O aquecimento global chegou, com todas as implicações que prometia. Daqui para a frente aquelas dificuldades que pareciam frutos do acaso, tragédias destinadas a se abater sobre alguns desafortunados, vão se colocar num crescente, como realidade inevitável para todos. A produção de alimentos vai se reduzir e a água vai desaparecer de vastas regiões. Com as geleiras derretendo, os rios secando, as florestas queimando e a miséria se espalhando, surgirão novas doenças. As migrações de massas desesperadas, que hoje são vistas como ocasionais, se transformarão em hordas bárbaras. Se avizinha um período de união e solidariedade, contra o caos, ou de maldades e violências abusivas, patrocinadas por regimes ditatoriais.
É claro que isso não anuncia o fim do mundo, ou a extinção da humanidade. Mas também é evidente que estamos vendo emergir uma nova era. Daqui para a frente, o que fizermos ou deixarmos de fazer determinará o contorno e a essência de novos arranjos civilizatórios. E sem dúvida, vamos colher o que está sendo semeado.
As alternativas, que hoje muitos parecem acreditar que dependem de algum milagre divino, ou que poderão ser alcançadas individualmente com reservas de poupança e aposentadorias, ou através da fuga para uma casa no campo, para uma ilha, ou para marte, são tolas. Não será por aí que protegeremos os nossos. Também não haverá segurança ou proteção em com casas subterrâneas ou em comunidades fechadas, com muros altos e armamentos de defesa pessoal.
As alternativas do futuro, como já aconteceu em todas as crises do passado, dependerão de alteração nas forças que causam os problemas. Dependerão de mudanças reais. De revisão nas condutas, de empenhos coletivos e -principalmente- de sacrifícios que hoje parecem inaceitáveis, embora óbvios: será necessário cortar desperdícios e acabar com a concentração de benefícios aqui e ali, às custas da degradação do ecossistema global.
E isso, para funcionar, vai exigir a construção de lideranças capacitadas a orientar movimentos coletivos no rumo da construção do novo, antes da destruição completa que as guerras hibridas estão propondo, para tudo isso que está aí.
E este é o ponto.
Precisamos de lideranças locais articuladas com lideranças globais, num compromisso de cumplicidade generosa capaz de semear e fazer prosperar a convicção de que cabe às pessoas e aos povos de regiões onde a crise ainda não é acachapante, contribuir para a superação dos sacrifícios impostos aos habitantes daquelas zonas de sacrifício observadas de início e de forma mais aguda em determinadas partes do planeta.
Está se fazendo necessária uma mudança comportamental que naturalize a mobilização coletiva, de vizinhos próximos, em auxílio a vizinhos distantes. Algo como os pelotenses se empenhando em colaborar para superação da tragédia vivenciada pelo povo de São Lourenço, da mesma forma em que tantos brasileiros acudiram ao povo gaúcho, e como se espera dos cidadãos do mundo, em relação aos povos das florestas invadidas e aos habitantes da faixa de Gaza.
Se há um caminho para a salvação, ele passa pela evolução da consciência humana, pela geração de algo que nos comprometa com o atendimento deste tipo de necessidade. Entretanto, e até porque as mudanças já parecem estar acontecendo, as transformações individuais serão insuficientes.
Para que isso funcione, vamos precisar de lideranças comprometidas com a construção coletiva de um novo mundo.
E quanto a isso, o que temos?
O presidente dos Estados Unidos da América do Norte, por exemplo?
Ora, em seu negacionismo do aquecimento global, Trump já abafou relatórios sobre o clima, demitiu responsáveis e desmontou o sistema de acompanhamento e antecipação de medidas para minimização de danos) relacionadas às emergências climáticas. Ao mesmo tempo, em suas medidas para enfrentamento das epidemias, ele acabou com as agências de vigilância sanitária e demitiu os responsáveis pelo centro de controle de zoonoses e imunização para casos de doenças respiratórias. Está atacando os médicos sem fronteiras, perseguindo organizadores do programa mais médicos e trabalhando pela inviabilização do uso dos “remédios genéricos”, que a partir da adaptação de formulações patenteadas por empresas norte americanas, hoje salvam a vida milhões de pessoas.
Para evitar problemas de comunicação com a sociedade, ele vem amordaçando as universidades, alterando livros de história e bloqueando caminhos construtivos da consciência em todos os níveis do sistema educacional norte americano. Quem reclame, queime a bandeira dos EUA, ou faça qualquer coisa associada ao desejo de resistência a seus abusos, está sendo catalogado como inimigo do Estado, e ameaçado, no mínimo, de prisão. Contando com 6 dos 9 juízes da Suprema Corte norteamericana (o STF deles), aquele modelo de liderança despreza os limites da civilidade e está acelerando uma máquina de guerra contra a vida, que nos ameaça a todos.
