Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

“É 0800 pra mim, tá ok?”

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Entidades lançam Dossiê Contra o Pacote do Veneno e em Defesa da Vida no Armazém do Campo de Porto Alegre | Crédito: Divulgação

Dossiê expõe fatos, causas e consequências. Denuncia, documenta e anuncia, propõe alternativas

Nesta semana, Bolsonaro passou uns dias em Dubai. Lugar lindo, parece a terra do Aladim, do Ali Babá. A comitiva deve ter adorado, apesar da agenda algo confusa. Pelo que consta, nosso representante máximo teria almoços com um príncipe, um sheik, um emir e um rei. Visitas aos pavilhões “da Embraer” no Dubai Airshow, e “do Brasil”, na Expo Dubai. Uma participação na abertura do Fórum Brasil de Investimentos e na inauguração de um prédio de embaixada. E para finalizar, uma não menos relevante visita a um estádio de futebol. Lugar onde, tudo indica, parte da boiada irá ver nosso escrete bater bola na Copa de 2022.

Quais os resultados e os custos desta viagem? Não consegui descobrir. Mas com certeza alguns deputados vão acabar descobrindo. Barato não foi. Afinal, ele levou a esposa, dois filhos e vários amigos. Comida cara, hotel caríssimo. Tá na imprensa que ali as diárias podem custar até R$ 83 mil. Felizmente Bolsonaro, homem sensível, ocupou uma suíte modesta. Bom pra todos já que a diária, de R$ 45 mil, teria ficado por conta da casa. No linguajar sensível de nosso presidente, foi boca livre: “É 0800 pra mim, tá ok?”.

Acontece que na mesma semana, Luís Inácio Lula da Silva andou discursando no Parlamento Europeu, e foi aplaudido em pé. Falou também na Espanha, em Seminário Internacional sobre “Cooperação Multilateral e Recuperação Regional Pós-Covid-19”, recebendo ampla cobertura e destaque da mídia, nos principais jornais europeus. E aqui? Na grande mídia, quase nada.

Pois bem, a discrepância entre a importância daqueles fatos, Lula lá, Bolsonaro acolá, e o tratamento dado a eles, merece atenção. É algo triste, mas tão comum que são inúmeros os exemplos.

Vejamos a desproporção entre “coisas” veiculadas no AGRO É POP (“as abelhas são agro”), prestidigitações em relação à supostas vantagens de agrotóxicos claramente responsáveis pelo colapso das colmeias, e suas omissões em casos tão relevantes como posições do STF sobre a proibição de pulverizações aéreas (de agrotóxicos) no estado do Ceará.

Nesta semana, quase na surdina, a ministra Carmem Lucia votou contra derrubada de lei estadual que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos, no Ceará. Mais grave, ela foi seguida naquele voto, pelo ministro Fachin. Para piorar o frenesi da bancada ruralista, já de cabelo em pé, a ministra ainda apoiou seu voto em argumentos do Dossiê Abrasco.

Pois tem mais. Nesta semana, a Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), em parceria com a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e com apoio da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), da Fiocruz, do Instituto Ibirapitanga e de mais de uma centena de pesquisadores, associações e entidades ambientalistas, lançaram um novo Dossiê, no Armazém do Campo de Porto Alegre.


O Dossiê é instrumento de luta a ser utilizado em todas as frentes por onde se pretenda reconstruir a ética, a moral, a solidariedade e a saúde humana e ambiental inerentes a este país / Divulgação

Intitulado Contra o Pacote do Veneno e em Defesa da Vida, este documento traduz em miúdos o choque entre dois projetos de lei que tramitam na Câmara Federal, e que sendo do interesse do povo e da nação, recebem atenção muito desigual por parte da mídia corporativa e outros espaços a serviço do capital e contra a vida.

Um destes projetos, oriundo da Bancada Ruralista, agrega vários outros que no todo propõem eliminação dos mecanismos de proteção ambiental, facilitando o uso de venenos e ocultando suas implicações. Este é o PL 6299/2002, e pelo fato de reunir maldades que vêm sendo sugeridas por ecocidas, desde 2002, mereceu o apelido de “pacote do veneno”.

O outro, oriundo de organizações sociais e da comunidade científica independente (PL nº 6.670/2016) institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos – PNARA. Este projeto propõem a criação de mecanismos para conscientização, prevenção, correção, recuperação, monitoramento e responsabilização de danos relacionados ao uso de agrotóxicos no Brasil. Também propõem mecanismos para expansão da agroecologia, da pesquisa e da educação ambiental.

Pois é este choque de intencionalidades, entre grupos que se colocam a favor ou contra a vida, que está esmiuçado no Dossiê Contra o Pacote do Veneno e em Defesa da Vida.

Dito de outra forma: aí está uma publicação que deve ser interpretada como instrumento para enfrentamento e superação da alienação que nos mantém como sociedade cativa, rumo ao sacrifício de gerações. Nossa água está sendo contaminada em todas as fontes e aquíferos. Nossos alimentos, nossos solos, nossos biomas, envenenados. A democracia e as instituições públicas, desmoralizadas. Cientistas que apontam evidências inegáveis, de danos que comprometem a saúde de muitas gerações, são perseguidos/as e difamados/as. Ativistas que se empenham em defesa da vida, são criminalizados/as.

Com isso, avançam o obscurantismo, o medo, a fome e as chuvas de veneno.

Pois bem, este novo Dossiê expõe fatos, causas e consequências. Denuncia, documenta e anuncia, propondo alternativas viáveis.

Se trata de instrumento de luta a ser utilizado em todas as frentes por onde se pretenda reconstruir a ética, a moral, a solidariedade e a saúde humana e ambiental inerentes a este país.

A quem isso não interessaria?

Com certeza, aos líderes negacionistas e a seus serviçais, tanto aos tolos como aos oportunistas.

Também não interessa aos conglomerados do agronegócio, dos agrotóxicos, da big-farma, seus acionistas, seus capitães de mato, leões de chácara e capachos em geral.

Com certeza também não há de interessar aos que se pensam como príncipes, reis, sheiks ou fantasias de qualquer tipo.

Felizmente espaços como o Armazém do Campo, ministros como a Carmen Lucia, líderes como o Lula e livros como este dossiê estão aí, para nos estimular a ir em frente, com a certeza de que o tempo daquela gente danada, já vai passar.

A música, de Sérgio Sampaio – Meu pobre blues

 

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko

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