Leonardo Boff

Filósofo, teólogo, professor aposentado de Ética da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, professor visitante em diversas universidades europeias, possui títulos de doutor honoris causa e escritor de cerca de 100 livros. Twitter e Facebook: @LeonardoBoff, Blog: leonardoboff.wordpress.com

Não tememos a noite sombria de nosso tempo porque amamos as estrelas

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Alto Paraíso de Goiás (GO) - Detalhe do orvalho em folhas ao amanhecer no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Detalhe do orvalho em folhas ao amanhecer no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sabidamente a história da vida não é linear. Ela dá saltos. O improvável pode se fazer provável.

Atualmente, são muitos que perderam a esperança de que, no sinistro quadro atual, tenhamos ainda algum futuro. Há demasiada maldade, genocídio a céu aberto vergonhosamente feito por aqueles que o praticam, Israel e os Estados Unidos da América, ainda escandalosamente apoiados por alguns países europeus, nomeadamente pela Alemanha, esquecida do holocausto nazista.

Assistimos, estarrecidos, uma grande nação, aquela que dispõe de mais meios de destruição em massa e até de aniquilação da vida sobre a Terra, a Rússia, arrasar uma nação vizinha com grandes tradições culturais e os famosos e sábios contos rabínicos, a Ucrânia. Terrível está sendo a guerra dos EUA e Israel contra o Irã, destruindo uma das civilizações mais antigas com uma ferocidade que não escolhe seus alvos, tudo é atacado, incluindo escolas de meninas.

Acresce ainda a absurda acumulação de fortunas em pouquíssimas mãos, pois 8 pessoas possuem individualmente a riqueza equivalente a de 4,7 bilhões de pessoas. Nestes não se nota nenhuma sensibilidade humana face a seus semelhantes, tratando-os como zeros econômicos, descartáveis e sub-humanos: os milhões que vivem nas periferias das grandes cidades do Norte Global (só nos EUA vivem 30 milhões de pobres) e enchem as metrópoles do Sul Global.

Abstenho-me fazer referência à grave ameaça da Sobrecarga da Terra, com severos limites da produção de bens e serviços que sustentam a vida (precisamos hoje já de 1,7 Terras). E ao crescente aquecimento global do planeta Terra, que se até 2030-2035 não for detido no máximo de crescimento de 1,5ºC, com referência à era industrial (1850-1900), causará uma inexorável dizimação de vidas na natureza e na humanidade.

Como ainda ter esperança num drama destas proporções? Entendemos as preocupações de analistas do curso do mundo que dizem: não é impossível que tenha chegado a nossa vez de desaparecer do processo da evolução, como centenas e centenas de espécies já desapareceram, depois de milhões de anos sobre a Terra.

Por isso sou pessimista, porque a realidade é péssima. No entanto, me declaro um pessimista esperançoso. Esperançoso porque se somos Terra que sente, pensa, ama e venera, temos a resiliência que a Terra mostrou nas 15 dizimações de vidas que sofreu ao longo de sua história de 4,5 bilhões de anos. A vida nunca sucumbiu. Depois de cada dizimação, atestam vários historiadores da vida da Terra como Christian de Duve (Poeira cósmica: a vida como imperativo cósmico, 1995) ela, como que se vingando, produziu uma biodiversidade maior do que aquela que foi ceifada. 

Como dizia o poeta elemão Friedrich Hölderin, “lá onde há perigo, cresce também o que salva” (“wo aber Gefahr ist, wächst auch das Retende”). O nosso perigo é inegável. Mas considerando que o ser humano é um projeto infinito, dotado de mil virtualidades, ele saberá face ao grande perigo forjar chances de salvação.

Sabidamente, a história da vida não é linear. Ela dá saltos. O improvável pode se fazer provável. E o inesperado pode acontecer. Era seguramente improvável que um negro, dada a discriminação que sempre sofreu pelos supremacistas brancos, chegasse à Presidência dos EUA. Barack Obama chegou. Quem poderia imaginar que, numa sociedade machista como a brasileira, uma mulher se tornasse Presidenta do Brasil? E Dilma Roussef se tornou.

Tenho a convicção que animava o paleontólogo e místico Pierre Teilhard de Chardin de que a humanidade, num momento grave de sua história, especialmente sabendo que poderá se autodestruir, cairia em si e se daria conta de seu lugar no conjunto dos seres e de sua responsabilidade pelo futuro da vida. Daria um salto quântico em sua consciência e definiria um outro rumo à sua história. Far-se-ia a guardiã e a cuidadora de sua sagrada herança, a Terra, e de todos os seus ecossistemas com os seres que neles habitam. Perceberia que é parte e parcela da natureza, confraternizada com os demais irmãos e irmãs nela presentes. Amaria e ornaria a Casa Comum na qual todos caberiam com suas diferenças, mas numa profunda unidade.

Isso está dentro das possibilidades humanas. Somos seres naturalmente cooperativos e sensíveis face aos mais vulneráveis. Em nosso profundo, como dado objetivo, atestado pela new science, somos seres espirituais, capazes de identificar aquela Energia de Fundo (Aquele Ser que faz ser todos os seres) que tudo penetra e sustenta. James Watson comprovou que em nosso DNA está o amor, a força maior do universo (DNA: o segredo da vida, 2005). Com todas estas positividades vamos ainda fazer uma dolorosa travessia até chegarmos a uma forma amorosa e fraterna de convivência.

Não estamos diante de uma tragédia anunciada, mas no coração de uma crise de nossos fundamentos que vai nos acrisolar, purificar e permitir um salto, habitando um mundo que juntos podemos fazer existir sustentavelmente. Depende de nós impedirmos que as atuais crises virem tragédias. 

Por isso, não tememos a noite sombria de nosso tempo, porque amamos as estrelas, nossas irmãs. Esperamos a aurora que se anuncia.

*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreve para a revista LIBERTA; A nova visão do universo: de onde viemos? Animus-Anima, Petrópolis 2025;

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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