Portanto, ele não nos serve.
Além disso, o sucesso de sua proposta de dominação global, não depende só dele. Depende também de nós, suas vítimas potenciais, assim como depende dos outros candidatos a liderar o futuro.
E aí, convenhamos, temos o Lula.
O que ele está fazendo?
Por um lado, está liderando discussões sobre a necessidade de uma nova força de articulação internacional, com legitimidade e voltada à superação da fome, ao combate ao aquecimento global, à transição energética, à construção da paz. Ele pode conseguir isso? Sozinho, não pode. Mas está dando exemplos que talvez resultem na reformatação da Organização das Nações Unidas (ONU). E com mais países participando daquele grupo onde são tomadas as grandes decisões, daí sim, será possível construir o que as organizações sociais já apontavam nos fóruns sociais mundiais, como a globalização da esperança. O fato é que ou fazemos nossa parte, em direção a isso, ou veremos surgir algo como o inferno de uma era Mad Max, acompanhada pela emergência de ditaduras de todo o tipo, em todos os locais.
É claro que os avanços no rumo de um consórcio de nações exigirão a redução e a repartição do poder do Império Norte Americano.
E como Lula se coloca na posição de elemento de resistência, eles tratarão de eliminá-lo. Farão isso usando os mecanismos de descredibilização e, se não funcionarem, contratarão mercenários locais com seus punhais verde-amarelos. No limite, se acreditarem que seus problemas serão resolvidos eliminando algumas pessoas, com certeza usarão venenos ou bombas.
Afinal, o que eles querem é impedir alterações no sistema de rapina que os beneficia. Para isso precisam de gente como Bolsonaro, pessoas dispostas a colaborar com a drenagem de riquezas e com o controle, por parte do império, das negociações que definem as relações entre países. Uma vez que as nações passem a efetuar trocas comerciais em outras moedas que não o dólar, se erodirá o poder daquela economia que hoje rouba uma parcela de cada centavo circulante em 90% de todas as transações globais. Não seria necessário lembrar, mas assim como as nações, todos os lobistas, chantagistas, e criminosos de alto nível operam com dólares. Aí estão as descobertas de dólares em pastas, maletas e até em gavetas de cuecas, sendo denunciadas a toda semana. Em escala mundial isso leva àquela situação incrível, mas dolorosamente real, de que 80% do comercio mundial e perto de 60% das reservas de todos os Bancos Centrais do planeta estão escoradas em um papel que apenas os norte-americanos podem imprimir.
Portanto, nada mais fácil de entender do que o desespero de Trump diante de acordo já negociado por Lula com o governo chinês. Nos próximos 5 anos estão acertados que volumes de trocas no valor de até R$ 157 bilhões (equivalente a aproximadamente US$ 27,7 bilhões -cerca de 20% das transações Brasil-China em 2024-) poderão realizadas em cruzeiros e yens, sem a ponte do dólar. É um começo. E no mesmo sentido, avançam conversas com o México, Índia, Rússia, Nigéria e outros países. O Brics é parte disso, que com certeza ameaça a supremacia global do dólar.
O que isso tem a ver com o combate ao aquecimento global? Tudo. A ausência de Trump nas reuniões da COP buscam impedir negociações que ligariam o combate à fome ao combate à ditadura do dólar, e que podem levar a uma articulação global diferente da atual, que opera em favor da sustentação do império norte americano.
Vale lembrar que atualmente as trocas Brasil-China também prometem avanços no campo da tecnologia digital orientada para o fortalecimento da agricultura familiar. Nisso se evidencia aquele nexo buscado pelo governo Lula, entre o combate a fome, o manejo não predatório de ecossistemas agrícolas e o empoderamento de agricultores familiares que hoje recebem pouca atenção e apoio, mas detém (segundo o Censo Agro 2017) 77% dos 5,073 milhões estabelecimentos agropecuários existentes no país. Nosso desenvolvimento passa pela incorporação daquele universo a um projeto de nação. E todos sabem disso.
Neste processo, ao afirmar que “não seremos submissos a nenhum interesse externo”, Lula está mostrando que é possível agir em defesa da soberania de todos os países, em um horizonte de negociação e multilateralismo que deve valer para todos, com o apoio de todos.
E é nesta linha que foram anunciados, no Programa Brasil Soberano, R$ 40 bilhões para proteger ocupações produtivas desenvolvidas pela agricultura familiar e ameaçadas pela sobretaxa trumpista. Agora, com o slogan, “Do lado do povo brasileiro”, o custo dos alimentos vem caindo e a alimentação escolar será enriquecida com mel, peixes, açaí, castanhas e outras frutas afetadas pelo tarifaço, que serão compradas pelo governo com recursos do PAA e da PNAE.
