrante, o refugiado e o pobre hospeda anonimamente a Deus.

A violência que o governo de Donald Trump está aplicando a imigrantes estrangeiros indocumentados, caçando-os nas ruas, nas escolas, nas fábricas e até nas igrejas, nos faz refletir sobre a hospitalidade. A Terra é um bem comum da humanidade. Em princípio, todos poderiam se movimentar dentro dela com o direito de serem hospedados pelos semelhantes e estes com o dever de hospedá-los, pois, todos são iguais e cidadãos da única Casa Comum. Mas isso não acontece.

Servimo-nos de um dos mais belos mitos da cultura grega, transmitido para a posteridade pelo poeta romano Ovídio (43-37 d.C) em sua Metamorfoses, que consagra a alta virtude da hospitalidade.

“Certa vez Júpiter, pai-criador do céu e da terra, e seu filho Hermes, princípio de toda comunicação — donde vem a palavra hermenêutica — resolveram disfarçar-se de pobres. Decidiram vir ao reino dos mortais para ver como ia a criação que haviam posto em marcha. Júpiter depôs toda sua glória e Hermes desfêz-se das duas asas, seu símbolo maior. 

Passaram por muitas terras e encontraram muita gente. Pediam ajuda a uns e a outros. Ninguém lhes estendia a mão. Recebiam maus tratos e ouviram palavras ofensivas. Várias vezes foram afastados das portas com violência. Muitos sequer os olhavam. Era o que mais lhes doía: não serem sequer olhados, como se fossem cães lazarentos. Por isso, passaram fome e toda sorte de privações. 

Depois de sentirem-se alijados por todos, o que mais desejavam era água fresca para beber, um prato de comida quente, aliviar os pés com água morna e uma cama para repousar os corpos. Sonhavam com a hospitalidade mínima! 

Até que um dia, chegaram à Frígia, província das mais longínquas e pobres do Império Romano, lugar para onde eram desterrados rebeldes e criminosos. Ai vivia um casal muito pobre. Ele se chamava Filêmon, em grego, “amigo e amável”, e ela, Báucis, “delicada e terna”. 

Sobre uma pequena elevação construíram sua choupana, rústica, porém, muito limpa. Foi lá que, ainda jovens, uniram seus corações. O intenso amor tornava leve a pena. Viviam em grande paz e harmonia, pois um auxiliava sempre o outro. Quem mandava era também quem obedecia. Estavam já velhinhos, cansados de trabalhos e de dias.

Eis que chegaram à choupana, Júpiter e Hermes, disfarçados de pobres mortais. Bateram à porta. Qual não foi a surpresa deles quando o bom velhinho Filêmon, sorridente, apareceu à porta e, sem muito reparar, foi logo dizendo: “Forasteiros, vocês devem estar muito cansados e com fome. Venham, entrem em nossa casa. É pobre, mas está pronta para hospedá-los”.

Os imortais tiveram que abaixar-se para entrar. Dentro, sentiram a boa irradiação da hospitalidade. Báucis, a “delicada e terna”, logo se apressou em lhes oferecer duas cadeiras. Na verdade, dois tamboretes de madeira rústicos. E foi buscar água fresca da fonte, atrás da choupana.

Filêmon, por sua vez, começou a reanimar o fogo, quase apagado. Tomou raminhos finos e pedaços de lenha maiores, os colocou por sobre as brasas ardentes e ajeitou a panela com água para aquecer. Dentro de pouco a água já estava morna.

Báucis com seu avental remendado começou a lavar os pés de Júpiter e de Hermes, jogando água morna pelas pernas até perto do joelho para que se aliviassem de verdade.

Filêmon foi à horta atrás da choupana e colheu algumas folhas e legumes, enquanto Báucis tirava do alto, onde estava dependurado numa vara, o último pedaço de toucinho que restara. Estavam até pensando em sacrificar o único ganso que tinham, aquele que guardava a pobre choupana. Mas os imortais o impediram com determinação. Seus olhos, entretanto, se comoveram às lágrimas.

Numa antiga panela de barro, cozinharam os legumes com o toucinho. Um cheiro bom de comida caseira se espalhava pela choupana.  

Báucis tomou do azeite turvo e grosso que eles mesmos faziam, e o deitou por sobre a sopa. Grandes olhos de azeite espreitavam na superfície. Depois que tirou a panela, tomou alguns ovos e os meteu sob a cinza quente. Filêmon se lembrou do vinho que jazia numa vasilha empoeirada no canto da casa, guardado como remédio.  Haviam sobrado ainda alguns pedaços de pão do dia anterior. Aqueceram-nos na borda do fogão.

A hospitalidade e a aura benfazeja do lugar fez esquecer a demora. E de repente tudo estava sobre a mesa em pratos limpos.

“Queridos hóspedes, vamos comer, pois vocês o merecem depois de tantas canseiras. Perdoem simplicidade e a pobreza da cozinha”.

E para não constrangê-los, Báucis e Filêmon, embora tivessem já comido,  sentaram-se também à mesa para cear com eles.

Em seguida, Báucis e Filêmon se levantaram, tiraram nozes, figos secos e tâmaras de um baú, suporte dos pratos e das velas, e os serviram como sobremesa. 

Por fim, os dois velhinhos ofereceram sua própria cama, a única que havia na choupana, para dormirem. Juntos puseram-se logo a arrumá-la. Colocaram lençóis limpos, embora visivelmente gastos. Estenderam por sobre o leito um velho tapete que guardavam para as festas. Júpiter e Hermes não se aguentavam de comoção. Lágrimas brotaram em seus olhos.

Instados a recolher-se, Júpiter e Hermes se dirigiram para a cama. Eis senão quando, sobreveio grande e inesperada tempestade. Raios e trovões iluminaram a choupa e ribombavam pelo vale afora. Num instante, as águas subiram ameaçando pessoas e animais.

Desculpando-se junto aos visitantes, Báucis e Filêmon se levantaram apressados para ir socorrer os vizinhos. 

Foi então que ocorreu a grande metamorfose. Repentinamente, a tempestade cessou. E num abrir e fechar de olhos a choupana foi transformada num luzidio templo de mármore. Colunas em estilo jônico enfeitavam a entrada. O teto de ouro reluzia como o sol recém saído das nuvens. Júpiter e Hermes finalmente mostraram quem eram: divindades no pleno esplendor de sua glória.

Filêmon e Báucis ficaram estarrecidos, cheios de alegria e ao mesmo tempo de temor reverencial. Puseram-se de joelhos, inclinando a cabeça até o solo em sinal de adoração. 

Júpiter, senhor do céu e da terra, do sol e dos ventos, depois de ter aplacado a tempestade, bondosamente, disse: “‘Amigo e amável’ Filêmon, ‘delicada e terna’ Báucis, façam um pedido que eu, Júpiter, em agradecimento, quero atender”.

Báucis inclinou-se para Filêmon e colocou a cabeça encanecida sobre seu peito.  E, como se tivessem previamente combinado, disseram unissonamente: “O nosso desejo é de servir-vos nesse templo por todo o tempo  que nos resta de vida”.

E Hermes acrescentou: “Eu também quero que façam um pedido em agradecimento pela hospitalidade”.

E eles, novamente, como se tivessem combinado sussurraram conjuntamente: “Depois de tão longo amor e tanta concórdia, gostaríamos de morrer juntos. Assim não precisaríamos cuidar da sepultura de um e do outro”.

Seus votos foram ouvidos e receberam a promessa de cumprimento. 

De fato, Filêmon e Báucis, os esposos hospitaleiros, serviram por muitos anos no templo, pelo tempo em que durou sua respiração.

Certo dia, sentados à tardinha no átrio, recordavam a história do lugar, de como, sem saber, hospedaram os deuses em sua choupana. Nesse momento Filêmon viu que o corpo de Báucis se revestia de ramos e flores, da cabeça aos pés. E Báucis viu também que o corpo de Filêmon se cobria todo de folhagens verdes. 

Mal puderam balbuciar juntos o derradeiro adeus porque se completou a grande metamorfose: Filêmon foi transformado num enorme carvalho e Báucis numa frondosa tília. Suas copas e galhos se entrelaçaram no alto. E assim abraçados ficaram unidos para sempre.

Quem passar por aquela região da Frígia, atualmente a Turquia, ainda hoje ouvirá esta fantástica história contada de geração em geração. Poderão ver as duas árvores centenárias, lado a lado, com as copas e os galhos entrelaçados. Elas lembram o amor de Filêmon e de Baucis, esse casal hospitaleiro e a metamorfose que conheceram por causa de sua hospitalidade. 

E os mais velhos repetem a lição até os dias atuais: quem hospeda o peregrino, o estrangeiro, o migrante, o refugiado e o pobre hospeda anonimamente a Deus.

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreve para a revista LIBERTA; A nova visão do universo: de onde viemos? Animus-Anima, Petrópolis 2025;

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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