Entretanto, um problema se mantém relevante: Trump não está sozinho. Ele conta com bandidos a seu serviço, atuando entre nós.
Esta semana, após identificar a multiplicação massiva de mensagens incentivando corrida para retirada de depósitos do Banco do Brasil (com objetivo de “gerar caos no Sistema Financeiro Nacional”), a AGU pediu investigação de responsabilidades dos deputados federais Gustavo Gayer (PL-GO) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Está em andamento mais uma sabotagem de golpistas brasileiros, a serviço de desejos do império norte americano, contra o desenvolvimento de nosso pais.
Novamente, nos encontramos diante daquela questão das lideranças que disputam a condução do destino dos povos. Nossos golpistas, que ocupam espaços de representação social em todos os poderes da república, apostam no modelo Trump, como liderança ideal para aquilo que eles entendem ser um mundo “melhor”. Para eles, é claro.
E eles afirmam crer que Trump quer, em “nosso interesse”, salvar Bolsonaro da justiça brasileira, por solidariedade em relação a seus méritos.
E que méritos seriam esses? O que Trump poderia estar vendo, de útil, no modo Jair de ser? Afinal, se trata de conexão entre interesses do cara mais poderoso do planeta e de um político medíocre, envolvido em rachadinhas que surrupiavam salário de funcionários públicos, um mentiroso costumaz, ladrão confesso de joias, capaz de assumir sua vontade de comer carne indígena e de sentir “clima” com refugiadas adolescentes… alguém que educou filhos que lhe dizem VTNC, e que repete falas assopradas por gente do nível do malafaia….O que Trump espera tirar, de vantajoso para ele, nesta aproximação com Bolsonaro?
A resposta é: ele, espera eliminar o Brasil de Lula.
Ele pretende capturar nosso país, roubar nossas riquezas, impedir articulações entre os povos que oprime, e dominar o mundo.
E conta, para isso, com seus golpistas de estimação. E, está usando aquele estorvo, assim como sua prole e seus seguidores. Todos ali, são instrumentos contra o papel que este país pode vir a exercer, em defesa da humanidade e, portanto, contra os interesses do gestor do império decadente.
Portanto, e voltando ao começo: estamos vivendo um momento decisivo. O que acontecer no Brasil afetará o mundo. E para assumir um papel protagonista em relação ao futuro, precisamos proteger o presidente Lula e apoiar seu projeto neste governo de transição.
O caminho oposto está evidenciado no que vinha ocorrendo, entre nós, desde a deposição de Dilma, agravado nos períodos Temer-Bolsonaro e que atinge o paroxismo agora, com as ameaças de Trump e as dificuldades que estamos começando a compreender.
Não há outra alternativa.
Precisamos entender a realidade como algo em construção, prender os golpistas e redesenhar nossos sistemas de relacionamentos e parcerias, em solidariedade respeitosa com nossos vizinhos da esquina e dos outros locais do planeta.
Lembrei agora daquele filme do Wim Wenders, que fez sucesso nos anos 1970. O Medo do Goleiro diante do pênalti. Naquele caso, a tensão, a ideia de evitar o gol e tudo que vem a seguir dependem de uma decisão equivocada, em um instante decisivo.
Parece ser este o nosso caso.
No drama dos goleiros poderia ser mais simples. Hoje se sabe que ângulo dos ombros e da perna de apoio do batedor em relação ao chão, são detalhes das movimentações do corpo que indicam se a bola irá para a esquerda, para a direita ou para o centro do gol. Ainda assim, os goleiros cuidam para onde olha quem vai chutar e seguem a intuição, deixando o acaso determinar seu destino.
Portanto, naquele caso as informações em si tendem a ser desprezadas, ou são consideradas insuficientes. Neste e em outros exemplos, as evidências mostram que não basta o conhecimento. Que para a construção de melhores resultados, se fazem indispensáveis a internalização e o compromisso com as mudanças de comportamento.
Em nossa situação, esta parece ser a realidade. Ou nosso comportamento gera compromissos que alteram nossa consciência, ou não teremos influência sobre nosso destino. Se trata de agir em conformidade com o futuro que queremos. De entender que falar, esperar, rezar, fazer positivo e bater palminhas nas mídias digitais, não adianta.
Ou bem nos movimentamos de forma consciente e orientada pelas informações que temos, ou aquelas dificuldades que pareciam ocasionais, e destinadas a se abater sobre alguns desafortunados, vão se colocar num crescente, como realidade inevitável para todos.
Uma música? Axé a capella, de Maria Gadú.
Lembrete: É fundamental que em 2026 os senadores eleitos nos respeitem e mereçam nosso respeito. Fora golpistas! Sem anistia aos traidores, sem tolerância com os vendilhões da pátria.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato.